User Tools

Site Tools


schelling:estudos:tilliette:11

11 Mitologia

TILLIETTE, Xavier. L’absolu et la philosophie: essais sur Schelling. Paris: PUF, 1987.

1. Acompanhando a mitologia o itinerário de Schelling, desposando suas fases sucessivas, de modo que se poderia tomá-la como fio condutor do desenvolvimento, não sendo, porém, o propósito aqui servir-se da mitologia para avaliar a constância e a inconstância dessa “filosofia em devir”, pressupondo-se antes um pensamento em movimento, atento ao seu rastro, voltando-se o olhar para um de seus conteúdos, tentando-se mais uma vez surpreender Schelling em trabalho, às voltas com um mundo de conhecimentos a ordenar e a dominar.

2. Estando a mitologia no princípio da formação intelectual de Schelling, atestando sua primeira publicação, De prima malorum humanorum origine (1792), e a seguinte, o artigo dos Memorabilien “Sobre os mitos, as lendas históricas e os filosofemas do mundo primitivo” (1793), bem mais que um interesse escolar de aluno muito dotado.

  • apoiando-se em antecessores e precursores, ilustres ou não, como Herder, Eichhorn, Heyne, Hess, imprimindo o jovem Stiftler, instruído por Herder, sua própria marca — não apenas estilística: dando o termo filosofia no sentido mais amplo
  • revestindo a “filosofia primitiva”, contemporânea da infância do mundo, forma mítica, lendária: sendo uma filosofia em imagens, inferior à forma conceitual, mas fazendo precisamente a forma sensível o caráter e o encanto da filosofia originária
  • não sendo o relato imaginativo um invólucro, fazendo a história corpo com a verdade — apesar da expressão talvez equívoca de “filosofema mítico” —, exibindo o mito sua verdade, que será abandonada mas não traduzida, não fazendo, numa linguagem figurada, poesia e filosofia senão um
  • tendo já sido retida a lição de K. Phil. Moritz, devendo o mito ser tomado e compreendido como tal: devendo cada mito ser propriamente compreendido enquanto mito, não sendo compreender verdadeiramente um mito e crê-lo como verdadeiramente compreendido, certamente, uma só e mesma coisa
  • residindo aí o essencial do mito, na invenção de uma verdade sensível, falando à sensibilidade, encontrando-se aí sua poesia, podendo ser “sem aparatos nem ornamentos”

3. Inserindo-se assim, facilmente, na linha de um desenvolvimento precoce, o famoso “Programa Sistemático do Idealismo Alemão”, cuja atribuição a Schelling permanece muito provável, não tendo a adesão fervorosa ao fichteanismo recalcado as preocupações anteriores, sendo precisamente o Programa um díptico das tendências, transcendental e estética, que se dividem o ímpeto do filósofo nascente.

  • situando-se a proclamação da “nova mitologia”, mitologia da razão “a serviço das ideias”, no prolongamento da “filosofia sensível”, devendo a razão secretar sua mitologia, tal como outrora a mitologia filtrou sua razão

4. Permanecendo a ideia de nova mitologia como espécie de motivo e emblema sobre as próximas obras de Schelling, mas estando ali votada, por causas examinadas alhures, a lenta extinção, estando Schelling a ponto de esquecê-la quando enuncia a seu confidente August Wilh. Schlegel que vai começar “com a mitologia” — com a antiga mitologia, entenda-se, a única que vale.

  • aludindo às suas aulas em preparação de filosofia da Arte, lecionadas em Jena e Würzburg, sendo esse o período da “filosofia da Identidade”, englobando a filosofia absoluta todas as suas formas ou manifestações particulares, não sendo uma filosofia estética senão o Absoluto (o Um e Tudo) exposto ou apresentado sob a forma ou a potência da Arte
  • esforçando-se por isso seus teoremas gerais em reproduzir more geometrico a exposição do Absoluto, de modo que a “construção da filosofia da Arte” arriscaria afundar na monotonia e na abstração se não houvesse subjacente o aporte empírico e documental

5. Permanecendo muito esquemáticas as belas evocações mitológicas ao final de Bruno e do artigo controverso “Sobre a relação da filosofia da Natureza com a filosofia em geral”, contentando-se do mesmo modo as Lições sobre o Método dos Estudos Universitários com um panorama das religiões do velho e do novo mundo, o helenismo e o cristianismo.

