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A DESCOBERTA DO EU JÁ CONTÉM A DESCOBERTA DO SER (1934)
IV A descoberta do eu já contém a descoberta do ser.
O eu nunca é encontrado em uma experiência separada.
- O que é dado primitivamente não é um eu puro anterior ao ser e independente dele, mas a própria existência do eu, ou ainda o eu existente, o que significa que a experiência do eu envolve a do ser e constitui uma espécie de determinação desta.
O eu só pode ter intuição do seu próprio pensamento aplicando esse pensamento a um objeto.
- Esse objeto, embora esteja em relação com o pensamento, não se confunde com sua operação: ele torna o pensamento possível, mas distingue-se dele e mesmo em certo sentido opõe-se a ele.
- O objeto do pensamento e seu ato são ambos compreendidos no interior do mesmo ser; eles o limitam, mas de uma maneira própria a cada um deles.
- É uma condição de toda participação que esses dois termos contrastem primeiro a fim de poderem depois se harmonizar.
A noção de ser é muito mais clara e mais fácil de apreender do que a noção de eu.
- O eu escapa assim que se tenta fixá-lo: ele é móvel e evanescente, pois está em progresso incessante e constitui-se apenas pouco a pouco.
- Sempre se teme dar uma definição do eu muito estreita (confundindo-o com um de seus elementos) ou muito larga (confundindo-o com um dos objetos aos quais se aplica, mas dos quais se distingue).
- Inconvenientes desse gênero não ocorrem quando se trata do ser: o ser está sempre presente por inteiro, e não há um só caráter nem um só elemento do real que possa escapar-lhe, que não constitua um aspecto dele e que não caia sob sua jurisdição.
Supondo que a experiência do eu seja primitiva e independente.
- É naturalmente convidado a considerar o eu como a própria origem das coisas, exigindo-se dele que faça esforço para engendrar esse ser total ao qual, ao pensar-se, ele já emprestava seu ser limitado.
- Isso é pedir ao eu que refaça ao contrário o caminho que acabou de percorrer, empreendimento tornado impossível: o eu está condenado a permanecer encerrado em seus próprios limites.
- Se o eu tem a ilusão de engendrar o ser, é somente porque ele se estabeleceu primeiramente no ser.
Não é por uma dilatação do eu que se o fará reencontrar o ser, se dele foi primeiramente separado.
- Mas se o eu é desde a origem interior ao ser, tornando-se cada vez mais interior a si mesmo, ele poderá esperar descobrir o mistério de seu próprio advento, a lei segundo a qual deve colaborar com a ordem universal e tornar-se o obreiro de seu destino individual.
Isso não impede os espíritos que têm mais profundidade metafísica do que ternura psicológica por si mesmos de atingir o cume dessa emoção que todos sentem em nosso encontro com o ser pela simples descoberta de sua presença mais ainda do que pela consciência de participar dele.
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