User Tools

Site Tools


outros:behar-cabala-crista

Cabala Cristã (Béhar)

BÉHAR, Pierre. Les langues occultes de la Renaissance: essai sur la crise intellectuelle de l’Europe au XVIe siècle. Paris: Desjonquères, 1996.

  • A Cabala cristã surge como tentativa de integrar a tradição cabalística judaica no horizonte teológico do cristianismo.
    • Ela não visa conservar a Cabala em sua autonomia original.
    • Procura reinterpretá-la à luz da revelação cristã.
    • O núcleo do esforço consiste em demonstrar a concordância profunda entre Cabala e cristianismo.
  • A Cabala cristã afirma que o nome de Jesus constitui a chave do sistema.
    • O Tetragrama encontra sua plenitude no nome de Jesus.
    • A encarnação é compreendida como realização do sentido oculto dos nomes divinos.
    • O mistério cristológico é apresentado como cumprimento da revelação cabalística.
  • O conhecimento dos nomes divinos é central.
    • Os nomes não são simples designações.
    • Eles expressam os diferentes modos de manifestação de Deus.
    • Conhecer os nomes equivale a conhecer os atributos divinos.
  • A Cabala cristã estabelece uma teologia dos nomes.
    • Cada nome corresponde a uma face de Deus.
    • Essas faces estruturam a criação.
    • A linguagem divina organiza o mundo desde sua origem.
  • A criação é entendida como ato linguístico.
    • Deus cria por meio da palavra.
    • A estrutura do mundo reflete a estrutura da linguagem divina.
    • A realidade é simbolicamente articulada.
  • A Cabala cristã mantém uma função contemplativa.
    • Seu objetivo principal é a elevação espiritual.
    • O saber conduz à aproximação de Deus.
    • A prática visa a união com o divino, não a dominação do mundo.
  • A magia é rigorosamente delimitada.
    • Apenas a magia natural é admitida.
    • Toda invocação demoníaca é rejeitada.
    • A eficácia procede da ordem divina, não de poderes autônomos.
  • A Cabala cristã combate o nominalismo radical.
    • Os nomes não são convenções vazias.
    • Eles possuem fundamento ontológico.
    • A linguagem participa da realidade que designa.
  • A teologia cabalística apresenta-se como ciência simbólica.
    • O símbolo não é arbitrário.
    • Ele exprime uma verdade ontológica.
    • A interpretação simbólica é via legítima de conhecimento.
  • A Cabala cristã pretende restaurar a unidade do saber.
    • Teologia, filosofia e linguagem convergem.
    • O conhecimento não se fragmenta em disciplinas autônomas.
    • O mundo aparece como totalidade inteligível.
  • Essa doutrina responde a uma crise do saber medieval.
    • O esgotamento da escolástica abre espaço a novas sínteses.
    • A Cabala oferece uma alternativa simbólica e teológica.
    • Ela promete reconciliação entre fé e conhecimento.
  • A Cabala cristã ocupa, assim, uma posição de transição.
    • Ela preserva elementos medievais.
    • Antecipam-se nela aspirações renascentistas.
    • Ela prepara tanto a expansão mágica posterior quanto a reação racional moderna.
  • Ao mesmo tempo, sua ambiguidade permanece.
    • A fronteira entre teologia e magia é frágil.
    • O risco de instrumentalização do sagrado subsiste.
    • A Cabala cristã permanece suspensa entre contemplação e poder.