  • desdobrando-se, em contrapartida, o paralelo de modo bastante amplo na Filosofia da Arte, não tendo porém a informação mítica progredido sensivelmente, provindo de K. Ph. Moritz, evidentemente também da excelente cultura greco-latina de Tübingen
  • realçando-a, porém, a visão: o mundo luminoso dos deuses, o panteão helênico, tal como Winckelmann, Goethe, Schiller o haviam restituído à nostalgia dos filhos do século que se encerrava, tendo Schelling e Hegel testemunhado essa nostalgia vivida em seu amigo Hölderlin, aedo de uma cidade grega ideal
  • vibrando algo desse encantamento na mitologia estética de Schelling, sendo os deuses de que a Arte se alimenta singulares universais, absolutos limitados, sendo para a fantasia o que as Ideias são para a razão
  • estando sua formação submetida à lei da Beleza (sendo as representações feias apenas inversões do ideal), exibindo uma totalidade, um mundo: pois a mitologia (grega) corresponde a todas as possibilidades incluídas no reino das Ideias
  • formulando Schelling, nessa ocasião, a regra capital da tautegoria — a coisa sem o nome —, já furtivamente alegada na dissertação juvenil, servindo-se dos termos de Moritz: não a significam eles (Júpiter ou Minerva) (potência ou sabedoria), são-na eles — afirmação definitiva e de longo alcance
  • não impedindo isso, porém, que a fisionomia dos deuses principais esteja calcada sobre a construção sistemática ou ao menos coincida com ela, não forçando Schelling, todavia, as correspondências, deixando campo à imaginação

6. Omitindo-se a comparação com o cristianismo e sua mitologia, bem como o revezamento da mitologia pela filosofia, e depois a questão da nova mitologia relançada pelo sucesso da física, ressaltando dois traços que fazem pressagiar o desenvolvimento ulterior.

  • primeiro, sendo o mundo mítico, em sua exuberância e profusão, ordenado, organizado: por mais complicado que seja, sendo o panteão “um reino luminoso de figuras manifestas e reconhecíveis”, harmonioso pela força da individualidade e pela ideia de teogonia, que preserva a absoluidade na dependência mútua
  • resultando disso, em segundo lugar, ser o caos caro a Friedrich Schlegel, que o aplicava ao florescimento dos deuses no Discurso sobre a Mitologia, recalcado ao segundo plano, como o fundo sombrio e informe, a noite tenebrosa, “o primeiro fundamento da existência”: engendrando-se do caos as primeiras figuras monstruosas da mitologia, o Crono tudo-devorador e seus filhos os Titãs
  • não estando, portanto, ausente da perspectiva estática da Identidade o germe do processo, do movimento, não se tendo porém, em suma, senão um esboço

7. Entrando esse esboço, como o resto, na grande latência do pensamento de Schelling, latência característica de sua “mutação”, estando o vasto projeto que medita, amadurece e esboça depois do escrito sobre a liberdade, a saber a bíblia laica das Idades do Mundo, votado ao aborto, redigindo-se (mas não publicando-se) apenas o Livro do Passado.

  • não sendo isso, porém, fracasso sem compensação, erguendo-se ao lado ou no lugar do canteiro abandonado o imponente edifício da “última filosofia”, que aliás Schelling, apesar do desvio da inspiração inicial, apresenta em Munique, em 1827, como o “sistema das Idades do Mundo”
  • por que não prosseguiu no rastro do Livro do Passado? Tendo-se dramatizado muito essa interrupção, guarnecendo-a de razões internas, sendo a melhor hipótese que a obra, posta e reposta no tear, tornou-se outra coisa ao avançar — precisando-se a descoberta anterior da positividade como positividade histórica no sentido textual e documental, estando esse problema de interpretação, porém, fora do escopo atual

8. Tendo também aqui a mitologia acompanhado e mesmo precedido o curso das coisas, sendo com efeito o primeiro sinal de uma inflexão decisiva — no seio da grande mudança à qual se prende o nome dos Weltalter — a conferência “sobre as divindades de Samotrácia”, dada sem hesitar como “apêndice dos Weltalter” e publicada com notas carregadas de erudição.

