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kastrup:2020:11

11 Quadro conceitual

KASTRUP, Bernardo. Decoding Schopenhauer's Metaphysics: The Key to The World as Will and Representation. Winchester; Washington: Iff Books, 2020.

Um quadro conceitual abrangente

1. Em “Resposta a Jó” (1952), Carl Jung indaga o que o homem possui que Deus não tem, respondendo que, em razão de sua pequenez, fragilidade e desamparo diante do Todo-Poderoso, o homem possui uma consciência um tanto mais aguda, baseada na autorreflexão, pois precisa, para sobreviver, estar sempre atento à sua impotência; Deus não necessita dessa circunspecção, já que em parte alguma se depara com um obstáculo intransponível que o obrigue a hesitar e, portanto, a refletir sobre si mesmo.

2. A Figura 3 sintetiza as discussões anteriores: o único primitivo ontológico da metafísica de Schopenhauer é a vontade universal, representada por um círculo que tudo abrange, dentro do qual se formam os alters, círculos menores resultantes de processos dissociativos, cada um com seus estados experienciais internos delimitados por sua fronteira dissociativa, enquanto os estados experienciais da vontade não abrangidos por nenhum alter constituem a “vontade em sentido amplo” (will-at-large).

3. Todos os alters estão cercados pelos estados experienciais da vontade em sentido amplo, que existem numa superposição (quântica) fora do espaço-tempo e aos quais, como insiste Schopenhauer, não se aplicam as noções de individualidade e causalidade, constituindo antes um todo unitário e indivisível (quanticamente emaranhado).

4. A percepção resulta da interação entre os estados experienciais internos do alter e os estados experienciais externos e sobrepostos da vontade em sentido amplo, o que pode inclusive explicar a observação quântica e o chamado “colapso da função de onda” (Kastrup 2017a).

  • Um estado experiencial externo incide sobre um interno, de modo semelhante a como emoções reprimidas, efetivamente dissociadas, podem incidir sub-repticiamente sobre os pensamentos e produzir novas gestalts experienciais, criando assim um novo estado experiencial: o sentimento imediato da impressão sensorial.
  • Uma vez processada pelo intelecto, a impressão sensorial torna-se representação perceptiva.
  • As setas que apontam umas para as outras na fronteira dissociativa de cada alter, na Figura 3, representam essa interação, e o espaço cinza-escuro entre elas corresponde às representações perceptivas, cujos conteúdos são sempre relativos ao sujeito individual.

5. Interações equivalentes, porém mais simples, entre estados experienciais internos e externos dão origem, no caso das plantas, à apreensão de estímulos, equivalência entre a percepção animal e a apreensão de estímulos vegetal reconhecida pelo próprio Schopenhauer.

6. A suscetibilidade à luz, em virtude da qual a planta orienta seu crescimento na direção da luz, é da mesma natureza que o conhecimento, isto é, a representação perceptiva, no animal e até mesmo no homem.

7. Nos alters humanos, as representações perceptivas podem ser re-representadas sob a forma de representações abstratas, que por sua vez podem fundamentar novos níveis de representação abstrata, correspondendo aos níveis superiores da metaconsciência humana, representados na Figura 3 pelos círculos concêntricos cinza-claro nos alters humanos.

8. O núcleo interno branco dos alters, circunscrito pelas camadas de representações ou estímulos, representa os estados experienciais endógenos do próprio alter, isto é, os sentimentos endógenos indicados na Figura 1.

9. O mundo físico consiste, segundo Schopenhauer, em representações perceptivas no intelecto de um sujeito individual observador, de modo que, em conformidade com a Mecânica Quântica Relacional (Rovelli 1996), cada alter possui seu próprio mundo físico como parte de si; ainda assim, esses mundos podem ser semelhantes e consistentes entre si, como vários carros de mesma marca e modelo são praticamente indistinguíveis, porque todos os alters estão imersos na vontade em sentido amplo e habitam o mesmo ambiente experiencial, evitando-se assim o solipsismo.

