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O Homem e a Gente

ORTEGA Y GASSET, José. El hombre y la gente. Madrid: Revista de Occidente, 1957.

1. As demoras deste ato, causadas por incidentes de saúde, exigem desculpas, embora o castigo recaia sobre quem fala, já que terão tornado o público mais exigente e menos benévolo, quando nem o propósito, nem a ocasião, nem o estado físico permitem navegação de grande altura, pois se trata apenas de servir de pretexto para que os estudantes de História da Arte da universidade completem o orçamento de sua viagem à Grécia, motivo que venceu a resistência de quem vive em silêncio e debaixo da terra por muitas razões e o obriga a fazer roçar pela primeira vez sua alma com a alma de Valladolid, o que desconcerta um pouco, porque o momento em que um homem se encontra fisicamente pela primeira vez diante de outros é sobremaneira dramático e decisivo para o futuro de ambos.

2. Por mais que se tenha ouvido falar de alguém, sua primeira apresentação física apanha desprevenido e produz, queira-se ou não, uma impressão de sua alma, caráter e realidade profunda mais exata que tudo o que se possa contar dele ou aprender no trato posterior, tanto que, depois de muito conviver e mudar várias vezes de opinião, recorda-se que aquela impressão inicial revelou mais seu segredo, o que explica o coup de foudre entre homens e mulheres, as simpatias e antipatias súbitas entre varões e, na política, que os grupos sigam ou não de verdade um homem, cuja força máxima reside não no que diz, mas em quem é, pois a palavra é serva da vontade e pode mentir, enquanto a corporeidade, a fisionomia, o timbre da voz e a presença não dependem dela, já que a carne viva é sempre hieróglifo que exprime no mundo patente a intimidade latente e muda de cada vida, e quem tenta fingir seus gestos só consegue revelar que finge, de modo que a pessoa física grita aos quatro ventos, com voz mais verídica que toda palavra, o segredo da pessoa íntima, impressão que, expressa ou não, opera automaticamente no ânimo de quem vê e decide sua atitude.

3. Por isso os antigos, mais atentos que os modernos à importância de certas situações vitais, consideravam especialmente dramáticas a chegada e a partida e imaginaram dois deuses ou patronos para protegê-las, Adeona e Abeona, o deus do chegar e o deus do partir.

4. Por isso, diante dos vallisoletanos, ainda não se sabe se amigos ou hostis, este instante desconcerta um pouco.

5. Sofre-se com gosto esse pequeno desconcerto pensando que contribui para que esses jovens da Castela interior, essa Castela que, como disse belamente Azorín, não vê o mar, realizem a ilusão tão natural de ver o velho mar clássico, que lhes promete horizontes azuis, promontórios famosos com templos mutilados nos ombros, praias quase mitológicas e talvez sereias.

6. Não se deve ocultar, porém, a preocupação crescente com o fato de que há dezessete ou dezoito anos a Europa se dedica a mimar seus jovens, culto iniciado por razões nobres e desinteressadas, já que cada idade tem suas virtudes e há na história um ritmo de tempos de jovens e tempos de velhos, como a Grécia, que viveu dois séculos encantada com seus efebos, tendo como instituição mais importante dos séculos V e IV o ginásio, e que sucumbiu politicamente cedo nas mãos do jovem entre os jovens, Alcibíades, enquanto Roma, que tratou sempre duramente o rapaz e se apoiou na maturidade, no pai de família e no senador, nos patres conscripti e não nos tirones, tornou-se dona do mundo.

7. Há quase dez anos se recomendou à Europa precaução com seu entusiasmo excessivo pela juventude, que antes fora desatendida com igual excesso, a ponto de ser jovem ainda uma tarefa triste naquela geração, mas depois se passou ao extremo oposto e se quis que só existisse a mocidade, impondo-se seus usos, gestos e trajes, e pais e mães tiveram de imitar até no vestir os filhos, não por pretensão individual de parecer jovens, mas porque o tempo era jovem e os obrigava a fingir-se moços.

8. Enquanto a gente se divertia ao som pueril do jazz negroide, patinava nas serras, bebia coquetéis e se despia nas praias, nesses quinze anos frívolos e estúpidos da vida europeia, condensavam-se problemas terríveis e a existência coletiva tornava-se cada vez mais difícil e áspera, e se em 1928 ainda se cria com fé rotunda ter alcançado para sempre o bem-estar, poucos meses depois milhões de desempregados inundavam as nações mais poderosas e a fome, a desilusão e a angústia instalavam-se no horizonte como constelações novas, quando não passam de ingredientes eternos do destino humano esquecidos pelo homem recaído na puerilidade, mudança fulminante própria da infância, a única idade que pode estar puerilmente segura do porvir, ignorando que ele é na vida humana o perigo constante e absoluto, a costa desconhecida composta de todo o possível, talvez do melhor, mas também do pior, e a juventude costuma ser petulante porque é cega para o porvir e o anota inteiro como ganho, devendo lembrar a censura de Victor Hugo a Napoleão por confiar demais em sua estrela, segundo a qual o porvir não é de ninguém, mas só de Deus.