  • sendo estridente a recrudescência de interesse pelas mitologias e tradições sagradas, tendo Schelling desfeito o manto faiscante do mago para vestir a austera batina do filólogo
  • seguindo com isso não apenas sua própria inclinação, mas sofrendo o contágio de seu tempo, exibindo o início do século XIX espetacular retomada dos estudos bíblicos e mitológicos, a redescoberta apaixonada do Oriente antigo, e sobretudo um impulso das expedições e explorações arqueológicas
  • oferecendo-se considerável colheita de documentos e monumentos à curiosidade dos pesquisadores, dominando esse inventário do mundo antigo grande obra, maciça, monótona, embora abundante: a de Friedrich Creuzer, que mais que as flamejantes evocações de Görres, devolveu à “simbólica e mitologia” seu lugar na atualidade histórica

9. Rivalizando com os eruditos em seu terreno (correndo o risco de atrair, com Creuzer, a zombaria de Goethe), adotando Schelling a ideia creuzeriana de Ursystem, de um sistema primitivo do mundo e do pensamento humano, que depois se teria fragmentado e disperso nas diversas culturas.

  • podendo, com vestígios e destroços, tentar reconstituir o sistema originário, cujo berço Fr. Schlegel situava na Índia, enquanto Creuzer o reportava preferencialmente ao Egito
  • assinalando, porém, precisamente a colocação em suspenso da ideia de Ursystem a passagem dos Weltalter à filosofia positiva da mitologia, tendo o Ursystem parecido a Schelling demasiado comprometido pela tese do monoteísmo estilhaçado

10. Pertencendo a Filosofia da Mitologia, aparentemente completa e fechada sobre si mesma, a um grande conjunto inacabado, do qual constitui uma das asas principais, estando ligada à “filosofia geral” (Trindade e Criação) pelo filosofema da queda, e conectando-se à “filosofia especial” da Revelação pela doutrina dos mistérios.

  • sendo seu percurso, aliás, demarcado pelas figuras sucessivas do princípio A, do segundo princípio, que emergirá no limiar da mitologia como o Messias do cristianismo
  • sendo do lado da filosofia racional ou negativa, primeiro volume do sistema, embora qualificada de introdução racional à filosofia da Mitologia, a relação mais escabrosa: delegando ali a mitologia seu herói trágico, Prometeu, mas sendo a cumplicidade interna, dissimulada, que torna a mitologia, por sua parte, negativa em relação à Revelação, o caráter de necessidade, de fatalidade, que comanda o trajeto da razão tanto quanto a odisseia da consciência serva da mitologia, de modo que a transição ao cristianismo se dá aqui e ali por crise e reviravolta

11. Permanecendo não obstante a Filosofia da Mitologia largamente autônoma, império dentro de um império, tendo Schelling tido o sentimento fundado de fazer obra original, particularmente no quadro das teorias da mitologia, explicando-se ele próprio longamente na Introdução Histórico-Crítica.

  • para justificar a denominação filosófica, fazendo valer, de modo proléptico, que a mitologia reproduz o processo universal, absoluto, sendo por isso suscetível de explicação filosófica, como a Natureza, como a História e, acessoriamente, como a linguagem

12. Não sendo essa filosofia da mitologia de modo algum uma filosofia extraída da mitologia (como se os mitos envolvessem filosofia rudimentar), nem tradução ulterior da mitologia em conceitos filosóficos, como praticaram os neoplatônicos após a decadência dos mitos — mesmo que numa dada época as noções filosóficas tenham começado a crescer sobre a vegetação mitológica.

  • sendo antes consideração geral da mitologia como objeto de filosofia, obtida por um alargamento da filosofia ao processo mitológico, acrescentando-se assim à filosofia uma dimensão, sem que a mitologia se veja reduzida a um aspecto
  • não tendo por isso Schelling dificuldade alguma em sublinhar que essa filosofia está subsumida sob a teoria geral, mantendo porém que, como explicação teórica, é a mais e a única compreensiva

13. Podendo, apesar dessas precauções, surpreender a expressão: não sendo a regra de interpretação, dessa vez oficialmente, a tautegoria? Entregar a mitologia à investigação filosófica não seria infringir a tautegoria? Como pode a mitologia explicar-se a si mesma e ter por chave a teoria das potências?

  • tendo os mitólogos que melhor aprenderam com Schelling, um Walter Friedrich Otto, um Karl Kerényi, retido sobretudo a tautegoria dos mitos e das figuras míticas: daí suas belas monografias divinas que, pelo agrupamento sábio dos traços, tornam falante a imagem do deus

14. Sendo falso, porém, apesar dos sarcasmos prodigalizados por Baader e outros, que Schelling tenha interpretado a mitologia à base de ideias preconcebidas, tendo-se as potências formado e moldado ao contato, não sendo a mitologia analisada fruto de a priori, mas a amálgama de uma documentação já elaborada (não se apresentando a mitologia em estado selvagem) e de uma indução heurística.

