Miklós Vetö
VETÖ, Miklós. De Kant à Schelling: Les deux voies de l'Idéalisme allemand. 2 volumes. Grenoble: Jérôme Millon, 1998, 2000.
Antevisão: Leibniz
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1. Embora desde Jacobi a problemática do Idealismo Alemão costume ser associada à metafísica de Spinoza, enquanto a relação com Leibniz é vista apenas como influência histórica, o pensamento leibniziano, do qual Kant é produto e em cuja atmosfera se formaram os três pós-kantianos, constitui para além disso uma poderosa antevisão conceitual de Kant, Fichte, Hegel e Schelling, legando, através da fragmentação de uma obra imensa, um sistema coerente e fechado que abrange por sua lógica interna muitos temas essenciais do Idealismo Alemão.
2. A filosofia leibniziana é uma metafísica dinâmica e um idealismo fundado na percepção, no qual as mônadas, centros de percepção únicos e distintos entre si, formam uma série ascendente e contínua que vai das meramente existentes às sensíveis e às inteligentes, cada uma correspondendo a um conceito individual completo do qual derivam todos os seus predicados, num mundo inteiramente inteligível que é apenas um entre infinitos mundos possíveis no entendimento divino e que chega à existência por uma decisão absolutamente livre da vontade de Deus, desdobrando-se então segundo uma estrutura necessária.
3. A dualidade entre entendimento e vontade divinos antecipa a questão schellinguiana da liberdade de Deus na criação e da relação entre o quê e o que é, entre filosofia negativa e positiva, assim como as mônadas que se espelham mutuamente inspiram o sistema da identidade, o desdobramento do conceito completo em seus predicados se afina com a lógica hegeliana, a espontaneidade da mônada anuncia a autoposição do Eu fichtiano e a apercepção da mônada inteligente prenuncia o sujeito transcendental kantiano.
4. Como reação ao dualismo cartesiano entre matéria e pensamento, o pensamento leibniziano oferece dois remédios, a harmonia preestabelecida, que explica a correspondência entre alma e corpo apesar de sua diferença irredutível, e sobretudo o conceito de força, cujo dinamismo, ao tornar possível a mudança na continuidade e ao emanar de uma substância que só existe no agir, relativiza a dualidade e faz de tudo o que a substância é e produz momentos de sua própria ação.
5. Conceber a substância como princípio e modelo de sua ação explica tanto sua unidade, pois enquanto desdobramento de uma ação ela é o princípio adequado de sua constância, quanto sua espontaneidade radical, pois como atualidade indivisa é a única fonte de seus produtos, o que permite à mônada sem janelas ser princípio de um conhecer e de um agir autônomos.
6. A força, qualificada como ação que faz da mônada a mola de sua produção e autoprodução, é por sua vez determinada como percepção, modo próprio de a mônada sem janelas relacionar-se com o mundo, operação ativa e seletiva que unifica a multiplicidade das impressões e discerne a diversidade no aparentemente uno, e pela qual todas as mônadas, do sábio ao animal e até à pedra inerte, exprimem e representam a estrutura do mundo.
7. A constituição perceptiva, expressiva e representativa de todo ser exprime a idealidade do ser em geral, cuja essência, como notará Hegel, é o pensado, sem que essa continuidade ideal resulte em monismo, pois entre animal e homem há a ruptura entre percepção e apercepção, já que somente os espíritos, e não as almas animais dotadas apenas de percepção e sentimento, possuem a faculdade da reflexão pela qual pensamentos e ações se tornam próprios.
8. A apercepção, faculdade da inteligência de apreender-se tacitamente através de toda compreensão de objeto, é exemplo eminente do cogito como paralelismo entre pensamento de si e pensamento do mundo, enraizando-se no próprio ser do espírito, comportando um momento moral ou prático em sua gênese e tendo por produtos noções comuns, isto é, categorias da metafísica.
9. Sem ser ainda idealista transcendental, Leibniz recorre, como antes Agostinho, à memória para instituir o sujeito autônomo, corrigindo Malebranche ao mostrar que a verdadeira memória intelectual não é mera aptidão para pensar de novo, mas o juízo de já ter pensado, isto é, a própria reflexão, que constitui o essencial da apercepção e da personalidade.
