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Ser - Habitar (Irigaray)

IRIGARAY1990

Em um texto intitulado « O esquecimento de Hestia », o filósofo francês Jean-Joseph Goux analisa a trajetória nostálgica de Heidegger em busca de uma possibilidade de habitar a terra como mortais sem renunciar à dimensão do divino como festa e realização. Ele explica que o termo ser frequentemente se identifica com o termo habitar na filosofia de Heidegger e que essa coincidência se intensifica com o desenvolvimento de seu pensamento. Para essa demonstração, Goux recorre às raízes indo-europeias dessas palavras. Ora, a essas mesmas raízes — que significam ser e habitar — está ligado o nome de Hestia, divindade feminina que guardava a chama do lar doméstico. O divino, portanto, é guardado em casa pela mulher. Ele é transmitido de mães para filhas. Quando uma filha se casa, a mãe acende uma tocha no altar de seu próprio lar e a carrega, precedendo o jovem casal, até a nova morada. Ali, ela acende o primeiro fogo do altar doméstico de sua filha. Esse fogo simboliza a guarda da pureza pela mulher. Essa pureza não significa uma virgindade defensiva ou pudica, como os contemporâneos leigos poderiam entender, tampouco significa submissão à cultura patriarcal e sua definição de virgindade como valor de troca entre homens. Seu sentido é a fidelidade da mulher à sua identidade e à sua genealogia femininas. O respeito a essas qualidades e filiações femininas é garantia do caráter sagrado do lar. A perda da dimensão da habitação terrestre acompanha o esquecimento de Hestia em favor de deuses masculinos, definidos como celestes pela filosofia a partir de Platão. Esses deuses extraterrestres parecem ter nos tornado estranhos à vida na terra, doravante considerada um exílio.

Tal interpretação da vida terrestre, a ruptura da genealogia feminina, o desconhecimento de suas deusas, de suas propriedades, não contribuem para a realização feliz do matrimônio, entendido no sentido mais amplo de aliança carnal e espiritual entre homem e mulher. Por mais que um casal eventualmente se entenda, não existe, para ele, um espaço de relações intersubjetivas sem transformação da linguagem e da cultura. Os dramas que daí decorrem são, por vezes, mais visíveis na arte e na literatura do que em outras representações mais reguladas pela verdade lógica ou pela ordem social, onde a cisão artificial entre vida privada e vida pública mantém um silêncio cúmplice sobre os desastres amorosos.

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