10. O mundo físico de um alter é uma objetivação dos estados experienciais da vontade em sentido amplo que o “cercam”, em sentido cognitivo e não espacial, e como também se percebem outros organismos vivos, alguns desses estados circundantes devem corresponder indiretamente a outros alters.

  • Quando um alter A interage com a vontade em sentido amplo, por meio do impacto mútuo de estados experienciais através de sua fronteira dissociativa, alguns estados desta acumulam informação sobre A.
  • Quando outro alter B interage com a vontade em sentido amplo, parte dessa informação acumulada sobre A se reflete nos estados experienciais que constituem o mundo físico de B, e A passa a ser indiretamente representado no mundo percebido por B.
  • Na linguagem da representação, de objetos no espaço-tempo interagindo causalmente, o mesmo se expressa dizendo que um organismo B percebe outro organismo A porque A deixa uma marca no mundo que compartilha com B, na forma de fótons emitidos, vibrações do ar, moléculas de odor em deriva etc.

11. A forma da representação perceptiva de um alter é um corpo vivo, noção que pode ser reformulada de diversas maneiras diferentes, mas equivalentes.

12. Os estados experienciais internos de um alter apresentam-se na tela de percepção de outro alter, ou do mesmo, como um corpo vivo.

13. Os estados experienciais internos de um alter são objetivados no mundo físico de outro alter, ou do mesmo, como um organismo vivo.

14. Um corpo vivo é a aparência que os estados experienciais internos de um alter têm quando vistos do outro lado de sua fronteira dissociativa.

15. Schopenhauer vincula explicitamente cada alter a um corpo vivo.

16. O sujeito do conhecimento só aparece como indivíduo por meio de sua identidade com o corpo.

17. A vida é, portanto, a aparência física ou objetivação de processos dissociativos na vontade, e a morte, fim da vida, deve ser a aparência física do fim dessa dissociação, isto é, a reintegração do alter na vontade em sentido amplo, como o próprio Schopenhauer afirma.

18. A morte desfaz a ilusão que separa a consciência do sujeito individual da consciência de todo o restante.

19. Fica claro, assim, que para Schopenhauer a morte representa o fim da dissociação e que a vida, portanto, é uma forma de dissociação.

20. A insistência de Schopenhauer em que os sujeitos individuais correspondem a organismos “encerrados numa pele”, isto é, numa fronteira de algum tipo, também implica um processo dissociativo, pois os estados experienciais de um alter são recortados da vontade em sentido amplo e encerrados numa fronteira dissociativa.

  • Sendo o corpo físico a objetivação do alter, deve haver no corpo algo que corresponda à fronteira dissociativa, algo que seja a aparência dessa fronteira quando representada como parte do corpo.
  • No caso humano, trata-se de fato da pele, mas também das retinas, tímpanos, papilas gustativas e mucosa nasal: os órgãos dos sentidos são a objetivação, a representação perceptiva, da interface dissociativa pela qual o alter interage com a vontade em sentido amplo.

21. O quadro conceitual da Figura 3 explicita que as impressões sensoriais, e portanto as representações perceptivas, só surgem na vontade como consequência da dissociação, pois é a formação de uma fronteira dissociativa que permite a incidência não associativa de estados experienciais externos sobre estados internos.

  • Essa incidência, que constitui as impressões sensoriais, é análoga à de uma emoção reprimida que incide sobre um pensamento sem tê-lo evocado por um vínculo associativo.
  • Os órgãos dos sentidos, veículos da percepção, são apenas a aparência extrínseca dessa fronteira dissociativa, e sem dissociação não existiriam, nem tampouco a percepção.

22. Essa conclusão crucial pode ser reconduzida às próprias palavras de Schopenhauer.

23. O conhecimento, isto é, as representações perceptivas, e a pluralidade ou individuação mantêm-se e caem juntos, pois condicionam-se mutuamente.

24. Sendo o cérebro parte integrante do corpo, ele também é a objetivação ou representação física de certos estados experienciais do alter, a saber, os que correspondem ao que Schopenhauer chama de “intelecto” e “razão”, razão pela qual ambos são tratados como funções do cérebro.

