2 Melancolia na medicina etc.
Erwin Panofsky — SATURNO E A MELANCOLIA
A melancolia na medicina, na ciência e na filosofia medievais
Com o que foi dito, acompanhamos o desenvolvimento da ideia de melancolia entre os antigos em duas, ou até mesmo três, direções. Seu ponto de partida foi uma concepção de doença, cujas origens remontavam a um aumento desmedido ou a uma alteração antinatural do “humor melancólico”, e mais tarde a uma “adustio” da bile amarela. Além dessa concepção de uma melancolia puramente mórbida, surgiu, no entanto, a ideia de uma constituição melancólica, que, por sua vez, foi interpretada de duas maneiras: ou como a condição, excepcional em todos os aspectos, dos “grandes homens”, tal como descrita no Problema XXX, 1; ou como um dos “tipos de disposição” que constituíam a doutrina dos quatro temperamentos, sistematizada posteriormente a Galeno. Nesse contexto, o tipo melancólico foi perdendo cada vez mais prestígio e, no futuro, passaria a significar, sem sombra de ambiguidade, uma disposição ruim, na qual se combinavam traços desagradáveis da mente e do caráter com uma constituição física fraca e nada atraente; logicamente, essa noção continuaria sempre condicionada pela ideia original de doença.
