ONTOLOGIA REFLEXIVA E FILOSOFIA DA ESPERANÇA
Resumo de excertos de “Pela Filosofia”. Homenagem a Tarcísio Meirelles Padilha“. Pallas, 1984.
Newton Sucupira, Universidade Federal do Rio de Janeiro e Fundação Getúlio Vargas
A escolha de Padilha pela filosofia de Lavelle como tema de sua tese de cátedra em 1955 não se deveu a motivação acadêmica, mas a uma íntima afinidade com a ontologia reflexiva e a atitude espiritual do pensador francês.
- Lavelle, autor da Dialectique du monde sensible, foi para Padilha o maître à penser que o inspirou em suas caminhadas nos domínios do filosofar.
- Embora não se possa dizer que Padilha tenha sido discípulo de Lavelle em sentido estrito, o encontro com sua obra marcou decisivamente o início de sua aventura filosófica.
Formado numa universidade católica em ambiente de orientação tomista, Padilha não se acomodava ao abstracionismo escolástico e voltou-se para o pensamento moderno em busca de uma filosofia que afinasse com sua vocação metafísica.
- Padilha nutria admiração reverencial pelo Doutor Angélico, mas seu temperamento intelectual exigia algo além do clima rarefeito do escolasticismo.
- A ontologia axiológica de Lavelle correspondeu à inquietação metafísica do jovem filósofo católico e marcou fundamente a evolução de seu pensamento.
- Padilha afirmou, no último capítulo de sua tese, que a filosofia de Lavelle, centrada no consentimento em participar do Absoluto, impunha-se por sua mensagem de otimismo consciente, capaz de devolver ao atormentado homem do século XX a harmonia interior, sem a qual ele se amesquinha e rompe o elo com a Transcendência.
Desde os anos 1930, Lavelle liderava com René Le Senne o movimento da Filosofia do Espírito, que reagia contra o positivismo e o kantismo dominantes no ensino universitário oficial francês, esforçando-se para restaurar a preeminência da metafísica.
- O movimento tinha como denominador comum o primado da vida do espírito e a impossibilidade de deixar à ciência e às técnicas a direção da conduta humana.
- Era uma metafísica profundamente humanista, que afirmava o valor da existência humana capaz de se autoconstituir por uma liberdade criadora ordenada segundo valores que atraem sem coagir.
Lavelle, em quem Gabriel Marcel reconheceu em 1938 a força e a originalidade de um dos pensamentos mais coerentes e profundos do tempo, está hoje um tanto esquecido, e suas ideias não encontram ressonância nas gerações mais novas de filósofos.
- Padilha deplora o silêncio que envolve o nome do pensador francês, atribuindo-o ao fato de que a brutalidade e a fratura moral e espiritual das duas guerras mundiais fizeram com que mensagens de cunho teístico-espiritualista passassem a ser encaradas como exercícios de otimismo ingênuo.
- Já em 1934, na introdução a La Présence Totale, Lavelle antecipava essa rejeição, observando que nas épocas conturbadas os homens se deixam sensibilizar apenas por uma filosofia que justifique seu gemido diante do presente, sua ansiedade diante do futuro e sua revolta contra o destino.
- A filosofia lavelleana afirma-se como metafísica do ser que visa transcender o momento fugidio de uma situação histórica para instalar-se no eterno presente — e esse aspecto explica em parte a falta de apelo de sua metafísica à consciência filosófica contemporânea.
A crise do pensamento filosófico contemporâneo caracteriza-se pelo sentido exacerbado da historicidade e pela perda do sentido do ser, o que torna a metafísica de Lavelle estranha ao espírito da época.
- A preocupação pelos fins últimos parece negligenciável diante da urgência do agir hic et nunc — e o que resta são apenas interpretações conflitivas ou convenções ligadas às diversas linguagens.
- A filosofia atual se consome na crítica dos fundamentos da ciência, reduz-se à análise linguística ou converte-se em instrumento teórico de uma prática política e social, renunciando à sua exigência incondicional de radicalidade crítica para transmudar-se em ideologia.
- Merleau-Ponty chegou a afirmar que a consciência metafísica e moral morre em contato com o absoluto — clima no qual a metafísica de Lavelle aparece aos contemporâneos como forma de pensamento idealista e ingênuo.
A filosofia autêntica tem a vocação de interrogar sobre a significação última do homem e de seu mundo, e questões metafísicas fundamentais não podem ser descartadas como pseudo-problemas, como pretendem os positivistas lógicos.
- A questão central é saber se a origem empírica do conhecimento é conciliável com a possibilidade de transcender a experiência e atingir uma verdade meta-empírica, trans-histórica e universal.
- Lavelle está convencido de que a metafísica permite alcançar o Ser além do fenômeno e o Absoluto além do relativo, e que no homem é possível o encontro do eterno e do temporal, do Infinito e do finito.
A originalidade de Lavelle está em buscar o ser não como objeto conceitualmente apreendido, mas a partir de uma experiência da intimidade espiritual — método que ele chamou de metafísica ou ciência da intimidade espiritual.
- A Revue Philosophique ressaltou que um dos traços característicos do pensamento de Lavelle é a maneira pela qual o autor de De l'Être renovou a metafísica na França, recuperando uma tradição que parecia quase perdida.
- A filosofia de Lavelle articula-se em torno de quatro categorias basilares — ser, ato, participação e valor — havendo entre elas uma íntima e indissociável unidade que justifica a denominação de ontologia axiológica, utilizada por Padilha em sua tese.
- A experiência originária fundante é a experiência da presença do Ser, definida por Lavelle como ligação imediata do ser e do eu que funda cada um de nossos atos e lhes dá valor.
