1.2 Melancolia
Erwin Panofsky — SATURNO E A MELANCOLIA
A IDEIA DE MELANCOLIA E SUA TRANSFORMAÇÃO REVOLUCIONÁRIA PELOS PERIPATÉTICOS: O PROBLEMA XXX, 1
1. A ideia de melancolia sofreu uma grande transformação no século IV a.C. pela irrupção de duas influências culturais, a ideia de loucura nas grandes tragédias e a ideia de furor na filosofia platônica, pois a substância sinistra cujo nome evocava o negro e o noturno era tida por fonte da demência, e os traços de melancolia patológica passaram a ser descobertos nos heróis malditos castigados com a loucura por uma divindade ofendida, o que conferiu à melancolia uma aura de sinistra sublimidade, tornando-a doença de heróis, e ainda mais idealizada quando equiparada ao furor, reinterpretado por Platão como dom divino, embora em Platão a melancolia significasse de início sobretudo insânia moral, sintoma da pior alma, a do tirano.
- O obscurecimento da consciência, a depressão, o medo, os delírios e a temida licantropia, que arrastava as vítimas à noite como lobos uivantes e famintos, eram tidos por efeitos da bílis negra.
- Desde o fim do século V a.C., o verbo melancholan era sinônimo de mainesthai, estar louco, e Demóstenes diz de Olimpiodoro que parece não apenas transgressor, mas louco.
- No século IV, a intuição religiosa cedia lugar ao raciocínio científico discursivo, e interpretações simbólicas dos mitos coexistiam com explicações racionalistas.
- Descobriam-se traços melancólicos em Héracles, Ájax e Belerofonte, que Eurípides representara em sua grandeza sobre-humana, e Gélio diria ironicamente que a melancolia se tornara doença de heróis.
- Segundo Sócrates no Fedro, se o furor fosse simplesmente um mal, Lísias teria razão, mas os maiores benefícios vêm do furor enquanto dom divino.
- De início, nada em Platão ligava a melancolia ao êxtase que eleva o filósofo, o amante e o poeta à apreensão suprarracional das ideias puras.
- Na República, um homem torna-se tirano quando, por natureza, modo de vida ou ambos, é bêbado, voluptuoso e melancólico.
2. A filosofia aristotélica da natureza foi a primeira a unir a ideia puramente clínica da melancolia à concepção platônica do furor, união expressa na tese, paradoxal para os gregos, de que não só os heróis trágicos como Ájax, Héracles e Belerofonte, mas todos os homens realmente eminentes nas artes, na poesia, na filosofia ou na política, até Sócrates e Platão, eram melancólicos.
3. Essa teoria é exposta no mais famoso dos Problemas atribuídos a Aristóteles, citado integralmente.
4. Todos os que se destacaram na filosofia, na política, na poesia ou nas artes eram manifestamente melancólicos, alguns a ponto de sofrer ataques causados pela bílis negra, como Héracles, cuja constituição levou os antigos a chamar de doença sagrada os distúrbios epilépticos, como indicam seu ataque de loucura no episódio dos filhos e a erupção ulcerosa antes de desaparecer no monte Eta, sintoma frequente de bílis negra, também sofrido pelo lacedemônio Lisandro antes de morrer, assim como Ájax, que perdeu inteiramente o juízo, e Belerofonte, que buscava lugares desertos, segundo Homero, que o descreve odiado por todos os deuses, vagando sozinho pela planície de Aleia, roendo o coração e evitando o caminho dos mortais.
5. Entre os heróis, muitos outros sofreram do mesmo modo, e entre os homens mais recentes Empédocles, Platão, Sócrates e muitos outros famosos, assim como a maioria dos poetas, alguns padecendo distúrbios por essa mistura corporal, outros apenas com clara tendência natural a essas afecções, mas todos, em suma, melancólicos por constituição.
6. A causa descobre-se por analogia com o vinho, que, tomado em grande quantidade, produz características muito semelhantes às dos melancólicos e forma, conforme se bebe, diversos caracteres, irritáveis, benévolos, compassivos ou desenfreados, efeitos que mel, leite ou água não têm, e o mesmo homem, frio e taciturno quando sóbrio, torna-se sucessivamente falador, grandiloquente e jactancioso, desenfreado na ação, insolente, furioso e, por fim, debilitado e estúpido como os epilépticos de infância ou as vítimas de melancolia excessiva, e assim como o bebedor muda de caráter segundo a quantidade de vinho, há para cada caráter uma classe de homens que o representa por natureza, loquaz, emotivo ou propenso ao pranto, como no verso homérico do homem que nada em lágrimas por estar pesado de vinho.