A Cabala cristã, resposta ao fracasso do nominalismo

  • A Cabala cristã constitui-se como resposta filosófica e teológica ao fracasso do nominalismo em fundar a inteligibilidade do real.
    • O nominalismo dissolve os universais em nomes puramente convencionais.
    • A linguagem é separada do ser.
    • O mundo perde sua unidade inteligível intrínseca.
  • O colapso do nominalismo manifesta-se na incapacidade de explicar a coesão do mundo.
    • Os conceitos deixam de corresponder a estruturas reais.
    • O conhecimento reduz-se à enumeração de particulares.
    • A relação entre pensamento, linguagem e realidade é rompida.
  • A Cabala cristã reintroduz uma ontologia do sentido.
    • Os nomes não são arbitrários.
    • Eles possuem fundamento real na estrutura do ser.
    • A linguagem divina torna-se princípio da inteligibilidade do mundo.
  • Contra a dissolução nominalista, afirma-se a realidade das formas.
    • Os nomes divinos correspondem a aspectos reais de Deus.
    • Esses aspectos estruturam a criação.
    • O mundo é inteligível porque é linguisticamente ordenado desde sua origem.
  • A linguagem recupera uma função ontológica.
    • Falar não é apenas designar.
    • Nomear é manifestar a essência.
    • A palavra participa do ato criador.
  • A teologia cabalística responde diretamente à crise do sentido.
    • Recusa a separação radical entre signo e coisa.
    • Afirma a continuidade entre palavra divina e realidade criada.
    • O mundo readquire densidade simbólica e significação.
  • A Cabala cristã oferece uma alternativa ao ceticismo implícito no nominalismo.
    • O conhecimento não se encerra na subjetividade.
    • Ele participa de uma ordem objetiva.
    • A verdade não é apenas lógica, mas ontológica.
  • O nome divino assume função unificadora.
    • Ele reúne a multiplicidade dos entes.
    • Funda sua coerência interna.
    • Torna possível um saber unificado.
  • A criação é compreendida como texto.
    • O mundo é legível porque foi escrito.
    • As criaturas funcionam como signos reais.
    • Conhecer consiste em interpretar corretamente essa escrita.
  • A Cabala cristã restaura a dignidade do intelecto.
    • A inteligência humana pode aceder ao sentido do real.
    • Não por abstração vazia, mas por participação simbólica.
    • O conhecimento reencontra uma dimensão contemplativa.
  • Essa resposta não é apenas teórica.
    • Ela implica uma visão do mundo.
    • Orienta uma prática espiritual.
    • Recoloca a linguagem como mediação entre Deus, o mundo e o homem.
  • A Cabala cristã apresenta-se, assim, como tentativa de superar a crise do saber medieval.
    • Conserva a exigência racional.
    • Rejeita o reducionismo nominalista.
    • Propõe uma síntese na qual linguagem, ser e verdade voltam a coincidir.
  • Essa solução permanece, contudo, estruturalmente ambígua.
    • A revalorização ontológica do nome abre espaço para usos operativos.
    • A fronteira entre contemplação e instrumentalização torna-se instável.
    • A resposta ao nominalismo prepara também novas tensões no interior do pensamento moderno.

Cabala cristã e humanismo

  • A Cabala cristã insere-se plenamente no horizonte do humanismo renascentista.
    • Ela partilha a confiança na dignidade do intelecto humano.
    • Afirma a capacidade do homem de compreender a ordem do mundo.
    • O saber é concebido como via de elevação e não como simples técnica.
  • O humanismo fornece o quadro cultural da Cabala cristã.
    • A valorização das línguas antigas legitima o retorno ao hebraico.
    • A filologia torna-se instrumento de acesso à verdade.
    • A revelação é pensada como inteligível à razão cultivada.
  • A Cabala cristã responde ao ideal humanista de unidade do saber.
    • Teologia, filosofia e linguagem não são domínios separados.
    • O conhecimento não se fragmenta em disciplinas autônomas.
    • O mundo é concebido como totalidade coerente e legível.
  • O homem ocupa posição central nessa síntese.
    • Ele é mediador entre Deus e o mundo.
    • Sua inteligência reflete a ordem divina.
    • Conhecer é participar do logos criador.
  • A linguagem assume função humanista fundamental.
    • O estudo dos nomes divinos integra-se ao estudo das letras antigas.
    • A palavra é veículo de sentido e de ser.
    • A educação linguística torna-se formação espiritual.
  • A Cabala cristã reforça a confiança humanista na razão.
    • A fé não se opõe ao entendimento.
    • Os mistérios podem ser abordados simbolicamente.
    • A inteligência é chamada a cooperar com a revelação.
  • O projeto humanista de reconciliação entre Antiguidade e cristianismo é retomado.
    • A tradição hebraica é integrada ao patrimônio clássico.
    • A verdade é una, ainda que múltiplas sejam suas expressões.
    • O cristianismo aparece como cumprimento das sabedorias antigas.
  • A dimensão ética do humanismo é preservada.
    • O saber não é neutro.
    • Ele orienta a vida.
    • O conhecimento verdadeiro conduz à reforma interior.
  • A Cabala cristã recusa o anti-intelectualismo.
    • A ignorância não é virtude.
    • A contemplação exige preparação do espírito.
    • O estudo é forma de ascese.
  • A figura do sábio humanista é redefinida.
    • Ele é simultaneamente filólogo, filósofo e teólogo.
    • Sua tarefa é interpretar os sinais do mundo.
    • O saber é serviço à verdade e à comunidade.
  • A Cabala cristã encarna o otimismo humanista quanto à inteligibilidade do real.
    • O mundo não é caótico.
    • Ele é estruturado por sentido.
    • A linguagem permite acessar essa estrutura.
  • Essa aliança entre Cabala cristã e humanismo permanece, contudo, tensionada.
    • A valorização do saber pode deslizar para o poder.
    • A mediação simbólica pode tornar-se instrumento.
    • A síntese humanista prepara tanto a elevação espiritual quanto futuras derivações operativas.

