User Tools

Site Tools


realismo-especulativo:debaise:individuacao

O Problema da Individuação

Debaise2017

  • Status da Proposição Central: A Existência como Atualização da Criatividade
    • Intuição formulada ao conectar método e princípio último.
    • Não é descritiva, mas funcional: permite uma interpretação.
    • Seu significado pode ser tratado em abstração pura, como idealidade, adiando sua relação com o real e a experiência.
    • Consequências imediatas:
      • Falar em “atualização” revela o caráter processual da existência. A entidade não é dada de uma vez, mas emerge num devir.
      • Estabelece Procès et Réalité como uma contribuição para uma filosofia da individuação.
    • Hipótese guia: o eixo da coerência especulativa encontra-se no termo “individuação”.
  • A Filosofia da Individuação: Simondon e a Virada Processual
    • Simondon propõe uma “virada” (reversal) na busca por um princípio de individuação.
    • Crítica ao paradigma do “indivíduo constituído”, que domina a história da filosofia desde Aristóteles.
      • Este paradigma marginaliza os processos de gênese (individuação) e reduz as conexões do indivíduo com seu meio a relações externas.
    • Proposta: tomar como realidade primária não o indivíduo, mas os regimes e operações da individuação.
      • Esta realidade prévia é chamada de “realidade pré-individual” (Simondon) ou “natureza” (Whitehead, em sentido pré-socrático: physis, apeiron).
      • O indivíduo resulta da individuação, mas não a esgota; é sempre “mais que um” e “menos que um”.
    • Diferença crucial com Whitehead:
      • Simondon tende a reduzir o indivíduo a um reflexo dos regimes de individuação, privilegiando uma filosofia da natureza.
      • Em Procès et Réalité, a questão da natureza não é originária; a natureza é o que deve ser explicado a partir de uma multiplicidade de seres individuais.
      • Whitehead quer uma filosofia da individuação que não se baseie numa realidade (natureza, reino de formas) anterior ao indivíduo.
  • O Conceito-Chave: Concrescência
    • Termo formado do latim concrescere: formação pela junção de partes, coagulação, congelamento.
    • Designa o processo pelo qual uma diversidade de elementos individuais e heterogêneos se unem para dar origem a uma nova unidade de existência.
    • “Produção de uma novidade conjunta” (production of novel togetherness) é a noção última incorporada em “concrescência”.
    • Individuação é, assim, um congelamento, uma condensação de uma diversidade.
  • A Diversidade Disjuntiva: O Ser Potencial
    • Primeira questão: o que é essa diversidade que se condensa?
    • Noção primária: o “múltiplo” (many) transmite a noção de “diversidade disjuntiva”.
      • Não é um estado (“ser em disjunção”), mas um processo ativo: “ser disjuntivo”. É uma operação de disjunção entre entidades em ação.
    • O “múltiplo” é composto apenas por seres em ato (actual entities). Nada existe como pura possibilidade.
    • Este múltiplo atual só se torna potencialidade quando envolvido numa individuação: o ato torna-se poder, o real torna-se o possível.
    • Potencial e real não são diferenças ontológicas, mas relativas à situação: potencial é ação engajada em outra entidade.
    • O “múltiplo” é a primeira dimensão do ser: a multiplicidade disjuntiva das entidades atuais enquanto constitui uma potencialidade para novas individuações.
  • Individuação como Captura: A Preensão
    • Termo do latim prehendere: capturar, apropriar-se.
    • Não é uma relação entre indivíduos já constituídos (sujeito-objeto), mas a atividade constitutiva das próprias entidades atuais.
    • Tradução mais precisa: “apropriação”, pois envolve integração numa nova existência, uma transformação que move elementos para uma interioridade.
    • As entidades atuais são centros de preensão; seu ser identifica-se com sua captura de outras entidades atuais.
    • Leitura de Deleuze (em O Dobre):
      • Conexão entre preensão e diversidade disjuntiva (caos).
      • A preensão opera como uma “peneira” (screen, crible) que permite a passagem do múltiplo (caos) para a unidade de uma “certa singularidade”.
      • Exemplos intuitivos: o olho preende a luz; os seres vivos preendem água, solo; a pirâmide preende os soldados de Napoleão.
    • Crítica à leitura de Deleuze e Wahl:
      • Eles identificam erroneamente “entidades atuais” com “eventos” concretos da experiência.
      • Em Whitehead, as entidades atuais são “abstratas”, “microscópicas”, não objetos da experiência. Os “eventos” concretos são as “sociedades”.
      • Os exemplos (pirâmide, olho) são incentivos para um “salto imaginativo” rumo à abstração, não descrições literais da preensão.
    • Definição especulativa: preensão é um “vetor”; efetua a passagem de uma realidade “lá” para uma realidade “aqui”, integrando a diversidade disjuntiva na “constituição interna real” de uma nova entidade atual.
    • É essencialmente unificadora: produz uma unidade de existência, uma perspectiva sobre a totalidade do que existe.
  • Uma Economia Diferente do Sujeito e do Objeto: Objetificação
    • Distinção funcional (não ontológica) no processo de individuação:
      • “Objetos”: entidades que já existem, que compõem a diversidade disjuntiva.
      • “Sujeito”: a nova entidade em processo de concrescência.
      • Ambos são entidades atuais; a distinção é relacional e funcional.
    • Problema central: o que significa um objeto estar presente num sujeito? Resposta: “objetificação”.
    • O conceito de “objetificação” é inspirado numa releitura de Descartes (Respostas às Objeções).
      • Descartes distingue existência “formal” (a coisa em si, fora do intelecto) e existência “objetiva” (a coisa tal como existe no intelecto).
      • Whitehead transpõe essa distinção para o plano das entidades atuais: uma entidade tem existência formal (em si) e existência objetiva (em outras entidades que a preendem).
    • Esta noção questiona radicalmente o “princípio de localização simples” da ciência moderna: uma entidade pode estar objetivamente localizada em múltiplos lugares ao mesmo tempo (nas preensões de outras entidades).
    • Individuação pode ser explicada como a passagem contínua do ser formal ao ser objetivo.
  • A Certeza do Sentir (Feeling) e a Gênese do Sujeito
    • Outro empréstimo a Descartes (Meditações): a certeza indubitável do “sentir” (sentire). Podemos duvidar dos objetos, mas não do fato de que sentimos.
    • Whitehead adapta: “Um sentir é a apropriação de alguns elementos no universo para serem componentes na constituição interna real de seu sujeito.”
    • “Sentir” (feeling) e “preensão” são conceitos muito próximos, mas com ênfases contextuais diferentes:
      • “Preensão” enfatiza a operação de apropriação e captura a partir da perspectiva da diversidade disjuntiva.
      • “Sentir” enfatiza a experiência dessa diversidade tal como integrada pelo sujeito, a gênese do sujeito a partir de seus “ingredientes”.
    • O problema do “sentir” refere-se, em última análise, à questão do sujeito, sua gênese e seu modo de existência.
/home/mccastro/public_html/sofia/data/pages/realismo-especulativo/debaise/individuacao.txt · Last modified: by mccastro