2.2 Interioridade
PLESSNER, Helmuth. Die Stufen des Organischen und der Mensch: Einleitung in die philosophische Anthropologie. Berlin/Leipzig: Walter de Gruyter, 1928. (2ª ed. ampliada com prefácio teórico: Berlin: Walter de Gruyter, 1965).
2. A recondução do fenômeno à interioridade
1. Hoje uma empresa anticartesiana já não corre o risco, inevitável na época das primeiras lutas das ciências da natureza por seu direito à existência, de ser acusada de hostilidade às ciências naturais, pois o método experimental e métrico provou por triunfos incontestáveis ser insubstituível para estruturar a experiência, de modo que querer enriquecer o conhecimento do ser-aí espaçotemporal por vias diversas da exatidão constitui uma exigência presunçosa que deve arcar com o ônus de provar a insuficiência dos métodos exatos.
2. O alvo do movimento anticartesiano é a identificação entre corporeidade e extensão, entre ser-aí físico e mensurabilidade, responsável pela cegueira diante das propriedades da natureza corpórea alheias à medida e pela visão neokantiana que toma as ciências naturais como único modo de conhecer a natureza e a própria natureza como produto de seus métodos, já que o princípio de equivalência entre extensão e mensurabilidade conduz à dissolução das relações físicas em relações puramente quantitativas e calculáveis.
3. A fundamentalização do método exato, que quebra toda resistência no domínio do ser-aí físico, acarreta, em consequência do princípio cartesiano, efeitos muito determinados e significativos.
4. Se a essência da corporeidade consiste na extensão, as propriedades qualitativas dos corpos alheias à medida não podem pertencer a essa essência, e como fora da esfera da extensão só resta a da interioridade, a serviço do Si, é a ela que se atribuem tais propriedades, de modo que, pela completa quantificação dos corpos, todas as qualidades são subjetivadas e reinterpretadas como meras aparições fenomenais e sensações, num caminho que, passando por Locke, conduz diretamente a Mach.
5. Enquanto ob-jeto no fenômeno, o corpo é um sistema qualitativo, e mesmo o que nele é quantificável, como grandeza, peso e solidez, é concretamente uma determinidade qualitativa, mas, como o mesmo corpo se deixa determinar pelo mecanismo e pelo cálculo em todas as suas propriedades qualitativas e não pode ser no mesmo sentido sistema quantitativo e qualitativo, precisa sê-lo em sentidos diferentes, dada a identidade do fundamento existencial de suas propriedades.
6. A possibilidade de ser em sentido diferente permanecendo o mesmo resulta do contato ou não contato com outro domínio de ser, a interioridade alheia à extensão, de modo que com ele ser-aí significa aparecer objetivamente como fenômeno e sem ele significa ser não objetivo, sendo o aparecer exterior e não necessário ao ser-aí, e embora a essência do corpo não seja tocada pelo contato com a res cogitans, esse contato produz o ser-levado-ao-objeto, a aparição fenomenal, da qual deriva o teor qualitativo incompreensível pelo mecanismo e pelo cálculo.
7. Os corpos não existem nem aparecem como puras relações extensivas, havendo algo condicionado por relações quantitativas mas nelas não absorvido, como a qualidade de uma cor ou de uma forma, porque são dados a uma interioridade e por ela apreendidos, sofrendo uma refração de sua essência pura nesse meio estranho e dessemelhante, de sorte que sua aparência, que reveste seu núcleo e ocupa o primeiro plano, só pode ter por fundamento o contato constante com aquela coisa cujo ser se resolve inteiramente no pensar, na execução de atos, no ser interior.
8. O fato fundamental de toda experiência, de que os corpos são constituídos de qualidades na totalidade de seus fenômenos, é explicado pelo princípio alternativo cartesiano a partir do contato inelutável dos corpos com a interioridade, na qual o ser extenso como que se acende em diversidade intensiva do ser-aí qualitativo de modo inconcebível tanto pelos princípios da res extensa quanto pelos da res cogitans, tornando-se a junção das duas substâncias, que possibilita a presença dos corpos diante do Si, o fundamento último do teor qualitativo das próprias propriedades.
9. No aparecer, o corpo apresenta-se qualitativamente, irradiando seu núcleo substancial em propriedades qualitativas na superfície que, aderindo a ele, se liga de modo inconcebível à res cogitans situada em posição oposta, e essa posição frontal diante do Si torna-se fundamento da aparição fenomenal, de modo que, assim como a fachada do fenômeno está à frente do núcleo profundo de seu ser, revelando e velando sua compacidade essencial, a res cogitans deve situar-se no primeiro plano da res extensa, que jamais se apresenta em sua nudez, mas sempre envolta no manto da aparição fenomenal.
10. Com a identificação entre corporeidade e extensão, a exclusividade da alternativa entre extensão e interioridade e a identificação da res cogitans com o próprio Eu, mostram-se essencialmente ligados a subjetivação do lado qualitativo do físico e a ocupação do primeiro plano pelo Si mesmo.
