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A VIDA DO ESPÍRITO É UMA CUMPLICIDADE COM O SER (1934)

Descrever os termos da primeira experiência pela qual o eu se inscreve no ser e mostrar a relação que os une é perseguir uma ação dialética que, sem nada acrescentar a essa experiência, permite medir sua riqueza e sua fecundidade — pois o eu constitui sua própria natureza no curso do debate permanente que a consciência sustenta com o ser absoluto para nascer e se desenvolver.

  • As etapas dessa pesquisa não têm interesse puramente especulativo.
  • Para que as démarches intelectuais apareçam como necessárias, basta que possam ser efetuadas — e antes de tudo que se aceite tentá-las.

A necessidade aqui encontrada não é nem a necessidade exterior que constrange sem satisfazer, nem a necessidade puramente lógica que, tendo por objeto o simples acordo das noções — ou seja, dos possíveis — não é inerente ao próprio ser e permanece sem eco na personalidade por não interessar nem à vontade nem ao amor.

  • A necessidade exterior supõe o aparecimento da sensibilidade — e a necessidade lógica, o da razão — ambas fundadas em uma distinção de faculdades, com papel limitado e derivado.
  • A necessidade aqui em questão é anterior e mais profunda — nasce por dentro e não força a adesão nem pela passividade dos sentidos nem pela disciplina da razão.
  • Essa necessidade implica não apenas uma coincidência entre o pensamento e a essência das coisas, mas uma verdadeira cumplicidade entre o pensamento e as próprias coisas.
  • Ela tem valor ontológico porque acompanha uma operação ao mesmo tempo reveladora e formadora do próprio ser do sujeito.
  • Ela atesta, ao realizá-la, a identidade essencial do ser puro e do ser participado.
  • O conhecimento mais profundo que se pode adquirir do ser consiste no próprio consentimento em ser.

Para que a análise seja justificada, basta que as operações descritas sejam operações reais — ou seja, que possam ser efetuadas — e se puderem, trazem consigo a presença constante do ser e, com ela, toda a luz e toda a alegria que acompanham a atividade consciente de sua essência e da perfeição de seu exercício.

  • A análise não exige mais do que a realizabilidade efetiva das operações que descreve.
  • A presença constante do ser é a consequência necessária dessas operações quando realmente cumpridas.

Cada um deve tentar apreender a natureza do ser verificando a realidade de certos atos espirituais que ninguém pode cumprir em seu lugar — cabendo ao autor apenas sugeri-los e facilitá-los, e cumprindo melhor sua tarefa aquele que sabe fazer-se esquecer.

  • O autor que melhor cumpre sua tarefa é o que desvia do próprio autor o pensamento do leitor, deixando-o em presença de si mesmo.
  • Esse autor permite ao leitor reconhecer, por uma espécie de descoberta pessoal, uma verdade que havia muitas vezes pressentido e que nunca cessou de carregar em seu próprio fundo.
  • Todos os homens contemplam o mesmo ser — e a cada um cabe ser despertado por outro para esse pensamento, ou despertar por sua vez um terceiro.
  • Os homens só podem comunicar-se entre si por meio de uma comunicação de cada um deles com o mesmo objeto.
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