10. Assim como o Idealismo Alemão nascerá sob o primado do prático, a apercepção leibniziana tem certidão de nascimento moral, pois a memória funda a personalidade como continuidade autônoma e a apercepção revela uma identidade moral, enquanto a atenção, maior dom de Deus e voz da consciência, visa, através dos atos particulares, o próprio Eu, sendo a verdadeira mola da posse e da presença de si que define a autoconsciência.
11. A síntese orgânica entre teórico e prático, conhecimento e atenção, consciência e autoconsciência, não se restringe aos atos singulares, pois a reflexão alcança o próprio espírito, de modo que o verdadeiro idealismo leibniziano não é simples identificação espiritualista de ser e pensar, mas idealismo do pensamento sobre o pensamento, no qual a apercepção, antes de ser operação do espírito, constitui seu ser.
12. Em nova antecipação do idealismo kantiano, a apercepção possui conceitos e categorias específicos, pois enquanto as percepções da consciência do mundo correspondem grosso modo aos conceitos empíricos da Crítica, a apercepção se refere às noções fundamentais da metafísica, como ser, substância, simples, composto, imaterial e Deus, havendo reciprocidade entre o pensar a si e o elevar-se pelas verdades necessárias aos atos reflexivos que fazem pensar o Eu.
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1. A unidade, de que a apercepção dá conta nas mônadas inteligentes, caracteriza todas as mônadas e é princípio da determinação, do ser-si e, em última instância, do próprio ser, pois o que não é verdadeiramente um ser também não é verdadeiramente um ser, de modo que o ser real forma um todo, não se encontra no agregado, mero ente de razão, mas na substância, realidade fundada em si e princípio exclusivo de todos os seus momentos.
2. Os pontos metafísicos leibnizianos são simplicidades fecundas cuja unidade não é a pobreza do átomo indivisível, mas um para-si originário que, longe de excluir a multiplicidade, a unifica como princípio de todos os seus momentos, séries e consequências, pois cada substância é um ser completo que determina por sua própria natureza tudo o que lhe deve acontecer, tanto existencial quanto essencialmente.
3. A unicidade da mônada como princípio da lei de suas consequências, primeira confirmação ontológica da unidade conhecida pela apercepção, é reforçada pela doutrina lógica do conceito completo, que, contra a tese aristotélica da contingência do vínculo entre sujeito e predicado, ensina que um sujeito só pode ter os predicados que lhe pertencem, de modo que o conceito de Alexandre contém a priori todos os seus predicados, a definição visa sempre o indivíduo e o sujeito lógico, tornado particular e concreto à maneira da haecceitas escotista, possibilita uma lógica positiva.
4. A implicação lógica dos predicados pelo sujeito reflete a inerência ontológica dos acidentes à substância e atesta uma logicização integral do real, pois, se há sempre no sujeito algo que dá razão de por que um predicado ou acontecimento lhe pertence, é porque existe continuidade entre verdades necessárias e verdades de fato, o que relativiza a diferença ontológica entre essência e existência.
5. No plano da percepção, todos os pensamentos e tudo o que se faz ou sofre decorrem da natureza da alma e estão virtualmente contidos no conceito completo, de modo que a causalidade eficiente da mônada é ipso facto causalidade formal, os acidentes brotam necessariamente da substância e, em virtude de seu conceito individual, Spinoza não podia deixar de morrer em Haia aos 44 anos, nem César deixar de atravessar o Rubicão.
6. O conceito completo institui a aprioridade do indivíduo e supera a interdição aristotélica de uma ciência do particular, sem igualar sua racionalidade à do universal, pois as leis matemáticas, lógicas e metafísicas se deduzem das verdades necessárias, ao passo que as da física, da moral, da vida e da história concretizam verdades de fato, embora a lógica metafísica leibniziana tenda a aproximar e por fim igualar ambas, de modo que o resultado de 5×5 e a morte de Spinoza em Haia não pertençam a inteligibilidades essencialmente distintas.
7. Ainda assim, operações matemáticas e fatos físicos ou históricos obedecem a ordens diferentes de racionalidade, pois as primeiras chegam à evidência pelo princípio de identidade, enquanto os fatos só são pensáveis pelo princípio de razão suficiente, que, sem permitir a uma inteligência finita deduzir efetivamente um acontecimento, demonstra sua estrita racionalidade, já que o conceito individual encerra de uma vez por todas tudo o que lhe acontecerá.