O ser, para Lavelle, não se obtém por dedução — ao contrário da ideia hegeliana do ser, que Lavelle julgava severamente como a mais abstrata de todas e verdadeiramente uma ideia sem conteúdo que não difere da ideia do nada.
- O ser é plenitude do todo que ultrapassa toda ideia e não pode ser esgotado por nenhuma representação — é totalidade que engloba todas as outras propriedades e não pode derivar dos indivíduos.
- O ser é essencialmente concreto e só pode ser apreendido numa experiência da interioridade na qual a consciência que temos de nosso ser se confunde com o próprio ser.
- O tema é agostiniano — Deus mais íntimo a mim do que eu mesmo — e a consciência não pode bastar-se a si mesma, sendo essencialmente diálogo com o ser.
O ser é unívoco para Lavelle — universal e presente em sua integridade em toda parte — o que suscitou a suspeita de panteísmo por parte de filósofos tomistas apoiados na tese da analogia do ser.
- O próprio Sciacca, simpático à filosofia de Lavelle, expressou em correspondência com o pensador francês reservas sobre o conceito do ser unívoco, que tenderia a comprometer a transcendência de Deus em relação à criatura.
- O professor N.J.J. Balthasar, de Louvain, de orientação tomista, admitiu a compatibilidade da univocidade lavelleana com a distinção real de seres múltiplos como verdadeiros existir no ser total.
- Lavelle negou terminantemente, inclusive em correspondência com Sciacca, que seu conceito de univocidade conduza ao panteísmo.
- Padilha, em sua tese, observou que não se deve analisar a ontologia de Lavelle à luz de categorias aristotélicas, citando a advertência do dominicano L.B. Geiger: o ser que Lavelle faz centro de sua filosofia não tem de comum senão o nome com o ser tal como o entende a filosofia de Aristóteles e de Santo Tomás.
Nessa ontologia, o ser é essencialmente ato — e a identidade entre ser e ato é, segundo Lavelle, a chave da metafísica.
- Lavelle distingue três sentidos da palavra ser — a noção de ser, o fato de ser e o ato de ser — sendo apenas este último capaz de nos permitir apreender o ser em sua essência e em sua raiz.
- O ato é o fundo último do real, jamais dado, sendo sempre origem e gênese das coisas — sua essência é a de eficácia pura, fonte suprema de toda determinação e de todo valor.
- Jean École ressaltou que a ontologia reflexiva deixa lugar ao dado e ao possível no ser — e que os atos mesclados de passividade são em definitiva atos mesclados de potência, em consonância com o que ensinam Aristóteles e Santo Tomás numa outra perspectiva.
A participação é uma das categorias centrais da metafísica de Lavelle, de inspiração nitidamente platônica, preferida por ele à teoria da causalidade para explicar a relação dos seres particulares ao Ser total.
- Para Lavelle, a participação designa um ato pelo qual se realiza o que se é — é a passagem incessante da potência ao ato, pela qual o homem atualiza seus possíveis.
- A doutrina da participação resolve o problema da inserção do ser finito num universo que não é espetáculo a contemplar, mas obra na qual deve cooperar — somente se participa de um Ato que está em via de realizar-se e que se realiza também em nós e por nós.
- A relação do um e do múltiplo pode ser reduzida à relação da liberdade absoluta e das liberdades particulares — e o ato de participação, em sua raiz, é sempre um ato de amor.
- A essência do homem não é previamente dada, mas cabe ao homem realizá-la — quando se trata de um ser livre, o que chamamos sua existência não é sua fenomenalidade, é sua liberdade.
A liberdade em Lavelle não é o poder sem limite, sem norma e sem razão do existencialismo de Sartre, mas uma liberdade que se exerce no processo de participação ao Ser total.
- A liberdade pela qual o eu coopera na criação de si mesmo e do mundo é uma liberdade participada — o ser é valor e a existência é um valor na medida em que a essência se realiza no ser mediante essa liberdade.
- A metafísica da participação não se reduz a uma contemplação abstrata de essências — ela permite ao homem criar-se a si mesmo, inscrever sua própria realidade no universo, implicando uma atitude positiva diante da existência.
- Essa metafísica da participação e do consentimento ao ser funda uma ética do consentimento — o homem tem um destino a realizar, elevando-se acima da natureza até a existência espiritual e associando-se ao ato mesmo da criação.
O tempo, sendo o lugar da realização do homem mediante sua livre participação ao ser, justifica em Lavelle uma filosofia da esperança — e é precisamente essa ligação que Padilha vislumbrou e aprofundou.
- O tempo é simultaneamente a pior e a melhor das coisas — a pior porque é causa de todas as misérias e da tentação de ceder à atração dos fins particulares; a melhor porque permite à individualidade constituir-se e torna possível o exercício da liberdade.
- Na medida em que a temporalidade é dimensão constitutiva do homem, ele é o ser que vive no modo da espera — mas se consente ao Ser no ato de livre participação, a espera se converte em esperança.
- Padilha desenvolveu essa ligação em seus dois ensaios Participação e Esperança e Uma Ética da Esperança, tirando da ontologia axiológica de Lavelle uma filosofia da esperança que estava implícita, mas não foi desenvolvida pelo pensador francês.
- Para Padilha, toda participação na vida concreta — religiosa, moral, social, econômica — pressupõe a participação metafísica como base sobre a qual repousa o existir em sua totalidade, e a esperança tem bases onto-éticas.
- Santo Tomás de Aquino destacava na esperança o bonum arduum — o bem difícil de ser atingido, que exige do homem uma atitude ativa — e é por isso que toda esperança conscientemente assumida implica a passagem da teoria à prática, o que explica que Padilha não se tenha limitado à pura reflexão teórica, desenvolvendo programas em diferentes setores da vida social.
