User Tools

Site Tools


kolakowski:1999:tedio

Tédio

KOLAKOWSKI, Leszek. Freedom, fame, lying and betrayal essays on everyday life. London: Routledge, Taylor & Francis Group, 2018.

  • O problema do tédio, embora concerna a sensação universalmente experimentada, não se confunde com sofrimento, salvo em casos extremos, constituindo tema apropriado de estudo fenomenológico por poder ser tanto experimentado quanto atribuído à própria coisa vivida.
  • No uso cotidiano, atribui-se tédio apenas às coisas experimentadas no tempo, como peças, concertos ou tratados, e não a algo apreendido de relance, como um quadro, embora até uma paisagem possa entediar quando contemplada por muito tempo devido à sua monotonia; entediam-nos as coisas repetitivas ou as caóticas e desconexas, quando a experiência se torna tão invariável que nada de novo parece poder acontecer, ou quando, se acontece, já não nos importa.
  • Pode-se argumentar que nada é tedioso em si mesmo, pois as pessoas variam amplamente em suas reações conforme experiências passadas e circunstâncias presentes, como mostram o filme que deixa de interessar ao ser revisto, as sinfonias que entediam o ouvinte inexperiente mas não o conhecedor, o tratado histórico que entedia por falta de familiaridade com o assunto, o trabalho que entedia o veterano mas não o iniciante, ou o romance policial ilegível numa língua desconhecida.
  • O tédio depende, portanto, em grande medida das experiências e respostas individuais, sem que possa haver unanimidade a seu respeito, de modo semelhante à pergunta sobre se as qualidades estéticas são meras projeções subjetivas ou inerentes ao próprio objeto, questão talvez irrespondível, pois mente e objeto se influenciam mutuamente numa relação recíproca que impede determinar o que veio primeiro.
  • O tédio é considerado tanto fenômeno humano universal quanto exclusivamente humano, não se atribuindo aos animais, que apenas repousam quando satisfeitas suas necessidades sem sinal de tédio, e não sendo claro quando os humanos começaram a articular essa experiência, já que o tema não aparece em textos literários ou filosóficos antes do século dezenove, restando incerto se os camponeses das aldeias tradicionais se entediavam com a monotonia de sua rotina diária, ainda que se possa supor que acontecimentos extraordinários como nascimentos, mortes, adultérios, secas e incêndios aliviassem essa monotonia e lhes desse a sensação de estarem sob os caprichos imprevisíveis do destino.
  • A normalidade e a monotonia do cotidiano podem realmente parecer tediosas, como evidencia a queixa de que as notícias veiculadas pela mídia são sempre más, já que apenas o improvável e o imprevisível constituem notícia, e o imprevisível tende a ser desfavorável, de modo que mesmo uma boa notícia, como ganhar na loteria, acaba sendo má notícia para a maioria que perdeu, revelando que a história humana é uma longa luta contra a imprevisibilidade e o acaso.
  • Aqueles que passam grande parte da vida lendo livros dificilmente se entediam, por terem sempre ao alcance algo capaz de estimular seu interesse, o que torna intrigante que, mesmo num mundo de acesso constante a entretenimento, jovens violentos ainda expliquem sua destruição gratuita pelo tédio, talvez porque assistir a filmes seja ocupação passiva, incapaz de gerar verdadeira sensação de participação, podendo até aumentar o tédio e o sentimento de injustiça diante da comparação com vidas fictícias mais interessantes, sem que se saiba exatamente como canalizar construtivamente essa curiosidade insatisfeita.
  • A curiosidade, como o tédio, é qualidade exclusivamente humana, aquela que nos impele a explorar o mundo além da satisfação das necessidades físicas e nos eleva acima do estado animal; sendo “curioso” e “interessante” opostos e complementos de “entediado” e “tedioso”, pode-se dizer que o tédio é o preço pago pela curiosidade, de modo que nossa capacidade de nos entediarmos constitui parte essencial de nossa humanidade.
  • O sentimento de tédio é naturalmente algo que buscamos escapar, seja de forma destrutiva, mais fácil, como a guerra, terrível mas nunca tediosa, capaz de despertar instintos combativos que funcionam como antídoto ao tédio e provavelmente causaram muitas guerras, seja de forma construtiva; e como o tédio frequentemente decorre da repetição, é provável que as fontes de interesse se esgotem uma a uma, exigindo estímulos cada vez mais fortes, como no vício em drogas, sem que se saiba aonde tal situação pode conduzir.
  • Um caso particular desse fenômeno é a “pessoa tediosa”, figura difícil de descrever, cujo tédio nada tem a ver com educação ou caráter, mas antes com a incapacidade de distinguir o importante do irrelevante, encher suas histórias de detalhes desnecessários, ignorar o humor e a ironia, e insistir em assuntos muito depois de esgotado o interesse alheio, revelando ausência dos mecanismos normais de interação humana e confirmando a incapacidade de criar os contrastes necessários à comunicação.
  • O estado de satisfação perfeita, sem conflitos nem tensões, que chamamos utopia, significaria, se algum dia se realizasse, o fim da humanidade, pois nele o instinto de curiosidade se atrofiaria, razão pela qual a utopia jamais poderá ser construída enquanto a espécie permanecer o que é; mesmo um hipotético “fim da história”, como profetizado por Francis Fukuyama, um mundo sem alternativas políticas concebíveis, sem guerras, pobreza, arte ou literatura, equivaleria a um mundo de tédio geral e ininterrupto, do qual as pessoas provavelmente buscariam escapar pelo mesmo impulso destrutivo das gangues urbanas, o que mostra que o tédio, como todo fenômeno humano universal, pode ser tanto benéfico quanto perigoso.
kolakowski/1999/tedio.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki