10 Imortalidade da alma
KRISTELLER, Paul Oskar; MOONEY, Michael. Renaissance thought and its sources. New York: Columbia University Press, 1979.
1. A doutrina da imortalidade tornou-se estranha aos interesses contemporâneos porque a concentração nas necessidades presentes enfraqueceu a preocupação com o destino posterior à morte e com a fama duradoura, substituindo em grande medida a busca de permanência histórica pela conquista de uma notoriedade rapidamente esquecida.
2. O declínio da busca de fama pode relacionar-se ao enfraquecimento da confiança na continuidade das tradições, mas o desejo de ultrapassar os limites da existência individual persiste em formas menos definidas, como a curiosidade por épocas, lugares e civilizações distantes, que permite ampliar indiretamente a experiência pessoal e compreender as antigas aspirações à permanência.
3. A reflexão renascentista sobre a imortalidade deve ser compreendida no horizonte histórico das crenças na sobrevivência dos mortos, nas recompensas e punições após a morte e na fama eterna, pois essas expectativas estruturaram numerosas religiões e civilizações e não podem ser adequadamente avaliadas apenas a partir da indiferença contemporânea pela eternidade.
4. A atenção renascentista à vida terrena coexistiu com um intenso culto da fama imperecível, porque os humanistas, ao preservar a memória dos antigos, esperavam assegurar também a continuidade de suas próprias realizações, enquanto escritores, artistas e mecenas concebiam a produção cultural como instrumento de perpetuação de obras, reputações e nomes.
5. O individualismo renascentista consiste na valorização e na expressão da experiência pessoal como algo digno de preservação, de modo que a busca da fama prolonga simbolicamente a vida do indivíduo e a doutrina da imortalidade projeta essa mesma aspiração em um plano metafísico, no qual a experiência individual alcançaria uma continuidade mais efetiva.
6. A combinação entre fama e imortalidade presente em Dante manifesta a transição entre a Idade Média e o Renascimento, enquanto a centralidade renascentista da alma imortal se esclarece como projeção metafísica da vida individual que então recebia especial atenção, tornando o problema um dos temas mais característicos da filosofia do período.
7. A imortalidade da alma foi conscientemente vinculada à dignidade humana por pensadores como Ficino e Facio, pois a sobrevivência individual aparecia como fundamento da excelência e da afinidade divina do homem, adquirindo nos séculos XV e XVI uma importância filosófica superior à de muitas outras concepções antropológicas renascentistas.
8. A originalidade renascentista na discussão da imortalidade depende de diferenças de enfoque e de elaboração no interior de uma herança antiga e medieval, exigindo a identificação de distinções conceituais precisas em vez da simples enumeração de doutrinas anteriores relacionadas ao assunto.
9. A religião grega passou da representação homérica de uma alma sobrevivente como sombra, desprovida da plenitude imortal dos deuses, a concepções associadas ao orfismo nas quais a alma podia purificar-se moral e religiosamente e receber recompensas ou castigos depois da morte.
10. Platão articulou a concepção filosófica da alma como princípio de vida às concepções religiosas de responsabilidade moral, transmigração e retribuição, sustentando sua imortalidade natural mediante argumentos como o da afinidade, segundo o qual a capacidade de conhecer ideias incorpóreas e eternas revela uma natureza igualmente incorpórea e eterna.
11. A imortalidade natural da alma e sua integração a um sistema de retribuições e transmigrações foram desenvolvidas pelo neoplatonismo, enquanto outras escolas antigas sustentaram posições divergentes, desde a ambiguidade aristotélica sobre a relação entre intelecto incorruptível e indivíduo até as limitações estoicas à sobrevivência e a negação epicurista de qualquer persistência da alma após a morte corporal.
12. A presença bíblica de expectativas de vida futura, ressurreição e vida eterna não equivale à formulação filosófica de uma alma naturalmente incorpórea e imortal, pois as distinções entre corpo e alma não apresentam nas Escrituras a consistência conceitual necessária para fundamentar diretamente essa doutrina sem inferências ou interpretações posteriores.
