Masculino e Feminino (Irigaray)
IRIGARAY2016
O natural é pelo menos dois: masculino e feminino. Toda a especulação sobre superar o natural no universal esquece que a natureza não é uma. Para ir além - supondo que isso seja necessário - deveríamos partir da realidade: ela é dois (um dois que contém por sua vez diferenças secundárias: menor/maior, mais jovem/mais velho, por exemplo). O universal foi pensado como um, pensado a partir de um. Mas esse um não existe.
Se esse um não existe, o limite está portanto inscrito na própria natureza. Antes que surja a questão da necessidade de superar a natureza, é preciso tornar aparente que ela é dois. Esse dois inscreve a finitude no próprio natural. Nenhuma natureza pode pretender corresponder ao todo do natural. Não existe “Natureza” como entidade singular. Nesse sentido, existe uma espécie de negativo no natural. O negativo não é um processo de consciência do qual só o homem é capaz. Mais precisamente, se o homem não leva em conta o limite inscrito na natureza, sua oposição ao natural não realiza o trabalho do negativo. Ele se apropria do natural e pretende superá-lo por uma consciência posteriormente determinada por essa ingenuidade natural: eu sou o todo.
Ora, nenhuma mulher ou homem realiza o todo em si mesmo, nem da natureza nem da consciência. Confundir a parte com o todo contamina o negativo com uma positividade imaginária.
Assim, uma dupla totalidade factícia é determinada por/com jogos de limitação entre esses pseudo-absolutos: natureza e espírito.
Já não estamos lidando com a realidade, mas com uma construção elaborada a partir de um ponto de vista. A natureza e o espírito em questão são particulares que se tomam pelo absoluto devido à incapacidade de aceitar seus limites.
Portanto, é pertinente questionar seu status como um(s) e como universal(is) em termos de sua(s) particularidade(s).
Tomemos essas duas partes da humanidade, homens e mulheres. É errado reduzi-las a um. O que a razão demonstra com tal redução é sua impotência ou imaturidade: o homem deve ser a cabeça para o corpo, a mulher. Parece, então, que a humanidade não atingiu a idade da razão. Ainda está suspensa entre a divindade e a animalidade. Como se o homem fosse o divino para o reino animal feminino.
Uma pequena fenomenologia poderia, no entanto, nos mostrar que o homem está mais próximo da animalidade do que a mulher, a menos que a reprodução seja tomada como sinal de pertença ao reino animal, sendo o homem-deus apenas um criador, ou seja, não-humano. Na verdade, o homem é gerado, não criado. No entanto, é como se, ao desejar ser Deus, o homem tivesse perdido a cultura do próprio corpo. Como se ainda não tivesse alcançado o status humano. Parecemos ser uma espécie de seres vivos em busca de nossa identidade, como homens e mulheres.
Portanto, precisamos explorar a natureza existente e o universal como uma particularidade, como particularidades.
Devemos também nos perguntar se começamos a pensar ou se tudo o que conhecemos do espírito são meramente operações do entendimento. Em outras palavras: argumentamos e debatemos dentro de um campo e com ferramentas lógicas e gramaticais definidas de tal forma que não podemos realmente pensar. O horizonte de compreensão que temos nos impede esse pensamento. Discutimos, raciocinamos, mas não pensamos. Voltamos ao ponto de partida, tendo produzido entropia natural e espiritual ao longo do caminho.
Por exemplo, o curso que a dialética toma em seu processo de negação precisa ser repensado em relação à imediatez natural, à sua concepção do em-si e do para-si, e à sua definição da dimensão sensível.