8. Conceito completo e princípio de razão suficiente fazem do sujeito individual um momento de inteligibilidade, permitindo até à verdade contingente uma demonstração causal, mas a racionalidade de cada mônada ainda nada diz de seu valor intrínseco, cuja unicidade insubstituível será fundada pelo princípio dos indiscerníveis e confirmada materialmente pela tese da substância individual como espelho do universo.
9. Contra a metafísica clássica, que, vendo no indivíduo mera refração contingente da espécie, admitia indivíduos numericamente distintos mas idênticos, como grãos de poeira ou gotas de água, Leibniz relata a vã busca de um cortesão por duas folhas perfeitamente iguais num jardim principesco, mostrando que não há nem pode haver tais coisas.
10. Como cada predicado só convém ao seu sujeito, cada realidade tem um conceito individual completo e o princípio dos indiscerníveis afirma a unicidade necessária de cada mônada, cuja diferença em relação às demais é sempre de essência e interior, fundada não na separação, na posição espacial ou temporal ou em algo exterior, mas na identidade de cada uma consigo mesma, de modo que essa unicidade é uma verdade metafísica e não mera constatação empírica ou fato conceitual derivável.
11. O alcance geral do princípio dos indiscerníveis se confirma em múltiplos domínios, pois na física a trajetória de um raio refratado não tem irmão gêmeo, na metafísica a alma como tábula rasa é incompatível com a verdadeira individualidade, na moral o asno de Buridan condena a uma escolha irracional e, no plano do ser em geral, a existência de dois seres absolutamente indiscerníveis faria Deus e a natureza agirem sem razão.
12. O princípio dos indiscerníveis, prolongamento orgânico do conceito completo apoiado pelo grande princípio de razão suficiente, oferece apenas uma prova formal e existencial da unicidade da mônada como valor irredutível, devendo ser completado por considerações materiais segundo as quais cada substância, totalidade única e coerente de atributos, tem como condição ser expressão inédita das perfeições do universo inteiro.
13. O universo possui um conceito originário que determina a ligação de seus predicados e o curso de sua vida e que é refletido pelas substâncias individuais, concentrações ou resumos do universo, numa generalização sistemática da antiga doutrina do microcosmo e macrocosmo segundo a qual todas as mônadas, e não apenas os homens, exprimem o todo, e cada parcela do real, viva como prenuncia a filosofia da natureza, é um espelho no qual um espírito suficientemente penetrante leria todo o passado e todo o futuro infinitamente infinito.
14. As substâncias finitas refletem o todo de modo imperfeito, confuso e a partir de um ponto de vista limitado, enquanto Deus, mônada das mônadas, vê o mundo do centro e fora da série, mas esse ponto de vista parcial é correto à sua maneira e insubstituível, pois cada mônada ocupa sozinha e plenamente sua posição, gozando de uma visão que não partilha com nenhuma outra e representando assim uma face única do todo.
15. O princípio dos indiscerníveis completado pela mônada como espelho funda o valor ontológico do indivíduo, cuja determinação, como observará Schelling, é compreendida não como algo negativo, mas positivo, como potencialidade radicalmente própria, de modo que cada particular, por ínfimo que seja, é uma parte total que goza de autarquia irredutível e que, idealmente, antes de existir, contribuiu para o decreto divino que estabeleceu a existência de todas as coisas.
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1. A condição de espelhar o universo, que funda a autonomia e a inteligibilidade do indivíduo, converte-se, de fenômeno de cisão e dualidade, numa continuidade metafísica geral que conduz ao panlogismo e se manifesta no movimento e no pensamento, aprofunda-se numa nova leitura do princípio dos indiscerníveis em que a unicidade de cada mônada funda a continuidade da série e culmina, com a pretensão das essências à existência, na relativização da distinção entre existência e essência.
2. A impossibilidade do vazio, intuição primeira de Leibniz, manifesta-se no cálculo infinitesimal, na elasticidade da matéria e sobretudo no movimento, que exige que o ponto se prolongue e se continue, e torna possível refutar a explicação mecanicista do pensamento, pois numa máquina pensante ampliada como um moinho só se encontrariam peças que se empurram, de modo que a percepção deve ser buscada na substância simples e o pensamento é uma continuidade autônoma, exemplificada pela memória, da qual são incapazes os corpos transitórios e o átomo estúpido, separado por um vazio intransponível e privado da espontaneidade que liga os elementos.