13. A doutrina cristã da imortalidade formou-se principalmente pela assimilação da filosofia grega realizada pelos apologistas e Padres da Igreja, culminando em Agostinho na defesa de uma alma incorpórea e naturalmente imortal cuja afinidade com Deus e com as ideias eternas fundamentaria sua permanência, embora a rejeição cristã da preexistência e da transmigração enfraquecesse parte da coerência do argumento platônico original.
14. A predominância de Aristóteles no século XIII não conferiu centralidade à imortalidade, pois Tomás de Aquino defendeu a incorruptibilidade da alma sem destacá-la especialmente e Duns Escoto questionou a força das provas tradicionais, enquanto a definição conciliar da alma como forma do corpo evidenciou a incorporação de categorias aristotélicas à doutrina eclesiástica.
15. A doutrina averroísta de um intelecto ativo e passivo único e separado dos indivíduos ameaçou diretamente a imortalidade pessoal, porque a participação temporária dos homens nesse intelecto universal não assegurava a sobrevivência de suas almas particulares, provocando amplo debate entre aristotélicos e uma refutação específica de Tomás de Aquino.
16. A importância relativamente secundária da imortalidade no pensamento medieval tardio permite compreender sua centralidade renascentista como reação à predominância aristotélica, na qual a recuperação de Platão e Agostinho ofereceu recursos para defender uma concepção da alma ajustada às novas preocupações antropológicas.
17. O interesse renascentista pela imortalidade antecedeu a Academia florentina e a atuação de Ficino, como demonstra a existência de numerosos tratados do século XV escritos por humanistas e religiosos de diferentes orientações, cuja diversidade impede classificá-los como escola, mas comprova a difusão de uma preocupação anteriormente menos acentuada.
18. A Teologia platônica de Ficino sistematizou em dezoito livros um amplo conjunto de argumentos sobre a imortalidade, articulando um fundamento metafísico geral a provas tradicionais reformuladas e a contribuições próprias, de modo que a extensão e a centralidade da investigação superaram as dos tratados anteriores dedicados ao tema.
19. A concentração de Ficino na imortalidade, especialmente a partir da Teologia platônica, relaciona-se ao propósito de harmonizar platonismo e cristianismo contra a separação aristotélica entre filosofia e teologia, encontrando na refutação da unidade averroísta do intelecto um instrumento decisivo para preservar aquilo que considerava fundamento da doutrina cristã.
20. A defesa ficiniana da imortalidade apoia-se positivamente na finalidade contemplativa da alma e em seu desejo natural de conhecer Deus, pois a brevidade e a raridade da visão divina nesta vida exigiriam uma existência futura na qual essa orientação pudesse realizar-se permanentemente, evitando que a finalidade constitutiva da natureza humana permanecesse frustrada.
21. O argumento do desejo natural da alma ocupa posição central na filosofia de Ficino porque articula a prova da imortalidade à finalidade contemplativa da existência, distinguindo-se menos pela novidade de seus componentes, já presentes em fontes anteriores, que pela forma específica de sua apresentação e por sua função organizadora no conjunto do pensamento.
22. O argumento da afinidade deduz a incorporeidade e a imortalidade da alma de sua capacidade de conhecer diretamente Deus e as ideias, mas enfrenta tanto a objeção aristotélica de que o conhecimento depende dos sentidos quanto a dificuldade de também sustentar a preexistência, recusada por Ficino em favor da criação da alma aceita como artigo de fé.
23. A obra de Ficino consolidou a associação entre platonismo renascentista e imortalidade, fornecendo argumentos utilizados pelos adversários de Pomponazzi e demonstrando que a oposição ao averroísmo não se reduzia ao tomismo, mas também recebia força da crítica humanista a Aristóteles e da recuperação platônica, embora Pico procurasse conciliar a unidade do intelecto com a sobrevivência individual.