  • A anatomia e a fisiologia cerebrais são a aparência do intelecto e da razão vistos do outro lado de sua fronteira dissociativa.
  • O restante do corpo é a aparência dos estados experienciais menos metaconscientes, ou não metaconscientes, do alter vistos do outro lado dessa fronteira.

25. Aquilo que na autoconsciência, e portanto subjetivamente, é o intelecto, apresenta-se na consciência de outras coisas, e portanto objetivamente, como o cérebro; e aquilo que na autoconsciência, e portanto subjetivamente, é a vontade, apresenta-se na consciência de outras coisas, e portanto objetivamente, como o organismo inteiro.

26. Janaway interpreta essa correspondência entre intelecto e cérebro físico como adesão de Schopenhauer a uma forma particularmente crua de materialismo, leitura desconcertante, pois o argumento nada implica nesse sentido, muito pelo contrário, e Schopenhauer ridiculariza o materialismo mais de uma vez, considerando-o motivo para um súbito acesso do riso inextinguível dos olímpicos.

  • Na medida em que o materialismo implica que estados experienciais são constituídos ou gerados por arranjos de algo exterior e independente da consciência, Schopenhauer categoricamente não é materialista.
  • A correspondência entre intelecto e cérebro físico é uma relação entre essência e aparência, ambas de natureza experiencial.

27. O quadro conceitual da Figura 3 explicita a relação entre os sujeitos individuais e seu ambiente circundante, deixada implícita na metafísica de Schopenhauer, e esclarece como o processo de percepção, em si mesmo, surge e se desdobra no interior da vontade unitária.

28. Mais importante ainda, esse quadro antecipa tentativas modernas de contornar tanto o “problema difícil da consciência” (Chalmers 2003), que aflige o fisicalismo, quanto o “problema da combinação de sujeitos” (Chalmers 2016), que aflige o pan-psiquismo constitutivo: ao postular a consciência universal, a vontade, como único primitivo ontológico da natureza, e como fundamentalmente unitária, evita-se tanto a necessidade de reduzir a consciência a outra categoria ontológica quanto a de explicar como pontos de vista subjetivos fundamentalmente separados se combinam.

29. Ao contornar esses problemas possivelmente insolúveis, o quadro ainda acomoda e explica fatos empíricos canônicos que, de outro modo, seriam no mínimo difíceis de reduzir à consciência universal.

30. O primeiro desses fatos é que todos parecem ser seres separados que habitam o mesmo mundo.

31. O segundo é que não se pode alterar esse mundo simplesmente desejando que ele seja diferente.

32. O terceiro é que os estados experienciais interiores se correlacionam com atividade cerebral mensurável.

33. O quadro da Figura 3 explica todos esses fatos sem postular nenhuma categoria ontológica diferente da consciência.

34. Todos são alters dissociados imersos na vontade em sentido amplo, o que explica por que parecem ser indivíduos que habitam o mesmo mundo.

35. Não é possível alterar a vontade em sentido amplo apenas desejando que seja diferente, porque se está dissociado dela.

36. A atividade cerebral mensurável se correlaciona com os estados experienciais interiores porque é a aparência destes vistos do outro lado da fronteira dissociativa.

37. Ao explicar esses fatos de modo coerente, com elaboração muito mais detalhada e rigorosa disponível em Kastrup 2018a, o quadro permite reduzir toda a realidade empírica à vontade unitária, exatamente como Schopenhauer pretendia.

38. Esse quadro conceitual, ao contrário da maior parte do que foi discutido anteriormente, não está explícito no argumento de Schopenhauer, sendo ao mesmo tempo uma interpretação e uma elaboração ulterior de seu pensamento, mas desvenda e revela de modo convincente o sentido abrangente e a coerência de suas ideias metafísicas.

  • Ele articula as diversas teses de Schopenhauer de maneira internamente consistente e satisfatória, que, salvo um acaso bastante improvável, não pode deixar de refletir seu pensamento subjacente e implícito.
  • Lida à luz desse quadro, “O Mundo como Vontade e Representação” torna difícil imaginar que Schopenhauer tivesse em mente algo substancialmente diferente.
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