parrochia:a-crise-das-ciencias-europeias-e-a-fenomenologia-transcendental-uma-analise
HUSSERL E A CRISE DA HUMANIDADE EUROPEIA
PARROCHIA, Daniel. La forme des crises: Logique et épistémologie. Seyssel: Champ vallon, 2008.
- A questão inicial investiga em que sentido a humanidade europeia se encontra novamente em crise em 1935 e qual é a natureza profunda dessa enfermidade.
- O contexto histórico sugere, à primeira vista, que a crise deveria ser explicada prioritariamente por fatores políticos concretos.
- A ascensão do nazismo, do fascismo e do franquismo, bem como o enfraquecimento das democracias liberais e a transformação do socialismo em stalinismo, compõem um cenário de desagregação generalizada.
- Esse pano de fundo torna surpreendente o diagnóstico filosófico proposto por Husserl.
- O diagnóstico husserliano, formulado na conferência de Viena de maio de 1935, identifica a crise como essencialmente uma crise da razão.
- A crise da humanidade europeia é interpretada como o fracasso aparente do racionalismo.
- Esse fracasso compromete os fundamentos da civilização europeia e a própria ideia de Europa.
- A teleologia histórica da Europa sempre esteve orientada por fins racionais infinitos, o que torna a crise particularmente grave.
- A causa da crise não é atribuída ao racionalismo enquanto tal, mas a uma de suas derivações.
- Husserl identifica uma degeneração específica do racionalismo nas formas do naturalismo e do objetivismo.
- Essas formas tornam o racionalismo estranho a si mesmo.
- É essa deriva que conduz a humanidade europeia à impotência espiritual e cultural.
- Diante dessa situação, Husserl concebe apenas duas saídas possíveis.
- Ou o declínio da Europa, alienada de seu sentido racional da vida, culminando na barbárie e no ódio espiritual.
- Ou a renovação da Europa a partir do espírito da filosofia, por meio de um heroísmo da razão que supere o naturalismo.
- A conferência encerra-se com um apelo à luta contra a lassidão espiritual e com a afirmação da imortalidade do espírito.
- A posição de Husserl pode parecer desconectada da história concreta para leitores pouco familiarizados com a filosofia.
- O próprio tradutor Gérard Granel qualifica a obra como ultrapassada ou paranoica.
- Contra essa leitura, sustenta-se que Husserl está profundamente inserido em seu tempo histórico.
- A Crise das ciências europeias é apresentada como uma leitura adequada dos fundamentos do naturalismo e do objetivismo que alimentaram o nazismo.
- Para sustentar essa interpretação, é necessário retomar o essencial da argumentação husserliana.
- O manuscrito da Crise divide-se em três grandes partes.
- A primeira trata da crise das ciências como expressão da crise radical da vida europeia.
- A segunda analisa a origem da oposição moderna entre objetivismo e subjetivismo transcendental.
- A terceira busca esclarecer o problema transcendental, em especial a função da psicologia.
- As duas primeiras partes podem ser resumidas a partir de um ponto central.
- Existe efetivamente uma crise das ciências europeias, apesar de seu êxito técnico e metodológico.
- As ciências modernas são ciências de fato que se afastam das questões essenciais da existência humana.
- Elas excluem por princípio as questões relativas ao sentido ou à ausência de sentido da vida.
- A tese fundamental de Husserl é que essa situação não é originária.
- A objetividade e a factualidade do saber moderno são resíduos empobrecidos do projeto antigo de uma ciência universal.
- Esse empobrecimento conduz a uma filosofia decapitada.
- A fé na possibilidade de uma filosofia universal, ainda presente em Descartes, enfraquece progressivamente.
- O triunfo metodológico das ciências positivas contribui para a crise da razão.
- A metodologia científica demonstra sua eficácia apenas no domínio do factual.
- Cresce o ceticismo quanto à possibilidade da metafísica.
- Instala-se assim uma crise da fé na razão enquanto instância última de sentido.
- A razão, segundo Husserl, é aquilo que confere sentido último ao ser, aos valores e aos fins.
- Ela orienta normativamente todas as pretensões de verdade.
- Com a perda da fé na razão, o homem perde também a fé em si mesmo.
- O ser humano deixa de se compreender como um ser que deve conquistar sua própria verdade.
- A crítica husserliana visa restaurar a confiança na razão.
- Não se trata de abdicar do racionalismo, mas de resgatá-lo em sua forma autêntica.