  • sendo enfim o benefício, até hoje inigualado, da filosofia mitológica, quaisquer que sejam certos aspectos aventurosos ou fantásticos, precisamente encarar a mitologia e as mitologias, esforçando-se por dar conta da ordenação complexa da memória mítica, e não de mitos isolados

15. Sendo o axioma gerador da explicação que a chave da mitologia está nela mesma, precisando essa fórmula, porém, ser precisada: estando a chave na mitologia, mas retrospectivamente; abrindo-se depois do fato.

  • sendo porque está acabado e superado que o processo mitológico pode ser rememorado e compreendido ao fio de uma anamnese, estando, durante o próprio processo, a consciência enfeitiçada, fascinada, alienada, sendo a humanidade “extática”
  • sendo a consciência presa de representações alucinantes, por vezes monstruosas, que, como pesadelos e sonhos febris, a mergulham em espécie de transe hipnótico, sendo incapaz de discernir ordem e razão nesse tumulto de símbolos e figuras, nesse desfile de avatares bizarros
  • tendo-se, porém, lentamente, o universo mítico esfarelado, decantado, começando a rememorar-se na mitologia grega, tendo, ao sacudir o domínio das divindades politeístas, a consciência podido iniciar sua conversão, sua “introversão”
  • sendo esse o revezamento da mitologia pelos Mistérios, supondo o processo mítico uma consciência extrovertida, exotérica, escondendo os Mistérios a face obscura, esotérica
  • voltando-se a consciência (a humanidade), assegurada de sua interioridade, liberta de seus fantasmas, para a mitologia extinta, pois enfim possui o deus que buscava

16. Sendo a figura tautegórica, arquetípica, da consciência mitológica Perséfone, celebrada no segredo dos Mistérios, aplicando-se todos os traços de sua doutrina à consciência originária.

  • sendo dela que convém dizer: “no fim se mostra o que era no começo”, procurando ela “a chave da mitologia”, sendo com efeito a consciência mítica “presa de seu deus”, virgem essencial ciosamente guardada no antro infernal
  • sendo, na paciência do processo, Perséfone, acarretando porém o rapto de Perséfone, a separação de sua mãe — consequência do combate que a consciência suporta —, o desdobramento da consciência, que se introjeta em Deméter: em busca da filha perdida, em busca do Deus real
  • excluída e enlutada de Perséfone, sendo a consciência pura ideal, que espera a reconciliação, fechando na salvação dos Mistérios, por assim dizer, o círculo da mitologia

17. Simbolizando Perséfone e Deméter, com efeito, a separação da consciência originária, faltando porém uma terceira causa pura ao processo subjetivo, interiorizado pelos Mistérios: sendo Dioniso, ele também “chave de toda a mitologia grega”, isto é, da mitologia por excelência, felicitando Schelling a Creuzer por tê-lo de certo modo reabilitado.

  • sendo Dioniso, filho de Zeus e de uma mortal, conceito eterno, perfilando-se em seu rastro a sombra de Cristo — do último dos deuses, sendo por isso Dioniso a cifra, o monograma oculto de todo o processo objetivo da mitologia
  • não se desvelando isso, a bem dizer, senão na Dionysos-Lehre dos Mistérios, estando porém Dioniso presente por procuração graças a predecessores, precursores, ao longo do processo teogônico
  • ligado ao segundo princípio, motor do processo e mola de seu movimento incessante, sendo Melkarte o Fenício, sendo o Messias e Servo sofredor, também Osíris, sob muitas reservas Krishna (figura contaminada), enfim Héracles, transplantado à mitologia grega
  • não sendo a gesta épica de Héracles, introduzida na mitologia grega, ali marginal, mas estrangeira, antes de ser retomada por Dioniso, cuja fábula se aparenta por tantos traços a esse ciclo independente de Héracles

18. Contraindo-se assim, por essa insistência sobre o “segundo deus”, a mitologia, que veicula uma “real história divina”, “cada vez mais em história das paixões e ações do segundo deus”, pairando, porém, acima dos atores engajados no processo até sua extinção, as causas puras, geradoras, os deuses formais e causadores que dele são os agentes.

