kolakowski:1999:fortuna
Fortuna
KOLAKOWSKI, Leszek. Freedom, fame, lying and betrayal essays on everyday life. London: Routledge, Taylor & Francis Group, 2018.
- Há quem considere jogar na loteria ou na roleta uma tolice, dado que as probabilidades sempre desfavorecem o jogador, e há quem o considere imoral, críticas que merecem reflexão por tocarem em questão relevante da vida.
- Sabe-se que em qualquer loteria ou jogo de azar as probabilidades são desfavoráveis, tornadas públicas pelos próprios organizadores, sem que isso torne irracional decidir jogar, pois a proporção do ganho possível compensa a magnitude do risco, tornando-se irracional apenas quando o jogo vira vício capaz de arruinar quem o pratica, o que a maioria evita ao gastar apenas pequena parte da renda nesse prazer; a única diferença entre os jogos de azar e as adversidades da vida cotidiana, também frequentemente enfrentadas sem desânimo, é que as probabilidades daqueles podem ser calculadas com precisão, sem que nada possa ser feito para inclinar a balança a nosso favor.
- Algumas pessoas acreditam poder influenciar a sorte por meio de afinidades misteriosas com certos números, tidos como amigáveis ou hostis, crença geralmente vista como superstição absurda mas praticamente impossível de erradicar, enquanto outras acreditam em pessoas capazes de psicocinese sobre a roleta ou o sorteio, talento que, se existisse, certamente permaneceria oculto.
- Existe algo em nossa constituição mental que se rebela contra a própria ideia de acaso, seja porque a física passou a afirmar que a probabilidade é característica intrínseca da realidade, e não mera medida de nossa ignorância, ideia difícil de aceitar, seja porque a hipótese de um mundo composto apenas de eventos aleatórios, sem sentido nem finalidade última, resulta deprimente; sabemos que todo progresso e toda conquista civilizatória se baseiam em reduzir ao máximo o elemento do acaso, obrigando a natureza, até certo ponto, a obedecer à nossa vontade, mas ao lado desse esforço persiste, desde tempos imemoriais, a crença de que os eventos casuais da vida cotidiana não seriam meros acasos, mas expressões de uma vontade ou desígnio divino, decifrável com algum esforço.
- Encontramos aqui uma dificuldade, pois se os seres humanos conseguem criar códigos indecifráveis por meios analíticos, sem a posse da chave que dá acesso à sequência aleatória compartilhada entre emissor e receptor, Deus certamente também poderia ocultar Seus desígnios de modo igualmente inviolável, tornando fúteis todos os esforços de decifrar Suas intenções a partir de eventos aleatórios; ainda assim, as pessoas continuam incansavelmente a buscar significados ocultos no acaso, como sempre fizeram e continuarão a fazer.
- Nessa matéria, como em tantas outras, o coração e a razão entram em conflito: como seres racionais, repelimos a aleatoriedade e buscamos o verdadeiro sentido dos eventos em vez de apenas impor-lhes nossa própria interpretação, mas em nosso íntimo sentimos o fascínio do desconhecido, da aposta, do risco, impulso sem o qual grandes realizações humanas provavelmente não teriam ocorrido, sentido tanto por grandes exploradores, iniciadores de guerras e reformadores sociais quanto por escritores, poetas e cientistas, e por cada um de nós ao decidir ter filhos, estudar medicina ou sentar-se pela primeira vez ao volante de um carro, decisões todas envolvendo risco, o que revela em nós duas almas: uma que busca apenas paz e segurança, outra que busca a emoção do perigoso e do desconhecido.
- Jogar na loteria não constitui, portanto, sinal de irracionalidade, mas resta saber se é imoral; os que assim pensam consideram errado obter riqueza imerecida sem trabalho ou esforço próprio, razão pela qual alguns clérigos condenam a indústria das loterias supondo que Deus deseja que conquistemos os bens da vida por mérito próprio, e os países comunistas também careceram de loterias enquanto o comunismo se mantinha vigoroso, sob justificativa ideológica semelhante embora a verdadeira razão fosse impedir que os indivíduos obtivessem renda independente do que o Estado provia, por princípio segundo o qual todos os bens deveriam depender exclusivamente de sua generosidade.
- Resta, porém, dúvida sobre se é de fato imoral desfrutar de bens não conquistados pelo próprio esforço, pois também não conquistamos os bens herdados dos antepassados, sem os quais o mundo sem herança sonhado por anarquistas seria inconcebível, nem os talentos inatos que a loteria genética nos concede, ainda que seu pleno aproveitamento exija esforço, como no caso do talento matemático, musical, da beleza física ou da habilidade no xadrez; o simples usufruto de bens não conquistados não pode, portanto, ser considerado imoral, já que nenhum princípio de justiça rege sua distribuição aleatória, a menos que se trate de um desígnio divino incognoscível, e ganhar na loteria, embora não exija esforço algum, não pode ser dito “mais injusto” que um talento herdado, pois a categoria de justiça simplesmente não se aplica ao acaso: eventos aleatórios podem ser favoráveis ou desfavoráveis, mas nunca justos ou injustos.
kolakowski/1999/fortuna.txt · Last modified: by 127.0.0.1