7. O vinho também torna os homens compassivos, selvagens ou taciturnos, sobretudo os melancólicos que perderam o juízo, e amorosos, a ponto de o ébrio beijar quem ninguém beijaria sóbrio, mas torna o homem anormal apenas por pouco tempo, enquanto a constituição natural o faz permanentemente, audacioso, taciturno, compassivo ou covarde, pois vinho e natureza formam o modo de ser pelo calor que rege todos os processos, e o melancólico, humor e temperamento, é coisa de ar, razão pela qual os médicos atribuem à bílis negra a flatulência e os distúrbios abdominais, e o vinho também gera ar, como mostra a espuma, maior no tinto, mais quente e encorpado, que no branco, ao passo que o azeite não espuma nem quente.
8. Por isso o vinho excita o apetite sexual, Dioniso e Afrodite andam juntos e quase todos os melancólicos são luxuriosos, pois o ato sexual acompanha a geração de ar, como mostram a rápida inflação do órgão viril, o prazer que os meninos próximos da puberdade encontram em friccionar os órgãos antes de emitir sêmen, pelo ar que escapa pelo canal por onde depois sai o fluido, e a efusão do sêmen por propulsão de ar, de modo que alimentos e líquidos que enchem de ar essa região são afrodisíacos, e o vinho tinto é o que mais torna os homens semelhantes aos melancólicos, cujo ar se manifesta na carne magra e nas veias salientes, por abundância não de sangue, mas de ar, embora nem todos sejam magros ou escuros, mas só os de humores particularmente insanos, outra questão.
9. O humor melancólico na constituição natural é já algo misto, mistura de calor e frio, componentes da natureza, podendo a bílis negra estar muito quente ou muito fria, como a água, fria por si, mas que fervida se torna mais quente que a chama, ou a pedra e o ferro em brasa, mais quentes que o carvão apesar de frios por natureza, tema tratado no livro sobre o fogo.
10. Se a bílis negra, fria por natureza, excede no corpo nesse estado, produz apoplexias, torpores, depressões ou ansiedades, e, se aquecida demais, animação com cantos, êxtases e erupção de úlceras, e na maioria das pessoas a bílis da alimentação diária só produz alguma doença melancólica, enquanto nos que têm constitucionalmente esse temperamento há a maior diversidade de caracteres segundo a mistura individual: com muita bílis fria tornam-se torpes e estúpidos, com muita bílis quente exaltados, brilhantes, eróticos, iracundos ou loquazes, e muitos propensos à exaltação e ao êxtase pela proximidade desse calor com a sede do intelecto, como as sibilas, os adivinhos e os inspirados, quando o são por temperamento natural e não por doença, e o siracusano Máraco era melhor poeta quando perdia o juízo, mas aqueles em que o calor excessivo se reduz a um grau médio são melancólicos mais racionais, menos excêntricos e superiores em cultura, artes ou política.
- Essa constituição produz grandes diferenças diante do perigo, pois os homens variam no medo de um momento a outro conforme o estado da mistura.
- O temperamento melancólico, assim como produz doenças de variação, é variável, como a água, ora frio, ora quente.
- Se algo alarmante surge quando a mistura está fria, torna o homem covarde, pois o medo esfria, como mostra o tremor dos amedrontados; se está quente, o medo a reduz à temperatura justa, e o homem domina-se.
11. O mesmo vale para o abatimento cotidiano, pois muitas vezes se está de luto sem saber por quê e outras vezes alegre sem motivo aparente, afetos a que todos estão sujeitos em pequeno grau, mas que determinam o caráter onde essa qualidade é forte, pois, como os homens diferem não por terem rosto, mas por tê-lo belo, feio ou comum, os que têm pouco desse temperamento são comuns e os que têm muito são diferentes da maioria, melancólicos em extremo se a propensão é muito concentrada e eminentes se algo temperada, e, sem cuidado, tendem a doenças melancólicas em diferentes partes do corpo, sintomas epilépticos, paralisia, abatimento violento, terrores ou confiança excessiva, como ocorreu a Arquelau, rei da Macedônia.
12. Essa tendência depende de o temperamento ser quente ou frio, e, se indevidamente frio, produz abatimento irracional e o suicídio por enforcamento, mais frequente entre jovens e às vezes entre idosos, e muitos se matam após uma bebedeira, pois o calor do vinho sufoca o calor natural de alguns melancólicos, enquanto o calor na região em que se pensa e espera alegra, razão pela qual os homens gostam de embriagar-se, pois o vinho dá boas esperanças como a juventude às crianças, sendo a velhice pessimista e a juventude esperançosa, e os que se abatem ao extinguir-se o calor natural tendem a enforcar-se, os velhos porque a velhice apaga o calor, os jovens pela paixão, também algo físico, e muitos em que o calor se extingue de repente matam-se inesperadamente, para espanto de todos.
13. Quando a mistura dominada pela bílis negra é mais fria, origina abatimentos diversos, e quando mais quente, estados de alegria, por isso as crianças, quentes, são mais alegres e os velhos, frios, mais tristes, sendo a velhice uma espécie de resfriamento, e às vezes o calor se extingue de repente por causas externas, como o carvão em que se lança água, daí os suicídios após a bebedeira, quando se extingue o calor introduzido de fora pelo vinho, e a tristeza da maioria após o ato sexual, exceto nos que emitem secreção abundante com o sêmen e se alegram por descarregar-se de secreção, ar e calor excessivo, enquanto os outros se entristecem pelo resfriamento decorrente da perda de componentes necessários.
14. Em suma, sendo variável a ação da bílis negra, que se torna muito quente e muito fria, os melancólicos são variáveis, e, como calor e frio são os fatores corporais mais importantes na determinação do caráter, a bílis negra forma caracteres como o vinho em maior ou menor quantidade, ambos contendo ar, e, como essa mistura variável pode estar bem temperada e ajustada, mais quente ou mais fria conforme o necessário, graças à sua tendência aos extremos, todos os melancólicos são pessoas fora do comum, não por doença, mas por constituição natural.
15. A bílis negra, segundo o Problema XXX, 1, chamado monografia sobre a bílis negra, está presente em todos os homens sem manifestar-se necessariamente em mau estado corporal ou peculiaridades de caráter, dependendo estas de uma alteração transitória e qualitativa do humor, por distúrbios digestivos, calor ou frio imoderados, que gera doenças melancólicas, ou de uma preponderância constitucional e quantitativa, que torna o homem melancólico por natureza, diferença pela primeira vez claramente expressa e antes apenas pressuposta tacitamente pelos médicos, de modo que o melancólico natural, mesmo estando bem, possui um ethos especial que o torna permanentemente distinto dos homens comuns, normalmente anormal.
- As doenças melancólicas incluem epilepsia, paralisia, depressão, fobias e, se a causa for o calor imoderado, desenfreio, úlceras e furor.
- A segunda possibilidade não excluía a primeira, pois o melancólico natural seria especialmente propenso às doenças melancólicas, e de forma especialmente virulenta.
- Os homens normais, hoi polloi, estavam expostos às doenças melancólicas como distúrbios transitórios sem significação psíquica nem efeito duradouro, mas não podiam adquirir as qualidades próprias do melancólico natural.
16. A singularidade espiritual do melancólico natural devia-se a uma qualidade que os outros humores não possuíam, a de afetar a disposição, ethopoion, pois há substâncias, como água, leite ou mel, que não influem no estado da alma, e outras, como o vinho, que atuam imediata e poderosamente sobre a mente, e a bílis negra produzia efeitos comparáveis, com a diferença de que não eram transitórios, mas permanentes quando havia ascendência natural, sendo a razão comum sua natureza aérea, pneumatodes, cujo pneuma singularmente estimulante põe o organismo em tensão, orexis, afeta a mente e busca escapar sobretudo no ato sexual, e sendo também decisivo que a bílis negra, como a pedra ou o ferro, possa ser fortemente afetada pelo calor e pelo frio, tornando-se imoderadamente fria ou quente.
- Como o vinho, segundo a temperatura e a quantidade, torna os homens alegres ou tristes, faladores ou taciturnos, enlouquecidos ou apáticos, a bílis negra produz os mais diversos estados mentais, ideia repetida por autores posteriores.
- O vinho torna o homem anormal, perittos, por pouco tempo, e a natureza, a disposição melancólica, permanentemente.
- A prova da natureza aérea está na espuma do vinho e na pele tensa e nas veias salientes do melancólico.
- Daí o efeito afrodisíaco do vinho e a falta de moderação sexual do melancólico.
- Marsílio Ficino, decisivo para a ideia renascentista de melancolia, diria que a bílis negra, à maneira do ferro, esfria ao máximo quando muito inclinada ao frio e aquece ao máximo quando muito inclinada ao calor.
