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rosset:2012:3

3 O que falar quer dizer

ROSSET, Clément. L'invisible. Paris: Les Éditions de Minuit, 2012.

  • Quando um amigo quer informar o prazer que teve num espetáculo, cujo cenário e encenação apreciou, costuma tentar partilhar o entusiasmo com uma frase como “Sabe, o cenário era meio… 'assim' e a encenação também muito… 'assim'”, acompanhada de gestos e trejeitos que pretendem informar mais sobre o que ele tenta em vão dar a entender.
    • Ele se serve de expressões cuja função Roman Jakobson chamou “fática” (phatique), destinada não a informar, mas a assegurar que o contato está bem estabelecido entre alguém e seu interlocutor, como “Alô”, “Bom dia, senhor” ou “Aleikum salam”.
    • O “sabe” (tu vois) inicial é fático, espécie de pedido de verificação (está me ouvindo bem, Maurice?), tanto mais lóquaz quanto nada dá a ver, como o “voilà”, isto é, “vê aí” (vois-là), a que se voltará.
    • O “assim” (comme ça) não é apenas fático: supõe acrescentar à garantia da comunicação algo comunicado, a substância de uma informação, anunciando uma precisão (espera-se que ele preceda de pouco a elucidação do “isso”, ou do “como é” [comment c'est], como diria Samuel Beckett) e um complemento de informação: eu disse que era genial, e agora explico, era “assim”.
    • Quem explica assim é semelhante a quem crê ver o que não vê ou ouvir o que não ouve: crê dizer algo quando nada diz, forma da ilusão descrita desde o início do livro.
    • Um italiano, ouvido por acaso no rádio, dizia igualmente, para partilhar sua admiração por Louis-Ferdinand Céline: Comunque, vedi?, Céline, quindi, cioè… voglio dire… ecco!
  • Como dotadas de função puramente fática, tais expressões são legítimas e úteis, pois sem elas a comunicação não começaria ou começaria sob maus auspícios, mas perdem toda pertinência quando, não contentes em abrir uma comunicação, pretendem também comunicar algo.
    • Essas informações vazias e as fórmulas ocas que as distribuem constituem a matéria, imaterial, de uma resposta a uma pergunta: um recente presidente da República francesa tinha o hábito, a meu ver muito astuto, de responder a toda pergunta com “Escute!” (Écoutez!), comunicação ideal e duplamente ideal, pois de um lado a comunicação se estabelece de modo sólido, íntimo (eu o escuto e você me escuta), e de outro nenhuma escória, nenhum conteúdo, a suja: não o ouvi e nada lhe disse.
    • A expressão mais corrente hoje para responder às perguntas, ou antes para não respondê-las, é “voilà” (eis), repetido até quinze vezes numa frase: como ganhou a corrida? Cheguei primeiro e voilà. Mas tinha contra si uma campeã mundial. Sim, mas ela chegou em segundo. E voilà.
    • O “voilà”, que significa a rigor um convite a ver ali, e só funciona às cegas quando usado sozinho, sem complemento que arruinaria seu efeito mudo ao precisar de que se trata (eis o pato, eis as ervilhas), cumpre à perfeição a função do “Escute!” do presidente Chirac, com sua clareza perfeita (olhe ali) e sua não menos perfeita obscuridade (não se diz onde é “ali” nem o que ver).
  • Essas palavras e expressões, que sugerem uma descrição que não vem, podem ser chamadas “palavras mudas” (mots muets), que não falam mais que o rosto invisível que se imagina ver ou o sentido da “música de fundo” imaginada por quem pensa que a música “exprime” algo.
    • Não se deve falar, a seu respeito, de “língua de pau” (langue de bois), pois esta mente, ao passo que a linguagem das palavras mudas nada diz: suposta a insistir no sentido e precisá-lo, só o embaralha e apaga.
    • Tal linguagem não serve só para disfarçar o pensamento, como dizia Talleyrand, mas antes de tudo para dissimular-lhe a ausência.
  • Sem aproximar a burrice (aqui a ausência de pensamento) da animalidade, cabe observar que certos animais, como os papagaios e sobretudo os mainás, falam sem sotaque notável a linguagem humana sem compreender palavra nem suspeitar de sentido, com propósitos indiscerníveis dos humanos, o que prova que esvaziam de todo pensamento, se não a linguagem, ao menos os sons dela, de modo mais radical que o mais obtuso dos homens.
    • Assim “fala” Rômulo, o cavalo sábio de Impressões da África, de Raymond Roussel, cuja morfologia particular da boca permitiu a seu escudeiro, Urbain, fazê-lo repetir sem compreender, à maneira de um papagaio, as palavras e frases que lhe dirigem, e logo, por iniciativa própria, o cavalo debita todo o repertório, com provérbios, trechos de fábulas, xingamentos e lugares-comuns, recitados ao acaso sem vestígio de inteligência.
    • Ao fim desse discurso abracadabrante, precisa Roussel, Urbain levou Rômulo, que ainda murmurava vagas reflexões, como um universitário tomado de demência no meio da exposição, que um bedel assistido por um enfermeiro leva para fora.
  • As palavras e frases parasitas, que atulham a fala a ponto de por vezes ocupá-la inteira, não são simples tautologia, embora pareçam se aproximar dela: “o cenário é assim” não está longe de “é assim” nem de “isso é isso”.
    • A fórmula oca sugere que isso se parece com isso, pode ser comparado a isso, e não que isso é isso, apresentando-se como dispensadora de uma informação que não dá, ao passo que a tautologia só insiste no princípio de identidade.
    • A fórmula oca ou palavra muda não só nada informa como desinforma: a tautologia nos deixa com fome, mas com a certeza de que isso é isso, enquanto a descrição vazia nos priva dessa última certeza, acrescentando que “isso é justamente o que não posso dizer nem saber”, e por isso a frase “a peça de ontem tinha um cenário” diz mais que “tinha um cenário… assim”, complemento que tende a dissolver o objeto e a instilar dúvida sobre sua existência.
    • Timante, no Misantropo de Molière, parece habituado a “falsas confidências”, em lembrança de Marivaux: sem cessar tem, baixinho, para romper a conversa, um segredo a dizer, e esse segredo nada é.
    • Convém falar de infratautologia (infra-tautologie) e não de tautologia a propósito desses “vãos propósitos”: a fórmula da tautologia é “A é A”, a da infratautologia é “A = ?”, e A vale mais que ?, ou, em matemática-ficção, A > ?, pois que um cenário seja um cenário ensina pouco, mas mais do que seja não se sabe o quê.
  • Wittgenstein observa que, ao descrever o modo como cada um age, fala ou se senta, só se pode responder “assim, deste modo”, e, se o interrogador insiste, “deste modo que ele tem, que lhe é particular”, e a que se assemelha? A esse modo mesmo.
    • Wittgenstein volta como de hábito ao ponto de partida, preferindo a tautologia ao terreno baldio da infratautologia, mas notou que “particular” é ambíguo, com dois sentidos: singular (que ele chama uso transitivo) e intenso (uso intransitivo).
    • Diz-se que o emprego frequente de certo encadeamento de acordes é particular a um compositor, e também que uma obra emocionou particularmente, e os dois sentidos se confundem: é muitas vezes por só se parecer consigo mesma (ser “particular”) que uma pessoa é “particularmente” apreciada.
    • René Lévesque, ministro quebequense independentista, exprimia essa proximidade em fórmula polêmica: agora compreendo por que todos falam de um estatuto particular para o Quebec, quer dizer que somos particularmente bobos (caves).
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