schelling:estudos:schuback:4.4
4.4 Genealogia da natureza
SCHUBACK, Marcia Sá Cavalcante. O Começo de Deus. A filosofia do devir no pensamento tardio de F.W.J. Schelling. Petrópolis: Editora Vozes, 2021.
Genealogia da natureza: o espaço da concreção e o tempo da duração
- A essência do fundamento como poder-ser conduz ao sem-fundo da possibilidade enquanto doação integral, de modo que ser só pode ser potência de ser quando é também capacidade de receber e acolher a doação de ser, configurando um salto do ser no próprio ser.
- A criação define-se como capacidade de receber a doação integral do ser e, portanto, como concreção em que dar e receber copertencem.
- O começo não se divide entre um começo de Deus e outro do mundo, mas constitui um único movimento em que a possibilidade se realiza sem deixar de permanecer possibilidade.
- A criação é, assim, o recebimento existencial da própria doação da divindade.
- O sem-fundo somente se realiza diferenciando-se em começos igualmente eternos, nos quais a totalidade da essência permanece igualmente presente.
- O eterno começo é uma duração criadora pela qual o começo de si mesmo acontece enquanto começo de um outro sem jamais converter-se num ponto abandonado no passado.
- O começo permanece começando em tudo o que começa e constitui, por isso, a própria origem da duração.
- O salto entre doação e recebimento designa essa continuidade do começo como fundamento de toda temporalidade.
- Pensar o começo da duração exige compreender tempo e espaço a partir da simultaneidade, pois somente nela o começo pode permanecer presente em tudo aquilo que começa.
- O absoluto reúne simultaneamente finito e infinito, já que seu fim coincide com seu próprio começo.
- A infinitude divina somente se realiza no finito, sem que este seja excluído da realidade do absoluto.
- A identidade entre finito e infinito transforma o limite numa dinâmica real de diferenciação, exigindo que espaço e tempo sejam compreendidos a partir da simultaneidade do próprio começo.
- No espaço, a simultaneidade manifesta-se como concreção, isto é, como crescimento conjunto no qual cada transformação conserva integrado o lugar anteriormente conquistado.
- O espaço não é um vazio indiferente que contém coisas, mas o resultado de uma força de reunião pela qual cada ente conquista consistência e lugar próprios.
- Coisa e lugar pertencem reciprocamente um ao outro, pois o lugar emerge da própria força pela qual a coisa se constitui.
- A espacialidade torna-se, assim, dimensão concreta e dinâmica do próprio devir.
- A dificuldade de compreender essa espacialidade orgânica decorre do predomínio da concepção substancialista da física newtoniana, que reduz o espaço a uma estrutura quantitativa fundada numa compreensão do ser como algo previamente determinado.
- A gravitação newtoniana exemplifica uma concepção na qual cada corpo depende exteriormente de outro para seu lugar e sustentação, produzindo uma regressão indefinida e impedindo que qualquer ente seja pensado como possuidor em si mesmo do próprio princípio de localização.
- Aquilo que subsiste em si precisa ser compreendido como uma expansão concreta que funda sua singularidade e seu lugar a partir do próprio movimento, abrindo a questão correspondente da temporalidade dessa simultaneidade.
- A duração pode ser compreendida por meio da ressonância musical, na qual um começo produz outros sons sem deixar de permanecer presente neles.
- O toque de um tambor dura porque sua ressonância faz nascer harmônicos que não constituem sons simplesmente exteriores, mas diferenciações internas do mesmo acontecimento sonoro.
- A diferença entre o som inicial e seus harmônicos não é uma diferença entre coisas independentes, mas a própria duração do primeiro som.
- A ressonância torna-se, assim, imagem privilegiada da gênese do tempo como começo que se prolonga ao diferenciar-se em si mesmo.
- A filosofia positiva prepara uma genealogia do tempo ao reconhecer que a força própria do tempo reside no eterno e que cada momento faz surgir novamente a totalidade temporal como articulação dinâmica de passado, presente e futuro.