17. Como o caráter é determinado sobretudo pelo calor e pelo frio, os homens em cujo corpo a bílis negra tem papel predominante têm de ser mentalmente anormais de uma maneira ou de outra.
18. Isso serviu de base à tese de que todos os homens eminentes eram melancólicos, mas era preciso ainda mostrar em que circunstâncias a anormalidade dos melancólicos podia consistir num talento anormal, pois perittos é conceito neutro, simples desvio da norma em qualquer direção, e só num contexto favorável equivale a eminente, de modo que o talento verdadeiramente eminente, demonstrado em realizações objetivas, pressupõe dupla limitação dos efeitos da bílis negra, em quantidade suficiente para elevar o caráter acima da média sem gerar melancolia profunda demais, e em temperatura média, nem quente nem fria demais, e só então o melancólico será gênio e não tarado, sendo possível que a anomalia esteja bem temperada e de certo modo bem ajustada, embora mesmo essa melancolia bem temperada estivesse sempre em perigo de converter-se em doença real.
- Um rosto belo ou feio, e até a embriaguez, podem chamar-se anormalidade.
- O sentido favorável aparece na introdução sobre filósofos, estadistas, poetas e artistas, ou quando perittos se opõe a uma característica indigna, como na frase que distingue os melancólicos em excesso, se a disposição é muito concentrada, dos eminentes, se temperada.
- A preponderância da bílis negra é diretamente nociva ao caráter e às faculdades enquanto sua anomalia age sem freios: em excesso gera melancólicos demais, em proporção pequena mal se distingue do vulgo.
- Inteiramente fria, produz letárgicos ou néscios obtusos, nothroi kai moroi; inteiramente quente, pessoas desatinadas, vivazes, eróticas e excitáveis, propensas ao transe e ao êxtase, como sibilas, adivinhos ou poetas que só fazem boas obras em êxtase.
- Os seguidores de Aristóteles tinham dificuldade em traçar a linha entre melancolia natural e doença melancólica, pois o aumento transitório da bílis ou a influência do calor e do frio podia transformar a melancolia em doença.
- O melancólico talentoso caminhava por um estreito caminho entre dois abismos e, sem cuidado, cairia em doença melancólica, depressão esmagadora, athymiai ischyrai, acessos de terror ou de desenfreio.
19. Dentro dos limites da melancolia natural, a melancolia podia ser vista de duas maneiras, cada uma com duplo aspecto: quanto à formação do caráter, o humor permanentemente presente em quantidade ou condição anormais produzia tipos exagerados, os ektopoi, e quanto aos estados de ânimo particulares, o humor transitoriamente anormal podia lançar pessoas não patológicas na doença ou em estados insanos, sacudindo-as entre a excitação criadora e a tristeza surda, valendo para ambas a formulação do século XV segundo a qual a melancolia tem força para ambos os extremos, por certa unidade de natureza estável e fixa, extremidade que não ocorre aos outros humores.
20. O Problema XXX, 1, que Melanchthon chamou doutrina dulcíssima e que raramente foi igualado, e mais raramente superado, em sutileza psicológica, foi tido por obra autêntica de Aristóteles por Cícero e Plutarco, que o citam independentemente, o que indica que levava o nome de Aristóteles antes mesmo da edição de suas obras completas, provavelmente não anterior ao século I ou II d.C., restando saber se tinha direito a esse nome.
21. É tipicamente aristotélico não só mostrar a conexão entre processos mentais e físicos, como começaram a fazer os hipocráticos, mas demonstrá-la até o último detalhe, e também são aristotélicas as ideias empregadas: o calor, primeiro princípio dinâmico da natureza orgânica, independente das substâncias materiais, de modo que a mesma bílis podia tornar-se muito quente ou muito fria, e essa ambivalência termodinâmica explicava seus efeitos na formação do caráter; o meio, mesotes, que define o melancólico ideal como define o desempenho ideal nos escritos autênticos, não como ponto fixo entre dois pontos, mas como equilíbrio variável entre forças opostas mantido por sua interação controlada, como a coragem entre covardia e temeridade; e a veemência, sphodrotes, com que se caracteriza o melancólico.
