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5.2 Tendência de sabedoria

SCHUBACK, Marcia Sá Cavalcante. O Começo de Deus. A filosofia do devir no pensamento tardio de F.W.J. Schelling. Petrópolis: Editora Vozes, 2021.

Tendência de sabedoria: o começo da atenção descobridora na tensão de ser e não-ser

  • A vontade da não-vontade, entendida como serenidade, exprime a possibilidade como um entre-emergente no qual o devir se realiza como transcendência, isto é, como ultrapassagem de si mediante o retorno a si através do outro de si.
  • A vontade manifesta-se como bifurcação que preserva sua unidade por meio de atração, pois toda separação mantém aberta a possibilidade de retorno e, com isso, inaugura uma atenção voltada para aquilo que começa.
    • O começo não é impulso cego, mas inclinação atenta e descobridora.
    • Essa atenção constitui o pathos originário do saber.
  • O querer contém um saber porque toda tendência implica contraposição e orientação, embora vontade e saber não sejam idênticos; na liberdade serena, esse saber é igualmente sereno, um saber que não sabe.
  • Saber e atração exprimem a mesma dinâmica originária de contraposição, na qual a tensão de ser se recolhe atentamente à própria possibilidade e faz surgir a existência.
    • Essa atenção à tensão de ser constitui a sabedoria.
    • A sabedoria não é teoria sobre a existência, mas a própria vitalidade prática de seu começo.
    • Como saber sem objeto determinado, ela acompanha a vontade asserenada e permanece anterior a todo conteúdo de conhecimento.
  • A sabedoria é saber em ato e vida, isto é, conhecimento que coincide com a própria realização e criação da existência, razão pela qual pode ser compreendida como força, potência e prática originária.
  • O saber preserva sua sabedoria somente enquanto permanece atento à tensão simultânea de ser e não-ser que constitui toda vida.
    • Quando se fixa exclusivamente na existência já configurada, converte-se em conhecimento da substância e esquece o devir.
    • A vida permanece viva porque nunca elimina inteiramente a retração e o não-ser que sustentam sua possibilidade.
    • Por isso, toda vida implica simultaneamente morrer, enquanto uma satisfação absoluta e sem abertura para além de si equivaleria à cessação do próprio movimento vital.
  • A sabedoria não se localiza exclusivamente no início, no meio ou no fim da vida, mas perpassa todos esses momentos como força contínua de começo.
  • Sabedoria é a própria tensão de ser e não-ser que atravessa a vida inteira, retirando-se em cada realização para poder continuar dando começo ao devir.
  • Se vontade é originariamente tensão e não intenção, então a sabedoria pode ser compreendida como vontade de ser e não-ser, horizonte no qual a questão da vontade se converte em questão acerca do próprio sentido do ser.
  • A sabedoria não designa um saber de objetos determinados, mas a força pela qual a existência começa, delimita-se e preserva sua possibilidade de ultrapassar os limites que assume.
    • A contraposição originária não é relação entre sujeito e objeto, mas resistência vital pela qual o devir constitui limites sem perder sua abertura.
    • A direção do movimento precede toda finalidade determinada e constitui a condição de possibilidade de qualquer intenção e de qualquer saber.
    • A sabedoria é essa atenção originária à tensão de movimento e, por isso, a possibilidade de todos os conteúdos posteriores de conhecimento.
    • A vontade serena tende a permanecer junto à própria possibilidade, enquanto a vontade de existência tende para fora de si e procura determinar-se.
    • A essência da vontade aparece, assim, como tensão interna entre vontade do fundamento e vontade de existência.
  • A distinção entre vontade do fundamento e vontade de existência aprofunda a diferença entre fundamento da existência e existência, pois o devir só permanece possível se cada realização conservar retraída a possibilidade de continuar transformando-se.
  • A partir das Eras do mundo, a distinção ontológica entre fundamento e existência passa a ser formulada também como tensão entre vontade do fundamento e vontade de existência.
  • Vontade e sabedoria revelam sua conexão originária quando são pensadas a partir do começo: a existência aparece como passagem do ilimitado ao limite e como apresentação de si, não como aplicação de um conteúdo previamente determinado.
    • O saber originário é fazer aparecer, isto é, fulguração.
    • Todo aparecimento exige simultaneamente retração, pois só algo que pode também desaparecer pode propriamente aparecer.
    • A tensão entre manifestação e retraimento constitui, assim, a abertura na qual se originam movimento, direção e sentido.
  • A filosofia positiva só pode pensar o absoluto em sua positividade se o libertar de toda intenção e finalidade externa, compreendendo-o como eterno começo que conserva a possibilidade em cada realização.
    • O devir depende da retração do fundamento de possibilidade diante de toda existência determinada.
    • Essa retração não é falta, mas condição para que o absoluto permaneça criador e nunca se esgote no que já veio a ser.
  • O absoluto caracteriza-se originariamente por retrair algo em seu próprio ser e, ao ultrapassar suas possibilidades iniciais sem anulá-las, tornar-se transcendente.
  • Transcendência não significa deslocamento para uma região exterior, mas movimento interno pelo qual o ser ultrapassa suas próprias determinações e preserva aberta sua possibilidade de continuar vindo a si.
    • A vida transcende quando passa além de cada configuração particular para permanecer viva.
    • A retração do fundamento preserva a abundância originária do possível e constitui, nesse sentido, uma forma de doação.
  • A articulação entre retração e transcendência permite superar a concepção metafísica de transcendência como exterioridade inacessível e pensá-la como devir do próprio absoluto.
    • O transcendente não se retrai apenas do conhecimento humano, mas primeiramente de si mesmo, preservando a possibilidade de novas determinações.
    • A retração é a forma positiva pela qual a possibilidade permanece aberta no interior da existência.
    • O para além da transcendência deve ser entendido como movimento de si para si, no qual exteriorização e interiorização pertencem ao mesmo devir.
    • Retração e atração constituem conjuntamente a dinâmica do começo: a possibilidade se recolhe ao mesmo tempo que se exterioriza e, por isso, pode dar origem à vida sem esgotar-se em nenhuma de suas configurações.
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