9 Os estádios da técnica
IX — OS ESTÁGIOS DA TÉCNICA
1. Para distinguir os estágios da técnica deve-se rejeitar o princípio mais óbvio, o de segmentar sua evolução pelo aparecimento de invenções importantes, pois o que importa é o modo geral da técnica de uma época, diante de cuja mole nenhum invento é decisivo, além de técnicas se perderem e serem redescobertas e de uma invenção só adquirir significado técnico quando integrada ao corpo geral da técnica e inspirada pelo programa vital de seu tempo, como a pólvora e a imprensa, que existiam na China séculos antes de servirem para algo e só se tornaram potências históricas na Europa do século XV, contemporâneas da bússola e do compasso, quatro inventos de um mesmo estilo que unem o homem ao distante e constituem a técnica da actio in distans, subsolo da técnica atual.
2. Um princípio radical para periodizar a evolução da técnica é atender à relação entre o homem e sua técnica, isto é, à ideia que ele foi tendo da função técnica em geral, princípio que não só esclarece o passado, mas ilumina a mudança substantiva que engendrou a técnica atual e o papel sem par que ela ocupa hoje na vida humana.
3. A partir desse princípio distinguem-se três enormes estágios na evolução da técnica.
4. O primeiro estágio é a técnica do acaso.
5. O segundo estágio é a técnica do artesão.
6. O terceiro estágio é a técnica do técnico.
7. A técnica do acaso, assim chamada porque nela é o acaso que atua como técnico e proporciona o invento, é a técnica primitiva do homem pré e proto-histórico e do selvagem atual dos grupos menos avançados, como os vedas do Ceilão, os semangues de Bornéu, os pigmeus da Nova Guiné e da África Central e os australianos.
8. O homem primitivo ignora sua própria técnica como técnica e não percebe que entre suas capacidades há uma especialíssima que lhe permite reformar a natureza no sentido de seus desejos.
9. Essa ignorância se explica por três razões.
10. O repertório de atos técnicos do primitivo é tão escasso que não chega a destacar-se do repertório muito maior de seus atos naturais, sendo ele minimamente homem e quase inteiramente animal, de modo que fazer fogo lhe parece tão dado quanto andar, nadar ou golpear e, sendo os atos naturais um repertório fixo, também os técnicos lhe parecem fixos, desconhecendo por completo o caráter essencial da técnica como capacidade de mudança e progresso em princípio ilimitados.
11. A simplicidade e a escassez dessa técnica primigênia fazem com que seus atos sejam exercidos por todos os membros da coletividade, sem que alguns homens se destaquem como artesãos, e a única diferenciação precoce, a divisão de tarefas entre mulheres e homens, não basta para isolar o fato técnico, pois também os atos naturais diferem entre os sexos, de modo que a mulher cultivar o campo, sendo ela a inventora da agricultura, parece tão natural quanto parir.
12. Tampouco o primitivo toma consciência da técnica no momento da invenção, pois não sabe que pode inventar e por isso não busca deliberadamente soluções, sendo antes a solução que o busca, quando, no manejo constante e indeliberado das coisas, surge por puro acaso um resultado novo e útil, como o fogo que brota do atrito de dois paus, revelação súbita de um novo nexo que o deixa aniquilado, como se a natureza lhe tivesse confiado um de seus mistérios, e que por isso se carrega de sentido mágico, sendo todas as técnicas primitivas originalmente envoltas num halo de magia, ela mesma uma técnica, embora falha e ilusória.
13. Esse homem não se sabe inventor de seus inventos, aos quais vê como uma dimensão da natureza que lhe concede certos poderes, sem sentir-se homo faber, numa situação muito parecida com a do chimpanzé descrito por Köhler ao perceber de repente que o pau que segura pode servir a um fim insuspeitado, a chamada impressão do “ahá”, aplicação ao plano consciente da lei biológica de ensaio e erro, pela qual o infusório experimenta inúmeras posturas e fixa como hábito a que lhe traz efeitos favoráveis.
14. A técnica primitiva dá-se no homem ainda como natureza, e suas invenções, produto do puro acaso, obedecem verossimilmente ao cálculo de probabilidades, pois ao número de combinações espontâneas possíveis entre as coisas corresponde uma probabilidade de que um dia se apresentem de modo tal que o homem veja nelas preformado um instrumento.