9. A Europa fez nestes anos mais uma vez a eterna averiguação de que toda virtude e toda graça têm limites e falhas e exigem complemento, e não é vaticínio extraordinário suspeitar que no subsolo de sua alma ela começa a orientar-se de novo para a maturidade, inclusive a juventude mais recente, coisa ainda não patente, mas visível para quem sabe olhar por refração a realidade histórica, que tem uma face ostentosa e uma região abissal oculta e contém um estranho anacronismo, em que na superfície continuam gesticulações mortas do passado enquanto no fundo fermentam novas formas de existência, como na geração atual de vinte anos, que começa a sentir que ao homem total não basta ser jovem e que só será forte articulando-se, sem perder suas qualidades, com uma geração madura.

10. A razão dessa mudança é a perda súbita da indevida segurança no porvir que uma fé excessiva no progresso infundira, pois o porvir, como se tirasse a máscara, mostrou ao presunçoso europeu sua verdadeira fisionomia de problema essencial, risco absoluto e enorme tarefa, e não de esplêndido presente, e muitas coisas que pareciam conquistadas e mais interessam às multidões, a organização econômica e as formas do Estado, falharam de repente, deixaram de assegurar o porvir e se converteram em pretérito quebrado e enferrujado, cuja insuficiência e limitação se apalparam, experiência típica em que consiste a maturidade.

11. O jovem estreia a vida e vê as coisas chegarem com a face alegre de quem parece eterno e sem falha, enquanto o homem maduro as viu chegar e depois passar, viu-lhes as costas, e o europeu de hoje viu em brevíssimo período as costas de tantas esperanças, ideais e promessas que fogem vencidos e exaustos que em sua paisagem quase só vê costas, sendo a ciência a única coisa que não lhe falhou nem parece poder falhar, razão pela qual surpreende que não se abrace a ela com mais fervor que nunca.

12. Essas questões demasiado atuais, que a ocasião não convida a tratar, devem ser abandonadas com pé ágil, pois só levariam a acumular vãs lamentações, quando o importante é preparar o porvir e fabricar energicamente uma nova segurança no lugar da herdada que falha, o que só se consegue aproveitando toda ocasião diante de um público para chegar a algumas ideias perfeitamente claras sobre um tema essencial, desses que não parecem atuais nem aparecem nos jornais, mas são as entranhas vivas de que tudo depende.

13. A única pretensão é pôr o público em contato imediato e patético com um desses grandes temas elementares, no brevíssimo tempo disponível e sobretudo com clareza, já que a clareza é a cortesia do filósofo.

14. O título da conferência anuncia o tema sem declará-lo, deliberadamente, para que o público se encontre dentro de sua realidade, apalpando-o e vendo-o diretamente, sem presumi-lo de antemano, evitando que conceitos falsos recebidos estorvem o contato imediato que se quer provocar.

O PROBLEMA MAIS GRAVE DO PRESENTE

1. Sob a denominação aparentemente inofensiva de O homem e a gente oculta-se o problema mais grave do presente e de todo o futuro próximo divisável, a formidável dualidade entre indivíduo e coletividade, objeto nos dois últimos anos de um trabalho muito intenso que leva à instauração de uma nova sociologia e do qual se oferecem as primícias, referidas apenas ao tema fundamental que desempenha papel decisivo em todas as questões secundárias provocadas por essa dualidade.

2. Os chamados fatos sociais ou coletivos são fenômenos de vida humana e não da natureza física ou biológica, mas a análise da vida humana mostra que nela não há nada que não seja algo que alguém faz ou que a alguém acontece, sendo a vida sempre minha, tua ou sua, e o homem não é uma coisa, nem seu corpo nem sequer sua alma, mas alguém que se encontra com eles e tem de arranjar-se com eles como se encontra vivendo numa paisagem de clima talvez áspero e num tempo de grave crise econômica, de modo que não há vida humana sem um sujeito que a vive, seu elemento mais imprescindível, e não vale falar do espírito e do humano, como costumam os alemães, sem precisar quem é o sujeito.

3. Só a vida individual apresenta um sujeito que a vive, pois se a vida é acontecimento não há rigorosamente vida humana sem alguém determinadíssimo a quem algo acontece, e tudo o que se faz ao viver tem de ser decidido, para o que é preciso alguma razão ou motivo, sem os quais não se daria um passo, de modo que o homem precisa justificar seus atos, não diante de um tribunal externo nem de um juiz íntimo que seria a consciência moral, já que ao falar de moral costuma-se supor uma norma exterior à vida, como se fosse possível de fato viver sem justificação e a moral apenas acrescentasse mérito e prêmio, o louvor público ou a salvação na ultravida.