22. A alta tensão constante da vida espiritual do melancólico, de origem corporal e independente da vontade, impedia-o de agir razoavelmente, como o colérico, mas pela veemência e não pela precipitação, tachytes, e daí seus caprichos, falta de controle, concupiscência ingovernável, voracidade e memória rebelde, fraquezas oriundas da irritabilidade imoderada de sua constituição, a que se juntava a capacidade de reagir a todas as influências físicas e psíquicas, sobretudo às imagens visuais, com a mesma facilidade e violência com que o humor melancólico reage ao calor e ao frio, preparando o caminho para a ideia do melancólico como homem genial.
- Platão já catalogara o melancólico ao lado do amante e do bêbado, conexão que talvez tenha inspirado a comparação entre bílis negra e vinho.
- O Problema XI, 38 acrescenta a gagueira, supostamente causada por atraso da fala em relação ao pensamento.
- Nem o amor lhes dava satisfação duradoura nem a gula alterava sua magreza congênita: buscavam o prazer como proteção contra uma falha orgânica, o ardor sexual vindo da tensão excessiva e a voracidade de uma deficiência metabólica que os protegia da sonolência após as refeições.
- O melancólico lembrava tarde ou fora de hora porque o esforço da memória produzia nele imagens mentais, phantasmata, mais fortes e prementes que nos outros, e essa memória agitada, uma vez em ação, seguia um curso automático impossível de deter, como a flecha disparada.
23. A expressão inclinados a deixar-se levar pela imaginação parece caracterizar a irritabilidade exagerada da vis imaginativa, que mais tarde se julgou produzir alucinações ou aumentar a potência da imaginação visual, faculdade que, segundo a Ética a Eudemo, enviava ao melancólico sonhos verídicos e lhe permitia profetizar com espantosa exatidão, e pela veemência de sua imaginação ele não podia deixar de associar cada ideia à seguinte, tornando-se como os possuídos que escreviam e recitavam cantos como os de Filênis, e não é casual que a palavra árabe para negro ou melancólico se tenha tornado sinônimo de paixão.
24. Há, porém, uma contradição fundamental entre o quadro completo e expressivo do melancólico no Problema XXX, 1 e o que se compõe, em mosaico, com afirmações de Aristóteles em outros lugares, onde a melancolia é tratada como anormalidade patológica que sempre requer auxílio médico, com virtudes que são o reverso de fraquezas, enquanto o Problema considera a disposição melancólica essencial justamente para as realizações que exigem propósito consciente e ação deliberada, próprias das virtudes intelectuais, concepção não inaristotélica, mas que ultrapassa a esfera de interesses do próprio Aristóteles, pois nos Parva naturalia fala o fisiólogo e na Ética o moralista, ambos concebendo o melancólico por doença, enquanto o autor do Problema procura fazer justiça a um tipo de caráter que não se deixa julgar nem médica nem moralmente, o excepcional, perittos.
- Alberto Magno, ao reunir em sua Ética as afirmações aristotélicas sobre os melancólicos, evidencia essa contradição com um significativo quamvis-tamen.
- Os sonhos verídicos procedem não do bom senso, phronesis, mas, em linguagem moderna, da atividade desenfreada do inconsciente.
- Para o fisiólogo, o anormal é apenas modus deficiens; o moralista considera o indivíduo em relação à comunidade, do ponto de vista do decoro e da responsabilidade.
25. O conceito de excepcional denotava a fatídica falta de moderação dos heróis e vítimas das grandes tragédias, como a dor de Electra ou a obra de caridade de Antígona, insolentes e inúteis para a razoável Ismênia ou o rígido Creonte, mas para o poeta e o público cumprimento de uma lei moral mais alta, e carregava um pathos sinistro pela suspeita de hybris implicada em todo desvio da norma humana, sentimento religioso popular a que alude Aristóteles no início da Metafísica ao dizer que, se a divindade é por natureza ciumenta, todos os homens excepcionais têm de ser desgraçados.
26. Nas passagens em que Aristóteles analisa ideias populares para distinguir termos éticos, perittos aparece às vezes em sentido coloquial, termo ambíguo de admiração exagerada com que o filisteu designa o que ultrapassa sua capacidade e lhe parece suspeito, mas, se o conceito adquiriu com o tempo conotação positiva e o meio se rebaixou a mediocridade, essa evolução remonta a Aristóteles, que estendeu o excepcional para além da emoção e da ação, até o comportamento racional e o mais alto dos feitos humanos, o pensamento contemplativo do filósofo.
27. Na Ética, a grandeza de alma, megalopsychia, do homem eminente é considerada valor superior ao simples equilíbrio de forças das naturezas menores, sendo o magnânimo descrito como extremo quanto à grandeza e meio quanto à devida proporção.