3. A espontaneidade do pensamento, verdadeira antevisão da síntese transcendental, apoia-se numa argumentação empírico-hipotética, a teoria das pequenas percepções insensíveis, segundo a qual nunca se deixa de perceber, apenas não se apercebem as sensações fracas abaixo de certo limiar, como mostram o ruído de uma cachoeira ou de um moinho que o hábito deixa de ouvir e o bramido do mar, soma de ruídos menores indiscerníveis em si mesmos.
4. Dessas observações seguem conclusões ousadas, pois a passagem do sono à vigília não é salto brusco, mas aumento da intensidade das sensações até um limiar, assim como sono, vertigem e desmaio são enfraquecimento e não ausência de sensação, e a própria morte deixa de ser ruptura radical para aparecer como mudança de estado em que as percepções entram numa espécie de hibernação ou envolvimento, sem desaparecer por completo.
5. A teoria das pequenas percepções ilustra apenas quantitativamente a realidade metafísica da continuidade, cuja prova mais pertinente vem do princípio dos indiscerníveis, pois, se cada ser corresponde a um ponto de vista insubstituível, não pode haver lugares vazios na periferia do ser, e as mônadas, interiormente distintas de suas vizinhas, inserem-se justamente enquanto distintas numa cadeia orgânica, de modo que a verdadeira continuidade não é a sucessão de átomos, que implicaria um vazio metafísico mesmo na contiguidade, mas a síntese dos heterogêneos enquanto diferentes.
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1. Se em seu ápice a continuidade resulta da diferença, o idealismo leibniziano parte inversamente da continuidade para chegar à diferença, pois, estendendo por analogia aos seres particulares a tese escolástica de que em Deus a essência implica a existência, concebe o possível não como puro nada, mas como ainda-não-ser a caminho do ser, de modo que as essências exigem e desejam a existência, a essência é a pré-história da existência e esta não passa de atualização quantitativa daquela, sob pena de possuir ela mesma uma essência.
2. A pretensão da essência à existência, tese na esteira do argumento ontológico, exprime a continuidade suprema entre essência e existência, que funda uma homogeneidade ontológica correspondente a uma homogeneidade lógica, rompida, porém, por uma diferenciação metafísica, já que nem todas as essências podem coexistir e somente as compatíveis e compossíveis, dotadas de maior grau de realidade, riqueza e inteligibilidade, chegam à atualidade.
3. A aparente concorrência ou combate entre os possíveis é na verdade uma dialética que diferencia as ideias segundo seu grau de realidade e sua conformidade com as demais, de modo que, uma vez atualizadas, formam uma ordem harmônica em que cada substância espelha o todo e as demais substâncias, constituindo um universo perfeitamente organizado e correspondente no qual tudo o que afeta uma afeta todas e até o movimento físico se propaga por toda a natureza.
4. O mundo leibniziano, coexistência harmônica de mônadas autônomas que se exprimem mutuamente sobre o fundo de uma continuidade geral, tem como contrapartida a homogeneidade das verdades, pois a diferença entre necessário e factual se torna relativa e até os futuros contingentes são determinados, a diferença aristotélica entre moral e teoria desaparece na inteligibilidade, e mesmo a dualidade entre Deus e o que Ele não é parece abandonada, já que os princípios lógicos e metafísicos são comuns ao divino e ao humano e a diferença entre ambos se reduz à extensão do conhecimento, sendo os homens pequenos deuses.
5. A continuidade entre Deus e o homem, aparente expressão de um idealismo monista e panteísta, é rompida por um momento alógico que irrompe na relação de Deus com a existência do mundo, pois Deus, que não cria seu entendimento nem tem poder sobre ele, escolhe por sabedoria e bondade o melhor dos mundos possíveis sem necessitar de glorificação, de modo que, embora uma vez tomada a decisão deva criar este mundo e sua sequência necessária, não está submetido a nenhuma necessidade de querer criar, e assim se pode dar conta do quê do mundo, de sua essência e estrutura a priori, mas não de seu porquê, de sua existência, cuja efetividade e cujas verdades de fato remetem a uma decisão insondável da vontade.