A “Cabala real”

  • A noção de Cabala real constitui, no pensamento de Agrippa de Nettesheim, uma reformulação decisiva da tradição cabalística no interior de um horizonte mágico-filosófico.
    • A Cabala real não se identifica com a Cabala hebraica tradicional, fundada no estudo da língua sagrada e na exegese textual.
    • Ela se define como uma Cabala universal, anterior às línguas históricas.
    • Seu fundamento não é filológico, mas ontológico.
  • A Cabala real baseia-se na convicção de que a estrutura do real precede qualquer linguagem particular.
    • As línguas humanas são derivações secundárias.
    • A verdade não depende do hebraico enquanto idioma histórico.
    • Ela reside nas formas primeiras que estruturam o mundo.
  • Essas formas primeiras são de natureza geométrica e simbólica.
    • Pontos, linhas, círculos e proporções expressam diretamente a ordem do ser.
    • A geometria assume estatuto metafísico.
    • Ela é entendida como linguagem imediata da criação.
  • A Cabala real desloca o eixo da revelação.
    • O acesso ao divino não passa prioritariamente pelo texto revelado.
    • Ele se realiza pela contemplação das estruturas universais do cosmos.
    • O mundo torna-se o verdadeiro livro de Deus.
  • A unidade do real manifesta-se de modo privilegiado na figura da mônada.
    • A mônada concentra em si a totalidade do cosmos.
    • Ela exprime a passagem do Uno à multiplicidade.
    • A Cabala real é, nesse sentido, uma ciência da unidade.
  • A função da Cabala real é essencialmente cognitiva e operativa.
    • Cognitiva, porque permite compreender a estrutura íntima do mundo.
    • Operativa, porque esse conhecimento confere poder de ação.
    • Conhecer a forma é poder agir segundo ela.
  • A Cabala real pretende superar as limitações da Cabala tradicional.
    • O conhecimento não é reservado aos que dominam uma língua sagrada.
    • Ele se abre a todos os que compreendem a ordem geométrica do ser.
    • A universalidade substitui a eleição linguística.
  • A matemática e a geometria assumem papel central.
    • Elas garantem a universalidade do saber.
    • Não dependem de tradição particular.
    • Funcionam como mediadoras entre intelecto humano e razão divina.
  • A Cabala real redefine a relação entre símbolo e realidade.
    • O símbolo geométrico não representa algo exterior a ele.
    • Ele participa da própria estrutura do real.
    • A figura não é alegoria, mas condensação ontológica.
  • Essa concepção reforça a continuidade entre filosofia, magia e teologia.
    • A filosofia fornece a inteligibilidade.
    • A teologia fornece o princípio.
    • A magia fornece a eficácia.
  • A Cabala real confere ao homem um papel central.
    • O intelecto humano é capaz de apreender as formas universais.
    • O homem torna-se intérprete da criação.
    • A dignidade humana é elevada pela capacidade de conhecer e operar.
  • Ao mesmo tempo, essa concepção introduz uma tensão fundamental.
    • O saber tende a converter-se em poder.
    • A contemplação corre o risco de ser subordinada à eficácia.
    • A Cabala real oscila entre via de conhecimento e técnica de domínio.
  • A Cabala real aparece, assim, como culminação e deslocamento da Cabala cristã.
    • Culminação, porque realiza o ideal de universalidade.
    • Deslocamento, porque afasta o centro da revelação do texto para a forma.
    • Ela marca a passagem decisiva da Cabala teológica para uma Cabala metafísica e operativa.
outros/behar-cabala-crista.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki