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Dimensões Temporais das Entidades Atuais

Debaise2017

  • A Individuação como “Átomo de Devir” ou “Gota de Experiência”
    • A individuação de uma entidade atual tem começo e fim: da diversidade disjuntiva (potencialidade) à satisfação (atualização plena).
    • Analogia com William James: noções de “gotas de experiência” (drops of experience) ou “blocos de devir”.
      • As “gotas” são totalidades indivisíveis na experiência imediata, embora possam ser analisadas intelectualmente em componentes.
      • Exemplo: o trovão forma um evento, mas seu significado vem do contraste com o silêncio anterior e posterior.
    • Whitehead pensa especulativamente o que James explora na consciência: “átomos de devir” ou “atos de devir”.
      • Para Whitehead, não há exceções aos limites do devir; é atomicidade radical.
    • Consequência: o tempo é atômico por natureza. A questão do tempo é posta com base na individuação e identificada a ela.
  • Crítica à Concepção Clássica do Tempo (Descartes)
    • Concepção “clássica” implícita em Newton, Descartes, Locke, Hume: tempo como sucessão de partes (instantes) mutuamente independentes.
    • Em Descartes: “a natureza do tempo é tal que suas partes não são mutuamente dependentes”. Uma vida é uma série de instantes independentes.
    • Problema: como explicar a continuidade (duração) se as partes são radicalmente independentes?
      • Solução cartesiana: a continuidade é produzida por uma causa externa e transcendente (Deus), que preserva (recria) a substância a cada instante. Preservação = criação repetida.
    • Pontos de concordância de Whitehead com Descartes:
      • 1. Abordagem discreta do tempo (partes, segmentos, atos).
      • 2. Ideia de que a continuidade é uma conservação, e esta conservação é uma criação.
    • Ruptura de Whitehead: recusa deslocar o problema para Deus ou buscar uma causa externa. Mantém-se no plano do “devir” e o reinterpreta.
  • A Espessura Temporal das Entidades Atuais: Passado, Presente, Futuro
    • Passado: corresponde à “diversidade disjuntiva”. É composto por todas as entidades atuais que atingiram satisfação (objetos com “imortalidade objetiva”).
      • Definição relativa: só tem sentido em relação a um processo de individuação de referência.
      • Função: fornece “dados” (matéria, potencialidade real) para novas individuações.
      • Não há exterioridade entre passado e nova entidade: esta inclui, via preensões, a totalidade do que a compõe.
    • Futuro: não é um momento a vir, mas a “tendência” ou “movimento interno ao ser”. Identifica-se com o “alvo subjetivo” (subjective aim) da entidade, sua causa final imanente.
      • É o que dirige ativamente a individuação, sem emergir do passado.
    • Presente: é o ponto preciso de interação onde os dois poderes (passado ativo e futuro passivo) se encontram. É a concrescência mesma, a preensão.
      • Reúne todo o passado, colocando-o em comunicação com o atual através de uma finalidade que não dele emerge.
    • Caráter tríplice de uma entidade atual (PR 87):
      • 1. Caráter “dado” pelo passado.
      • 2. Caráter subjetivo visado em seu processo de concrescência (alvo).
      • 3. Caráter superjetivo: valor pragmático de sua satisfação específica, qualificando a criatividade transcendente (seus efeitos sobre futuras individuações).
  • A Teoria Épocal do Devir: Descontinuidade e Continuidade
    • Proposição central: “Há um devir da continuidade, mas não uma continuidade do devir” (PR 35).
      • “Não há continuidade do devir”: afirma a natureza atômica do tempo; os átomos (devires) são limitados e carecem de continuidade entre si.
      • “Há um devir da continuidade”: problema a ser pensado: como a continuidade surge?
    • Análise dos paradoxos de Zenão sobre o movimento.
      • Bergson: paradoxo resulta da espacialização do tempo pelo intelecto. Solução: aprofundar a duração contínua, simpatizar com a mobilidade original.
      • Whitehead: concorda com o diagnóstico da espacialização, mas recusa que seja uma necessidade inerente ao intelecto. É um caminho possível, não exclusivo.
      • Diferença crucial na solução: Whitehead não faz da continuidade a dimensão primária do real.
    • Reconfiguração do problema:
      • Premissa 1: Em um devir, “algo” (res vera) se torna. Devir e individuação são a mesma coisa.
      • Premissa 2: Todo ato de devir é divisível em seções anteriores e posteriores que são elas mesmas atos de devir.
      • Paradoxo surge ao substituir o possível pelo real: porque uma totalidade pode ser dividida, conclui-se que ela está de fato dividida.
    • O movimento como “rota” (route): série de transmissões de heranças, repetições, onde cada parte herda a anterior e passa adiante. Isto permite escapar do paradoxo.
    • Crítica à noção clássica de tempo como “serialidade única”: “O avanço criativo não deve ser interpretado no sentido de um avanço unicamente serial” (PR 35). A física moderna abandonou essa noção.
  • A Distinção entre os Dois Fluxos: Transição e Concrescência
    • “Descoberta” meio realizada pelos filósofos dos séculos XVII-XVIII: a distinção implícita entre dois tipos de fluxo.
    • Em Hume (precursor inconsciente):
      • Primeiro fluxo (Transição): fluxo da experiência do sujeito, passagem (transition) de uma percepção/ideia a outra. É um movimento perpétuo de elementos distintos. “A mente é uma espécie de teatro…”
      • Segundo fluxo (Síntese): constituição de cada parte, unificação de experiências. São as “sínteses” (hábito, imaginação) que formam unidades a partir de impressões simples. “Uma pensamento persegue outro…”
    • Transformação whiteheadiana dos termos humeanos para a filosofia especulativa:
      • “Transição” (transition): passagem de um existente particular a outro. É o “perecimento perpétuo” (Locke).
      • “Concrescência” (concrescence): a unificação interna, “a constituição interna real de um existente particular” (Locke).
    • A mente (Hume) ou a alma são substituídas pelas frases “a entidade atual” e “a ocasião atual”.
    • Ritmo criativo: “O processo criativo é rítmico: oscila da publicidade de muitas coisas à privacidade individual; e oscila de volta do indivíduo privado à publicidade do indivíduo objetificado” (PR 151).
      • Primeira oscilação: concrescência (do público/múltiplo ao privado/uno).
      • Segunda oscilação: transição (do privado/uno ao público/objetificado).
    • A temporalização é feita de “pedaços descontínuos de continuidade”. “Não pode haver continuidade do devir. O que pode haver é um devir da continuidade, uma continuidade formada, pouco a pouco, a partir da descontinuidade” (Wahl).
realismo-especulativo/debaise/entidades-atuais.txt · Last modified: by mccastro

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