28. Com o mesmo sentimento da grandeza como valor absoluto, a contemplação dos Primeiros Princípios é caracterizada como perittos no sentido popular e no mais profundo, pois ultrapassa todo conhecimento de utilidade imediata, mesmo moral e política, e, sendo fim em si mesma, pareceria transcender a natureza humana e ser privilégio dos deuses, mas é justamente por esse valor transcendente que Aristóteles, rejeitando a velha superstição da divindade ciumenta, a declara verdadeiro fim e felicidade perfeita do homem.
29. O autor do Problema XXX, 1 procurava compreender e em certa medida justificar o homem grande por ter paixões mais violentas que as dos homens vulgares e, apesar disso, força bastante para alcançar o equilíbrio a partir do excesso, tipo a que pertenciam Ájax e Belerofonte, mas também Platão e Sócrates, e assim o Problema liga-se a temas genuinamente aristotélicos, pois as ideias de furor criador e entusiasmo, aceitáveis para o jovem Aristóteles, continuaram a atuar em seu pensamento, mesmo quando não formuladas explicitamente.
- O mesmo pensador que usava às vezes manikos e enthousiastikos em sentido pejorativo chamava inspirada a arte da poesia.
- Na Poética, o poeta, que deve ter ideia clara de cada momento do drama e experimentar ele próprio as emoções de seus heróis, tem de ser homem de talento, euphyes, de natureza impressionável, euplastos, ou inspirado por furor, extático.
30. Para Aristóteles, esse furor não podia ser divino no sentido de uma origem não natural, e só seria aceito depois de perder seu caráter transcendental e adquirir estatuto legítimo ao integrar-se no encadeamento natural de causa e efeito.
31. É essa a tarefa do Problema XXX, 1: substituir a ideia mítica do furor pela ideia científica da melancolia, tarefa facilitada porque melancólico e louco, em sentido patológico, eram sinônimos havia muito e o dom de sonhos verídicos e profecias do melancólico doente correspondia à equiparação platônica entre mântico e maníaco.
32. A ideia de melancolia adquiriu assim conteúdo novo e positivo, e tornou-se possível reconhecer e explicar o fenômeno do homem genial, pois Platão descrevera como uma condição anormal, loucura aos olhos do mundo, podia ser fonte de todas as grandes realizações intelectuais, e só essa ideia permitiu a uma mente mais científica que metafísica conceber que a temida melancolia pudesse dotar suas vítimas de dons que superassem a razão, sendo a distinção do Fedro entre furor divino e furor como doença humana a condição da distinção entre melancolia natural e patológica, mas só a ideia aristotélica da matéria, unida à teoria do calor, permitiu ordenar sistematicamente as formas de veemência numa teoria dos contrários, e só a ideia do meio permitiu conceber um equilíbrio entre os polos, uma eukrasia dentro da anomalia que justificava a tese paradoxal de que só o anormal é grande, conservando-se o milagre do gênio não como irrupção de forças míticas, mas como a natureza que se supera segundo suas próprias leis imanentes, fazendo do homem, raramente, um super-homem.
33. O Problema XXX, 1 ocupa um ponto da história do pensamento em que platonismo e aristotelismo se interpenetram e se equilibram, sendo platônica a ideia do furor como única base dos mais altos dons criadores e aristotélica a tentativa de pôr sob a luz da ciência racional a relação misteriosa entre gênio e loucura, que Platão exprimira apenas em mito, e de resolver as contradições entre o mundo material e o das ideias por uma nova interpretação da natureza, união que levou a uma mudança de valores em que os muitos foram equiparados ao médio e se acentuou o emocional sê diferente mais que o ético sê virtuoso, subjetivismo tipicamente helenístico e de sabor moderno, em que o furor divino se tornou sensibilidade da alma e a grandeza espiritual se mediu pela capacidade de experimentar e sobretudo de sofrer, ideia que aponta para Teofrasto, primeiro a escrever um livro inteiro sobre a melancolia e que atribuiu a ela as obras inacabadas e as contradições de Heráclito.
34. A fonte obscura da genialidade, já implícita na palavra melancolia, revelava-se pela primeira vez: o furor divino de Platão era a lembrança de uma esfera ultramundana de luz supraceleste, reencontrada apenas em momentos de êxtase, enquanto no pensamento peripatético a melancolia era uma forma de experiência em que a luz era mero correlato da escuridão e em que o caminho para a luz, como entenderam épocas posteriores, estava exposto a perigos demoníacos.
