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Leibniz

Catherine CLÉMENT. UNIVERSALIS.

Na história da filosofia, Leibniz ocupa uma posição singular na intersecção entre o mais antigo e o mais moderno, reunindo filiação escolástica e preocupação teológica constante com uma antecipação do estruturalismo contemporâneo e uma vocação pluridisciplinar sem equivalente.

  • Leibniz é ao mesmo tempo inventor e enciclopedista: inventor pelo método do cálculo infinitesimal e pela metafísica da descrição do real; enciclopedista pelo projeto de fazer “um inventário exato de todos os conhecimentos adquiridos e mal ordenados” (Couturat, Opúsculos e fragmentos inéditos de Leibniz).
  • Com igual competência, foi filósofo e matemático, mas também linguista, jurista, historiador, geógrafo, diplomata e teólogo.
  • Falar de sua obra exige tomar como dupla norma a variedade dos objetos tratados, de um lado, e a permanência do método — a identidade através da multiplicidade —, de outro.

A variedade da obra leibniziana é praticamente indescritível, materializada em duzentas mil páginas de manuscritos conservados na biblioteca de Hanover, consagradas em grande parte a trabalhos de erudição pelos quais Leibniz não é o mais celebrado.

  • Leibniz é um verdadeiro antropólogo, tanto filósofo das maravilhas quanto das luzes.
  • Em texto inédito recolhido por G. Grua, Leibniz enumera as maravilhas da razão — os números, as figuras, o bem e o mal, o justo e o injusto — e as maravilhas da natureza corporal — o sistema do universo, a estrutura dos animais, as causas do arco-íris, do ímã, do fluxo e refluxo e mil outras coisas semelhantes.
  • Essa ordem das maravilhas obedece a duas atividades: a filosófica, que engloba a matemática, e a erudita — “a filosofia difere da erudição como o que é de razão, isto é, de direito, difere do que é de fato” (carta a Huet).
  • O conjunto remete a Deus, senhor do fato e do direito: é o sistema de teodiceia que preside a obra inteira e pelo qual Leibniz entrou na lenda filosófica.

O sistema de Leibniz exige um discurso iterativo que retorne sobre si mesmo para dar retrospectivamente a razão de uma razão que se apresentava como fato — e cujo centro de perspectiva toma a forma de um labirinto circular.

  • L. Brunschvicg escreveu que a “noção completa” da filosofia leibniziana está diante do historiador como um ideal do qual ele poderá esperar aproximar-se apenas gradualmente, e que determinar um “centro de perspectiva” é questão prévia a todo estudo do leibnizianismo.
  • O ideal lógico seria eliminar todos os fatos contingentes em favor da necessidade da razão; cada elemento novo pede ser ligado à demonstração precedente segundo os mesmos princípios.
  • Um dos textos mais significativos de Leibniz como símbolo desse método é Pensamento curioso acerca de um novo tipo de representação, em que projeta um estabelecimento ao mesmo tempo científico e divertido — “uma espécie de confessionário político”, “uma Academia dos prazeres”, “um bureau geral de endereço para os inventores” — que “se tornaria com o tempo um palácio.”
  • O ponto de partida desse texto é uma representação feita em Paris em setembro de 1675, sobre o rio Sena, de uma máquina que serve para caminhar sobre a água: a partir de um fato, Leibniz constrói uma maneira de representação do mundo, tornando-se o deus de uma teodiceia em miniatura.
  • O espírito do método de Leibniz se ilustra pela metáfora do labirinto e do palácio, no qual só se encontra o caminho com o auxílio de um fio de Ariadne — o filum meditandi, do qual a filosofia se constitui guardiã.

A figura de Arlequim — múltiplo, astuto e viajante — constitui o emblema leibniziano por excelência, imagem do desdobramento infinito de razões sob cada fato novo.

  • Leibniz faz uso metafórico frequente de Arlequim: “Arlequim, que se queria despir no teatro, mas não se pôde fazê-lo porque ele tinha não sei quantas roupas umas sobre as outras.”
  • Sob cada fato novo se descobre uma razão existente; sob cada fato novo outro se revela, e de razão em razão tudo se ordena e se arranja.
  • “Arlequim, imperador da Lua” encontra na extrema novidade os mesmos princípios que no mais familiar: “É em toda parte como aqui, e em toda parte e sempre como entre nós.”
  • Nada é estranho a Leibniz, filósofo do dizível.
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