4. A todo instante é preciso escolher o que se fará no seguinte, o que obriga a justificar o ato escolhido diante dos próprios olhos, achando que tem sentido preferi-lo a qualquer outro, de modo que a vida humana é, e não apenas deve ser, justificação e, inexoravelmente, responsabilidade, pois é cada um quem leva sua vida às costas, quem tem de suportar a dor que sofre sem que ninguém possa compartilhá-la, nem decidir por ele o que fará e será, nem pensar em seu lugar os pensamentos de que precisa para andar pelo mundo.

5. A vida é intransferível e solidão, e ao encontrar no mundo outros seres semelhantes anseia-se comunicação e companhia, intentadas pela amizade, pelo amor e por outros afetos, mas é de suma importância notar que a convivência, a comunicação ou comunidade consiste sempre em que uma alma individual, responsável e pessoal, a vida de alguém determinado, se põe em relação com outra vida individual igualmente responsável e determinada, pois só se pode conviver com outra pessoa, com quem é alguém.

A GENTE É NINGUÉM

1. Os fatos sociais têm um caráter sumamente estranho, como o do guarda de trânsito que impede a passagem não por conta própria nem por responsabilidade sua, mas executando uma proibição legal que pessoalmente lhe é indiferente, numa relação que não é de pessoa a pessoa, e cujo sujeito se diz ser o Estado, que no entanto não é um homem, embora proibição e mandato sejam fatos humanos que deveriam provir de alguém, de modo que à pergunta sobre quem é ele responde-se com grande vagueza que o Estado é tudo, a sociedade, a coletividade.

2. O mesmo ocorre com os usos e costumes, pois o que se faz porque é uso não se faz com a própria razão e por conta própria, mas porque se faz, e quem faz o que se faz é a gente, que é todos, isto é, ninguém determinado, de modo que a gente é ninguém.

3. A maior parte dos pensamentos, ideias e opiniões com que se vive não é pensada por evidência própria, pessoal e responsável de sua verdade, mas pensada porque se ouviu dizer e dita porque se diz, aparecendo o terrível impessoal como parte de nós mesmos, e na medida em que se pensa porque se pensa e se opina, a vida não é nossa, deixa-se de ser o personagem determinadíssimo que cada um é e vive-se por conta da gente, da sociedade, socializado.

4. Isso basta para ver com clareza o fato, aparentemente inócuo e de pura teoria, que é o grande problema do presente e do porvir, o de haver duas formas de vida humana, a autêntica, individual, que acontece a alguém determinado, consciente e responsável, e a vida da gente, da sociedade, coletiva, que não acontece a ninguém determinado e da qual ninguém é responsável, e se desde o século XVIII se quis supor misticamente uma alma coletiva, e os românticos alemães cometeram nisso não poucas trapaças, a verdade é que a gente, a sociedade, a coletividade, se algo são, são desalmadas.

O SOCIAL É VIDA MECANIZADA

1. Todo o social e coletivo é vida humana despersonalizada, desindividualizada e irresponsabilizada, o humano desumanizado, convertido em algo mecânico e em mera natureza bruta, o que explica o paradoxo de que o social seja indubitavelmente humano e não físico e, no entanto, se comporte de modo inconsciente, indomável e irresponsável como as forças elementares do cosmos, e diante da atual divinização do coletivo, depois de cento e cinquenta anos de leviandades e jogos confusos com as ideias de social, espírito nacional, classe, raça e cultura, como em Spengler, jogos em que as canas se tornaram lanças e dos quais provêm talvez a maior parte das angústias da humanidade, é preciso aprender a ver o social tal como é, vida humana materializada, mecanizada e feita natureza, o que tem, sem dúvida, uma parte de vantagem.

2. Isso permite à sociedade conservar muito do que os indivíduos criam, pois só os indivíduos criam, acumular o passado e transmiti-lo, para que o homem progrida e cada um não tenha de recomeçar do princípio como eterno primitivo, mas tem também terríveis inconvenientes, pois a gente tende cada vez mais a esmagar os indivíduos, e no dia em que o fizer terá matado a galinha dos ovos de ouro, de modo que, em vez de divinizar o coletivo, o mais importante seria que a Europa, assim como criou técnicas maravilhosas para dominar a natureza material, soubesse tratar igualmente a natureza social e criasse limites que submetessem as forças elementares do coletivo à vontade do homem responsável.

3. Deixando de lado reacionarismos e revolucionarismos, que vão em tropel, as coisas que se passam na Europa obrigam a uma nova organização do Estado e de suas eficácias sociais, e enquanto Berlim, Moscou e Roma, as menos ágeis em política, a vertical mais próxima da Ásia, já se manifestaram, Londres, Paris e Madri, a vertical ocidental da Europa, esperam.

4. Se a Espanha e Castela iniciaram em tempos passados as teorias do Estado moderno, nada impede que o façam agora.

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