rosenzweig:estrela:1.2.1
1.2.1 Cosmologia negativa
ROSENZWEIG, Franz. L’Étoile de la Rédemption. Tr. Alexandre Derczanski et Jean-Louis Schlegel. Paris: Seuil, 1982
- O mundo parece envolver-nos: vive-se nele, mas ele também está em nós; penetra-nos e, a cada sopro da respiração e a cada movimento das mãos, reflui para fora. É para nós a evidência, tão evidente quanto o próprio Si-mesmo, mais evidente que Deus: aquilo que tem a propriedade de ser compreendido como óbvio, por si mesmo.
- Há muito, porém, a filosofia passou por cima dessa evidência e, num ímpeto sempre renovado, quis fazer ora do eu, ora de Deus o ponto de partida do compreender (Verstehen), reduzindo assim a zero a evidência (Selbstverständnis) do mundo. O que resta dela, como saber da “coisa em si” ou sob outro nome dado a esse ínfimo resíduo infinitesimal, seria propriamente o objeto de uma cosmologia negativa.
- Que esse nome não tenha sido proposto com a mesma facilidade que o de teologia negativa deve-se mais a simpatias e antipatias culturais que a razões objetivas: os amantes de Deus frequentemente não são amantes do saber, e vice-versa, ao passo que amantes do mundo e amantes do saber se acordam mais ou menos entre si, como os próprios conceitos de mundo e de saber.
- Por isso o “resultado da ciência” de que nada se pode saber de Deus foi melhor aceito que o mesmo resultado quanto ao mundo. Resiste-se a ambos e recusa-se ver neles resultados: se a ciência chegou a tal resultado, conduziu-se ad absurdum. Não é necessariamente falso o resultado, mas o trajeto que devia fazer dele um resultado. Por isso, como na questão de Deus, toma-se esse “resultado” como ponto de partida.
Sobre o método
- Do mundo nada se sabe, e também aqui o nada é nada do nosso saber, nada determinado e singular, trampolim de que é preciso saltar para o “algo” do saber, o “positivo”. Pois se “crê” no mundo, ao menos tanto quanto em Deus ou no próprio Si-mesmo, e por isso o nada dessas três entidades só pode ser hipotético: apenas um nada do saber, pelo qual se alcança o “algo” do saber que circunscreve o conteúdo dessa fé.
- Dessa fé só se pode libertar-se hipoteticamente, na medida em que é construída de alto a baixo, e assim se chegará ao ponto em que se entreverá como o hipotético devia converter-se no anipotético (anhypothétique), no absoluto, no incondicionado dessa fé.
- A ciência não pode nem deve fornecer mais que isso. Não se conta com que ela liberte dessa tripla crença, e por que não se pode contar com isso é o que a própria ciência ensinará. Assim se justificará o lado aparentemente não científico dessa crença, “aparentemente” segundo conceitos mais antigos.
- O de omnibus dubitandum de Descartes valia graças ao suposto do Todo uno e universal: diante desse Todo estava o pensamento uno e universal e, como seu instrumento, a dúvida de omnibus igualmente una e universal. Desaparecido esse pressuposto, cuja fragilidade foi o primeiro cuidado mostrar, já caduco para o espírito consciente, surge no lugar da dúvida absoluta a dúvida hipotética: por já não ser de omnibus, não tem mais direito de sentir-se como fim, mas apenas como meio do pensamento. Assim se mergulha mais uma vez na profundidade do positivo.
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