A PRESENÇA DO SER ILUMINA A APARÊNCIA MAIS HUMILDE (1934)
Nenhum pensamento pode superar em força, nem nenhum sentimento alcançar em profundidade, a experiência perfeita em que pensamento, sentimento e ser cessam de se distinguir diante de uma presença real — e fora dessa presença tudo permanece em suspenso, acusando a fraqueza do espírito e a miséria da condição humana.
- A presença real é o ponto último do esforço do conhecimento e onde a vida encontra sua essência e sua significação.
- É a presença sozinha que eleva o caráter de todo objeto — fora dela, o objeto não é senão uma sombra, um sonho ou um desejo.
- Em presença do ser, todos os objetos participam da mesma dignidade, pois cada um revela sua participação no ser e, por essa participação, comunica-se com o ser inteiro em sua indivisível plenitude.
- Essa comunicação tem infinitamente mais valor do que a posse de todos os objetos particulares — e é ela que dá à posse seu ponto de perfeição inimitável.
Embora a experiência de presença seja universal, constante e implicada na apreensão de todo objeto, não é inútil insistir sobre ela — pois, apesar de sempre atual, ela se dá na maioria das vezes de modo confuso e implícito, tendendo continuamente a escapar, cabendo ao sujeito torná-la distinta e retê-la.
- A experiência de presença é inséparável da operação de todo sujeito.
- As diferenças entre os homens no plano do conhecimento, da ação e da felicidade não dependem da identidade da forma dessa experiência, mas do uso que cada um faz de sua atenção naturalmente móvel e dispersa.
Os homens em geral fazem o contrário do que deveriam — preocupam-se em preencher a presença como se ela fosse um quadro sem conteúdo, apegando-se ao objeto presente em vez de apegar-se à presença desse objeto — o que os condena a oscilar sem repouso da impaciência do desejo à amargura do arrependimento.
- Se o objeto presente é apenas o meio de gozar a presença do ser, ele oferece, seja qual for, a realidade do todo — pois só se destaca do todo por ser um aspecto dele.
- Se, ao contrário, a presença é apenas um meio de obter a posse de tal objeto, nada poderá satisfazer — pois o objeto particular e fugitivo, tornado fim em si, não pode deixar de decepcionar.
- O objeto particular desvia imediatamente para outros objetos igualmente particulares e fugitivos.
Nenhuma situação, por mais humilde que seja, impede o homem de alcançar o mais alto destino espiritual — e, inversamente, por maior que seja a extensão de sua ação ou a duração de sua vida, ele pode permanecer interiormente desamparado e impotente.
- Nem a grandeza nem a pequenez dos eventos visíveis em que o homem está envolvido contribuem para aumentar ou diminuir seu verdadeiro bem — que reside na intimidade de seu contato com o ser.
- Os eventos só têm grandeza ou pequenez segundo a escala da ambição humana — e tornam igualmente insatisfeitos aqueles que se apegam apenas ao que os distingue, ou seja, à sua realidade aparente.
- Para que os eventos deixem de ser coisas e se tornem instrumentos de uma operação espiritual, é preciso que sirvam para aguçar e aprofundar indefinidamente o sentimento de comunhão com o ser.
- Por um paradoxo aparente, é a indiferença a todo objeto que dá a cada objeto seu valor absoluto.