- Essa perspectiva exige abandonar a concepção mecanicista de um tempo dotado de uma única direção.
- A sucessividade linear constitui uma abstração que elimina do tempo sua vitalidade e oculta a questão de seu próprio começo.
- Se cada momento é concebido apenas como situado entre passado e futuro, torna-se impossível explicar o primeiro momento e sua origem.
- A temporalidade verdadeira consiste na duração percussiva do eterno começo, pela qual cada momento recomeça a totalidade do tempo.
- A criação assume, assim, a forma de uma creatio continua, em que o criado não se separa essencialmente do começo, mas é sua ressonância e duração.
- Uma genealogia do tempo apreende sua essência como começo de si mesmo e sua duração como simultaneidade da totalidade, não como extensão mensurável.
- O tempo não é um meio distinto das coisas, mas o movimento pelo qual cada configuração faz ressoar seu próprio começo.
- A eternidade manifesta-se como presença simultânea do todo na diferença interna de suas realizações.
- A eternidade não deve ser entendida como duração infinita, mas como ser-todo-ao-mesmo-tempo e como origem na qual originante e originado permanecem vinculados.
- A diferença entre começo e começado constitui a própria ressonância do eterno, razão pela qual começo de Deus e começo do mundo não são dois acontecimentos simultâneos, mas diferenciações igualmente eternas do mesmo começo.
- O mundo é a duração criadora desse começo e cada ente manifesta em si todo o tempo de sua origem.
- A criação do mundo coincide, assim, com a gênese da própria temporalidade.
- O começo das coisas não ocorre dentro de um tempo exterior previamente existente, pois é o próprio ato criador que introduz e funda o tempo nelas.
- A consequência dessa concepção é reconhecer uma essência temporal própria às coisas, que não simplesmente existem no tempo, mas fazem surgir um tempo interior a partir de seu próprio começo.
- Cada ente é começante porque sua existência é ressonância singular do eterno começo.
- Ao carregar simultaneamente passado e futuro, cada coisa abre-se para além de si e manifesta a totalidade temporal em sua própria constituição.
- A totalidade deve ser compreendida organicamente, como devir no qual cada singular funda novamente a relação entre seu passado e seu futuro.
- A própria percepção orgânica participa dessa tendência criadora, pois os sentidos não são receptáculos passivos, mas impulsos continuamente orientados para ouvir, ver e produzir abertura para além de si.
- Essa tendência para além de si constitui a subjetividade universal do tempo, pela qual cada coisa manifesta uma referência à totalidade e possui em si mesma sua própria dimensão temporal.
- O kantismo erra ao restringir a subjetividade do tempo à forma das representações humanas, deixando de reconhecer sua dimensão universal como estrutura própria das coisas.
- A subjetividade universal do tempo não designa prioritariamente um sujeito individual, mas a própria essência da referência que torna possível toda relação e a partir da qual o sujeito pode posteriormente apropriar-se abstratamente do tempo.
- A sucessividade representada pela consciência deriva de uma temporalidade já presente nos próprios entes, e não constitui sua origem.
- O tempo abstrato nasce da comparação entre tempos próprios de diferentes seres e constitui apenas uma construção representativa derivada da multiplicidade de temporalidades internas.
- A concepção comum de tempo como sucessão linear é contingente porque pressupõe a temporalidade própria das coisas, nas quais o começo continua começando em cada configuração.
- Nenhuma coisa surge simplesmente no tempo; em cada coisa, o próprio tempo surge novamente a partir da eternidade.
- Cada ente possui seu próprio centro temporal e recomeça, em sua singularidade, a cisão originária pela qual o mundo vem a ser.
- As coisas não estão originariamente inseridas num tempo exterior, mas constituem a duração singular de seu próprio começo, e a diferença entre fundamento da existência e existência exprime precisamente essa força primordial de diferenciação pela qual o Uno se manifesta na criação do mundo.
schelling/estudos/schuback/4.4.txt · Last modified: by 127.0.0.1