24. O decreto do Concílio de Latrão de 1513, ao condenar a unidade do intelecto e estabelecer a imortalidade da alma como dogma, pode ser compreendido como expressão da influência do platonismo renascentista sobre a teologia, assim como a definição anterior da alma como forma do corpo refletira a presença aristotélica, sugerindo ainda a necessidade de conferir autoridade explícita a uma doutrina considerada indispensável, mas insuficientemente fundamentada nas Escrituras.
25. A autoridade dogmática da imortalidade no catolicismo depende propriamente do decreto de Latrão, exemplificando como concepções oriundas da filosofia grega foram incorporadas ao núcleo da doutrina cristã e impedindo que toda a herança ética e metafísica alheia à ciência moderna seja atribuída exclusivamente às origens religiosas judaicas e cristãs.
26. O tratado publicado por Pomponazzi em 1516 recolocou a imortalidade no centro das controvérsias filosóficas e teológicas ao negar sua demonstrabilidade natural ou aristotélica e afirmá-la como artigo de fé, suscitando numerosas refutações e extensas respostas que prolongaram o debate muito além da vida de seu responsável.
27. A posição de Pomponazzi distingue a impossibilidade de demonstrar racionalmente a imortalidade de sua aceitação pela fé, não autorizando a atribuição de uma negação dissimulada sem provas textuais, e sua importância histórica permanece mesmo diante de precedentes medievais porque a formulação mais explícita, o novo contexto dogmático e a amplitude da controvérsia lhe conferiram alcance próprio.
28. A intervenção de Pomponazzi deve ser compreendida em confronto com as posições de Averróis, Tomás de Aquino e Platão, sobretudo com a renovação platônica de Ficino, pois a exclusão desse terceiro interlocutor empobrece a interpretação de uma controvérsia na qual tanto a crítica da imortalidade quanto sua defesa mobilizaram expressamente o platonismo renascentista.
29. O núcleo da crítica de Pomponazzi às provas da imortalidade reside na dependência cognitiva da alma em relação ao corpo como fonte de seus objetos, e não como substrato material do intelecto, pois a necessidade dos dados sensoriais e imaginativos impede reconhecer um conhecimento puramente inteligível nesta vida e compromete os fundamentos das demonstrações platônicas.
30. A afirmação de que todo conhecimento humano se apoia em objetos sensíveis radicaliza uma interpretação empírica ou naturalista do aristotelismo e fundamenta a oposição de Pomponazzi à imortalidade filosoficamente demonstrável, tornando seu confronto com Ficino indispensável à compreensão da controvérsia, sem eliminar suas divergências internas em relação a Averróis e Tomás de Aquino.
31. A impossibilidade de demonstrar a imortalidade não significa indiferença de Pomponazzi ao problema, pois a extensão de suas investigações e a admissão de uma participação relativa do intelecto na imortalidade revelam uma preocupação persistente com a eternidade, concebida filosoficamente como qualidade realizável na experiência presente, mesmo quando a existência humana permanece absolutamente mortal.
32. O Renascimento transmitiu concepções distintas de imortalidade ao pensamento posterior, pois a formulação de Ficino como exigência vinculada à finalidade humana prefigura o tratamento moral de Kant, cuja crítica das provas teóricas se aproxima de Pomponazzi, enquanto a participação presente no eterno admitida por este último antecipa perspectivas de Spinoza e, possivelmente, de Hegel.
33. A influência do positivismo contribuiu para afastar a filosofia recente do problema da imortalidade e obscurecer sua origem filosófica, enquanto a disposição de certos teólogos para conciliá-la com a ciência moderna levou ao abandono de componentes gregos da tradição cristã, desfazendo em profundidade a síntese construída pelos apologistas e Padres da Igreja.
34. Mesmo sem restabelecer a doutrina metafísica da sobrevivência individual, a inserção de cada existência e de cada momento na totalidade da natureza e da história permite conceber uma imortalidade residual como presença eterna de tudo o que foi ou será, respondendo à necessidade humana de enfrentar a morte e mantendo aberta a busca de formulações mais adequadas para um problema permanente da vida e do pensamento.