  • sendo os deuses formais ingerados, ἀγέννητoι, os deuses superiores, inteligíveis, θεοὶ νοητοί, e, por isso, não submetidos ao processo, não mitológicos, sendo as puras potências ilesas, deuses eternos e, como tais, estranhos à consciência
  • erigindo-se notadamente na mitologia egípcia, sendo os outros, os deuses materiais, gerados, γεννητοί, os deuses propriamente ditos da mitologia, entrando no processo e na sucessão
  • sendo a essência da mitologia, com efeito, o politeísmo sucessivo, em contraste com o politeísmo simultâneo, que não é senão variante do monoteísmo imediato ou do panteísmo, dobrando o politeísmo simultâneo o politeísmo sucessivo, na medida em que os deuses de uma dada mitologia se agrupam em torno de um deus dominante
  • sendo o modelo acabado a mitologia grega, que realiza harmoniosamente o equilíbrio das potências e serve de medida às outras mitologias, sendo a “mitologia universal” e a retomada das outras mitologias, sendo a única a realizar a interferência ou antes a fusão dos deuses materiais e das causas formais
  • sendo Zeus e os seus deuses materiais no sentido mais elevado, isto é, sendo o deus real a matéria de seu ser, sendo obra das três potências cooperantes, mantendo-se cada um dos três grandes deuses sob o signo de uma das três potências hierarquizadas, Zeus sob a suprema, estando as puras potências formais reservadas aos mistérios de Dioniso

19. Tendo Schelling destacado sua interpretação da mitologia como processo teogônico da consciência, ou da humanidade, processo que se destaca de um tempo “não mitológico” de estagnação e torpor, um “movimento vivo”, uma sucessão, onde as mitologias como as figuras tiram sua significação de seu lugar no trajeto.

  • afetando a sucessão ritmo de tensões e distensões, de crises e combates, regido pela lei universal da catábole (servindo o momento anterior, ao desabar, de fundamento e degrau ao seguinte, que exalça), pois a sucessão é gradação
  • marcando-se no destino dos deuses e sua luta até a morte (por exemplo Tifão), e na transição das mitologias incompletas (a dois princípios, dualistas) às mitologias completas, egípcia, indiana, helênica, sendo a repartição dos princípios que permite ainda hierarquizar as mitologias completas
  • anunciando-se o movimento, a mudança, a sucessão, em fenômenos que formam as leis e estruturas do universo mitológico: o desdobramento masculino-feminino (tendo cada deus homóloga ou dublê feminino), a feminização ou, faltando essa, a emasculação do deus, a distensão, a expiração, a intumescência, a turgescência
  • acrescentando-se a isso os símbolos recorrentes, não sistematicamente recenseados, mas que reunidos dariam pequeno catálogo de imaginário mítico, tendo todos os termos figurados sua referência, correspondendo rigorosamente às fases e à fisionomia de um devir

20. Sendo o processo uma teogonia, uma genealogia dos deuses, povoando gerações divinas, pouco a pouco, a noite sagrada do paganismo, até que se ilumine na assembleia alegre e multicolorida do panteão helênico.

  • mais ainda: sendo o devir de um deus, sendo uma gênese divina, o que conta, sem o saber, a mitologia, assumindo o deus internado ao processo o longo labor e os sofrimentos do percurso de espiritualização
  • tendo lugar, enfim, o processo teogônico na consciência humana, aderindo à consciência religiosa que engendra a sequência das representações, indo a odisseia mitológica da posição essencial (em si) de Deus até a posição de fato e em ato, pressentida pelos Mistérios: do politeísmo ao monoteísmo vitorioso

21. Sendo a consciência, ao longo do processo, “alienada”, “infeliz”, “dilacerada”, por estar cativa de necessidade inelutável, que reforça ainda, em tal povo e tal religião, a resistência ao processo.

  • sendo o processo necessário, só se introduzindo nele o arbitrário e a liberdade quando revolto, com Homero, sendo porém esse processo benfazejo, sendo a história de uma desalienação e libertação, visando a gradação à uni-versio do Deus real
  • sentindo, porém, a mitologia, oriunda de catástrofe imemorial — o imemorial gravado em toda a filosofia schellingiana —, pesar sobre si o peso de uma maldição, de uma fatalidade, estando por ser a liquidação de um castigo, aliás votada a acabar, estando seu destino já assinalado
  • estendendo-se sobre ela, depois dos tumultuosos sobressaltos do começo, a sombra da morte doce, sendo essa melancolia particular do mundo pagão que impressionou tantos pensadores e poetas — até Péguy —, tristeza sem remédio e solene, imprimindo gravidade ao rosto fechado dos belos deuses gregos

22. Sendo isso, em linhas gerais, a explicação interna, tratando a explicação externa do labor indutivo do filósofo, que produziu resultado afinal admirável, pela massa e pelo detalhe, independentemente mesmo da inserção no sistema schellingiano.

