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Rosset (1967) – Vontade

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Assim, a Vontade, que governa tudo, não possui em si mesma nem fim, nem origem, nem justificativa para seu próprio poder coercitivo—e apenas se repete eternamente. Ela não procede de nada e não conduz a lugar algum. A conclusão inevitável é que a Vontade carece de todas as características da própria Vontade: a última absurdidade da vontade schopenhaueriana reside no fato de que ela é incapaz de querer. Atribuímos a noção de vontade a um conjunto de impulsos sem sentido, guiados pela ilusão inspirada pelo desejo vital. Nada na Vontade pode ser interpretado como um “querer”, e todas as tendências que dela derivam compartilham essa mesma ausência de vontade. A vontade, que nunca deseja, gera impulsos fictícios. Como não há vontade na Vontade, também não há emoção, desejo ou ódio nos sentimentos humanos. O absurdo das paixões não está na sua força impositiva e insaciável, mas na ausência que se oculta sob sua presença ilusória. As paixões desempenham um papel teatral do “como se”—como se houvesse amor, como se houvesse ódio, como se houvesse emoção—assim como a Vontade age como se quisesse.

Schopenhauer adotou a famosa definição shakespeariana: “O mundo é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, e que não significa nada.” Se o teatro reflete a vida dos homens, então estes, por sua vez, compõem outro teatro igualmente fictício—e ainda mais, pois já não refletem nada. O homem é um personagem sem ator que o sustente, inserido em um avesso que não tem lugar concreto. Seus atos aguardam em vão um nível qualquer de “realidade” a partir do qual possam ser interpretados. A filosofia schopenhaueriana não busca interpretação e rejeita como vã qualquer tentativa de substituir o silêncio absurdo. Não se deve esperar do filósofo razões para viver.

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