- A razão deve ser reconduzida à sua função de orientação da vida humana.
- Na segunda parte, Husserl procede a uma análise histórica da filosofia moderna.
- A partir de Galileu e Descartes, emerge a ideia do saber como tarefa infinita.
- Essa concepção rompe com o fechamento da filosofia antiga.
- A ciência passa a ser entendida como processo histórico infinito de aproximação.
- A ciência galileana funda-se na ideia de uma matematização da natureza.
- A geometria pura torna-se o modelo da física.
- Progressivamente, a natureza é esvaziada de sentido.
- O mundo da vida, fundamento de toda significação, é esquecido.
- Inicialmente, esse projeto científico é vivido como promessa de realização universal.
- A ciência universal aparece como horizonte possível.
- O homem se concebe como imagem finita de Deus.
- Deus é pensado como o homem infinitamente distante.
- O desenvolvimento do naturalismo enfrenta, porém, um limite decisivo.
- A subjetividade não pode ser apreendida pelas categorias objetivistas.
- O sentido do mundo é uma formação subjetiva.
- Apenas um retorno à subjetividade pode esclarecer o sentido último do ser do mundo.
- Descartes inaugura uma duplicidade fundamental.
- De um lado, funda o racionalismo objetivista.
- De outro, com o cogito, abre o caminho para a crítica desse objetivismo.
- Essa duplicidade desdobra-se na oposição entre racionalismo e empirismo.
- Kant ocupa um lugar singular nessa história.
- Pela primeira vez, a filosofia assume a forma de uma reflexão transcendental.
- Kant investiga as condições subjetivas da objetividade científica.
- Ele transforma a ciência cartesiana em ciência transcendental.
- Contudo, Kant mantém um pressuposto não interrogado.
- A evidência do mundo sensível cotidiano é tomada como dada.
- O processo de constituição dessa evidência não é questionado.
- A questão do mundo da vida permanece impensada.
- A fenomenologia husserliana assume a tarefa deixada em aberto.
- Trata-se de desenvolver uma ciência do mundo da vida.
- Isso exige a suspensão de todos os saberes prévios que o pressupõem.
- Essa suspensão é realizada pela épochè.
- O mundo da vida é definido como um a priori pré-científico.
- Trata-se de um a priori subjetivo-relativo.
- Ele constitui a base de toda ciência verdadeira.
- A lógica formal independente é denunciada como ingenuidade.
- A fenomenologia é concebida como uma ciência reflexiva.
- Ela investiga os modos subjetivos de doação do mundo.
- O foco recai sobre a correlação transcendental entre mundo e consciência.
- Esse projeto enfrenta dificuldades fundamentais.
- Todo objeto se dá em um horizonte de aparições possíveis.
- Introduz-se a noção de correlação universal a priori.
- O mundo da vida exige uma ontologia própria.
- A verdade fenomenológica não coincide com a verdade objetiva das ciências naturais.
- A fenomenologia não pode apoiar-se em descrições factuais.
- A evidência deve ser alcançada por intuição essencial.
- As mediações científicas comprometeriam o acesso ao mundo da vida.
- A vida transcendental é fluxo contínuo de consciência.
- Não pode haver ciência descritiva nos moldes empíricos.
- A fenomenologia é uma ciência sem verdade objetiva no sentido clássico.
- Ela exige uma tensão constante entre distanciamento e envolvimento.
- A fenomenologia distingue-se da psicologia e da psicofisiologia.
- A noção de intencionalidade substitui a de representação.
- O conceito central torna-se o de sentido, e não o de verdade objetiva.
- A épochè deve ser vivida coletivamente.
- A intersubjetividade é constitutiva do mundo da vida.
- Todas as consciências formam uma unidade intencional.
- A objetividade é compreendida como interioridade intencional compartilhada.
- Isso impede a coisificação e a negação do outro.
- A reflexão de Husserl alcança assim a crise histórica concreta dos anos 1930.
- As ideologias totalitárias prosperam sobre o fracasso do objetivismo.
- O mal-estar social nasce da incapacidade de dar sentido ao mundo da vida.
- O nazismo aparece como consequência dessa crise espiritual.
- A fenomenologia não é apresentada como solução histórica imediata.
- Não se trata de imaginar uma intervenção direta na história.
- Trata-se de identificar causas profundas e estruturas de sentido.
- A crise cultural tem, em última instância, uma raiz filosófica.
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