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Presença do Mito
KOLAKOWSKI, Leszek. A Presença do mito. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1981. (original 1972)
- Este pequeno livro constitui resumo conciso de um tratado inexistente, que seus prováveis leitores serão em geral poupados de conhecer, tendo-se buscado a brevidade e, portanto, a ausência de exemplos, anedotas históricas, notas de rodapé, nomes, citações, classificações extensas, digressões, ressalvas e polêmicas, sendo o preço dessa virtude uma certa secura, monotonia e documentação insuficiente; tampouco se trata de tratado erudito, sobretudo nos campos dos estudos religiosos, da mitografia, da sociologia ou da psicologia do mito, mas de tentativa de apresentar certo ponto de vista sobre problema sensível constantemente presente na filosofia da cultura, referente à localização, na cultura, da produção mitopoética em relação às características estruturais da consciência humana.
- O termo “mito”, cuja definição precisa não se pretende oferecer aqui, supondo-se que seu sentido emerja do próprio discurso, exige estipulação inicial: seu alcance sobrepõe-se ao campo do estudo da religião, cobrindo tanto o grupo essencial, ainda que numericamente insignificante, dos mitos religiosos de origem, quanto certas construções presentes, ocultas ou explícitas, em nossa vida intelectual e afetiva, aquelas que nos permitem vincular teleologicamente os elementos condicionados e mutáveis da experiência a realidades incondicionadas como “ser”, “verdade” e “valor”, buscando-se justificar essa identificação por meio de uma identidade funcional básica compartilhada por esses diferentes produtos da vida espiritual humana, bem como explicar a inevitabilidade dessas funções na vida cultural e em que sentido são incapazes de coexistir com os esforços tecnológicos e científicos.
- O caráter mitológico dessas construções derivadas constitui a noção condutora deste discurso, resultando sua paridade com o mito em sentido primário de uma função particularmente significativa, não se levando em conta aqui as qualidades do mito, sobretudo suas qualidades narrativas, que justificariam buscar seus prolongamentos nas obras de imaginação artística.
- Esse emprego generalizado de uma palavra cujas regras de uso já se encontram mais ou menos fixadas pode ser objeto de crítica, mas não se encontrou outra que melhor designasse o campo aqui tratado, valendo lembrar, com a autoridade de Whitehead, que todo empreendimento filosófico depende de tentativas de construir conceitos cada vez mais gerais, para os quais o vocabulário existente nunca é suficientemente rico, sendo mais seguro, para evitar cunhagens arbitrárias, testar as possibilidades embutidas na terminologia já existente, ampliando o sentido de palavras próximas ao campo pretendido, cuidando para não se deixar levar sem resistência por sua inércia e mantendo-se alerta aos significados contrabandeados, mesmo inconscientemente, na classificação do mundo pela linguagem coloquial, podendo ser útil toda tentativa de expor as implicações ocultas da linguagem.
- Busca-se empregar o conceito generalizado de mito como rede para capturar um elemento permanentemente constitutivo da cultura, criando assim princípio de classificação dos fenômenos algo distinto do mais comumente aceito na filosofia da cultura, na convicção de que a fronteira crucial entre a camada mitológica da cultura e sua camada tecnológica e científica corre de modo diferente do que se poderia julgar a partir das interpretações funcionais mais conhecidas da criatividade mitológica humana, não decorrendo esse “diferente” de um sentido arbitrariamente atribuído ao termo “mito”, mas antes da convicção de que as mitologias religiosas constituem variante ou particularização histórica de fenômeno mais fundamental, ligando-se essencialmente essas mitologias a produtos presentes em todo intercâmbio humano, e também em nossa civilização: nas atividades intelectuais, na criação artística, na linguagem, na convivência regida por valores morais, nos empreendimentos tecnológicos e na vida sexual, buscando-se, portanto, rastrear a presença do mito em áreas não míticas da experiência e do pensamento.
- Por isso, não se acredita dever recorrer à oposição entre os dois blocos heterogêneos ciência e religião, não apenas porque os fenômenos religiosos funcionam como instrumentos em diversas esferas da vida coletiva, mas também porque as próprias validações básicas do empreendimento científico se valem do trabalho da consciência mítica, buscando-se, por razões semelhantes, libertar-se, na medida do possível, de oposições como intelecto/intuição, pensamento/emoção, entre outras.
- Busca-se ainda abarcar essa categoria assim construída também em sua identidade funcional e genética, remetendo suas variantes a fonte comum, certos atributos irremovíveis da constituição existencial da consciência e de suas referências ao mundo natural, tentando-se descrever o caráter de uma necessidade que gera as interpretações constantemente renovadas do mundo empírico como lugar de exílio ou etapa do caminho de volta ao Ser incondicionado; nesse sentido, se tais observações puderem evitar a pretensão, tratam-se aqui de notas de rodapé aos textos mais clássicos de nossa cultura: o livro sétimo da República de Platão, o terceiro capítulo do Gênesis e o segundo diálogo do Bhagavad Gita.
- A medida em que este pensamento deve a outros filósofos, cuja obra é conhecida em graus variados, procura-se indicar ocasionalmente, ainda que provavelmente sem escrúpulo suficiente, mas convencido de que, em muitos casos, isso será evidente ao leitor com conhecimento profissional na área, e de todo modo pouco importante, ousando-se afirmar, seguindo aqui muitos corajosos mestres da arte filosófica, que se está simplesmente tornando disponível uma herança já existente, o que permite dispensar divisão precisa entre pensamentos próprios e alheios, tarefa aliás impossível, pois não se pode lembrar de todos a quem se deve algo, e, em última análise, tudo o que temos certamente devemos a outros.
- Embora todo este discurso consista em fragmentos de pensamento recolhidos ao longo de várias pesquisas históricas, carrega certa significação pessoal, compreendendo-se bem que disso não decorre que deva ter peso algum para os outros; parece, contudo, que tentativas de retornar a questões fundamentais, quando acompanhadas de esforço razoavelmente desprevenido da imaginação, não podem ser inteiramente vazias, ainda que jamais alcancem êxito completo, sendo a construção de novas ferramentas linguísticas para expressar sempre as mesmas questões o destino do empreendimento filosófico, destino que se pode ver tanto como prova da inutilidade desse esforço quanto como argumento a favor da vivacidade da postura investigativa; é fenômeno natural que, nos primeiros momentos do despertar da reflexão independente, coloquemos as perguntas que depois repetimos em nossos pensamentos finais, sendo intrigante não dispormos de energia espiritual capaz de satisfazer nossa curiosidade, mas ainda mais intrigante que, sabendo disso, ainda tenhamos energia suficiente para continuar perguntando: “Menos que Tudo não pode satisfazer o Homem” (Blake).
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