  • sendo o esquema geral do politeísmo sucessivo fornecido pela Teogonia de Hesíodo: “já tendo ela por assim dizer feito o trabalho por nós”, tendo Schelling se inspirado também nas tríades e cadeias de deuses que o inventário dos mitógrafos, citado ocasionalmente, ordenara e classificara
  • beneficiando-se das genealogias de intenção especulativa encontradas em J.J. Wagner (a quem apelidava Polifemo!), Fr. Schlegel, J. Görres, cuja eloquência romântica não apreciava, Solger e outros
  • devendo mais do que deixa entender aos trabalhos recentes: de Creuzer (Dioniso), certamente, mas também de Preller (Perséfone), Buttmann (Héracles), Burnouf (Budismo), Abel Rémusat (China), Silvestre de Sacy (Elêusis)
  • pertencendo-lhe, porém, a concepção de uma anamnese apoiada em estruturas e formas recorrentes, mesmo que preparada pelo comparatismo em uso entre filólogos e mitólogos, Lobeck, K.O. Müller, Welcker

23. Não podendo evitar-se, nesse tipo de empreendimento, o perigo de sistematização, só se alcançando a coerência ao preço de uma escolha e uma eliminação, sendo porém, examinada sem prevenções, a mitologia de Schelling muito mais flexível, muito mais aporética, do que parece à primeira vista.

  • faltando muito para que a mitologia inteira e o que a ela se liga se dobrem à obediência do processo, não tendo Schelling usado do “Compelle intrare” com relação a fatos e documentos rebeldes ao enquadramento
  • sendo aliás o processo mitológico diversamente contrariado pelo não-mitológico, suscitando a lembrança do tempo não mitológico contracorrente de resistência à mitologia, sublinhando Schelling tudo o que há de não mitológico na doutrina persa, na “mitologia oprimida da doutrina de Mitra”, na imobilidade do budismo
  • sendo o problema dos Mithriaca objeto de digressão que conclui simplesmente que a exceção confirma a regra, oferecendo porém a China ainda exceção maiúscula
  • lançando-se também às trevas exteriores à mitologia os desenvolvimentos filosóficos ulteriores como os Vedas e a famosa Bhagavadgita, para a qual Schelling está cercado de garantes prestigiosos como Humboldt e A.W. Schlegel
  • não sendo integrada a fascinante e falaz teoria da Maya, tão útil em outros lugares da obra, sendo o Sanchoniathon alegado com precaução
  • de modo geral, em todo caso, sem dúvida em reação contra a indomania ambiente (já fora de moda, é verdade, mas guardando Schelling rancores tenazes), aparecendo a mitologia indiana como a mais elusiva, a menos enquadrada, permanecendo questões sem resposta, permitindo a luxuriância das lendas apenas discernimento parcial

24. Erguendo-se, na construção terminada, trechos inteiros sem destinação arquitetônica, tendo o construtor tido de rejeitar muitas pedras de cantaria, sendo por isso falso, ou ao menos muito exagerado, ter Schelling feito da mitologia o mimodrama das potências e nada mais.

  • dando antes seu procedimento, seus métodos em vários níveis, impressão de honestidade, de prioridade reconhecida ao fato, ao documento, tendo sido a filosofia da Mitologia posta em obra num momento em que a filosofia positiva conservava todo seu impacto empírico
  • havendo inegável sinceridade nessa declaração liminar, versão personalizada da tautegoria: “minha tarefa é mostrar as coisas como são”
  • não sendo o enorme drama mitológico a alegoria das potências, cuja aparência às vezes trai, sendo antes fenomenologia da consciência enfeitiçada e cativa, o profundo espelho de um passado aquém de toda lembrança e de toda consciência histórica, melhor ainda, os arquivos religiosos da humanidade, não tendo teoria alguma até hoje moldado visão tão grandiosa dessa atlântida esquecida
schelling/estudos/tilliette/11.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki