1 CAUSA SUI
JULLIEN, François. Les Transformations silencieuses. Paris: Éditions Grasset & Fasquelle, 2009
Voltando-me primeiro, por conveniência, aos termos rivais entre os quais a filosofia contemporânea se dividiu, explicarei assim mais calmamente minha surpresa (diante da fotografia de vinte anos atrás): seria a de um 'sujeito' que de repente se descobre 'processo' e se vê submerso – absorvido – nele. Eu me considerava um sujeito: sujeito de iniciativa, concebendo e querendo, ativo ou passivo, mas sempre mantendo a sensação de seu ser e possuindo-se a si mesmo; que, sem dúvida, sabe-se inserido em toda uma rede de interações que o envolvem, tanto externas quanto internas, mas ainda assim se considera 'causa de si', segundo a expressão cara à metafísica, causa sui. E eis que, diante de meus olhos, essa perspectiva de repente se desequilibra violentamente, capotando para esta outra: a de um curso ou continuum cuja única consistência reside na correlação de fatores entre si – entre si e como sem consideração por 'mim' – e do qual procede sem interrupção, de maneira óbvia mas imperceptível, essa evolução global. 'Eu' sou esse (desse) 'envelhecer'. Pois o envelhecimento não é apenas uma propriedade ou um atributo do meu ser, nem mesmo uma alteração gradual aplicada à sua constância e estabilidade; mas sim um encadeamento consequente, global e autoexpansivo, do qual o 'eu' é o produto sucessivo. Talvez nem seja mais do que seu indicador conveniente. Diante da fotografia de vinte anos atrás, é essa validade do 'sujeito' que subitamente falha. O que não significa, no entanto, que a noção seja falsa, que devamos renunciar à sua opção de autonomia e Liberdade, mas que sua pertinência se revela subitamente limitada. Ela encobriu com demasiada facilidade outra que, abruptamente, diante desse vestígio de vinte anos atrás, ressurge brutalmente à tona e cria vertigem.
I. De uma outra perspectiva que não a do sujeito – ação / transformação
1. A surpresa diante da fotografia de vinte anos atrás é a de um sujeito que subitamente se descobre processo e se vê afogado e absorvido nele, pois a perspectiva do sujeito de iniciativa, que concebe e quer e se considera causa de si, causa sui, bascula violentamente na de um curso ou contínuo cuja única consistência reside na correlação de fatores entre si, e do qual procede sem interrupção, de modo óbvio mas imperceptível, uma evolução de conjunto, de que o eu é apenas o produto sucessivo.
- O sujeito se julgava ativo ou passivo, mas sempre conservando o sentimento de seu ser e possuindo-se, sabendo-se preso em interações externas e internas que o cercam, sem deixar por isso de se considerar causa de si, segundo a expressão cara à metafísica.
- O novo ponto de vista é o de um curso cuja consistência se deve à correlação dos fatores entre si, como que sem consideração pelo eu.
- O eu é esse envelhecer: o envelhecimento não é propriedade ou atributo do ser, nem mesmo alteração gradual de sua constância e estabilidade, mas um encadeamento consequente, global e autodesdobrante, do qual o eu é o produto sucessivo e talvez apenas o indicador cômodo.
- O que falha diante da fotografia é a validade do sujeito, o que não significa que a noção seja falsa ou que se deva renunciar à sua opção de autonomia e de Liberdade, mas que sua pertinência se revela subitamente limitada.
- Essa noção encobriu fácil demais uma outra inteligibilidade, que ressurge bruscamente diante do vestígio de vinte anos atrás e provoca vertigem.
2. Ao defender o não-agir e o recuo de um sujeito que se põe como princípio, a tradição chinesa torna sensível a inteligibilidade que subitamente parece faltar e oferece um primeiro viés para orientar-se nesse desconcerto, pois, longe de pregar o desengajamento ou a passividade, valoriza a transformação diante da ação em nome da própria eficácia, sendo a ação local, momentânea e saliente, e a transformação global, progressiva, duradoura e imperceptível.
- A ação intervém aqui e agora, hic et nunc, e remete a um sujeito como seu autor, que pode ser plural.
- Por destacar-se do curso das coisas, a ação é notada: vê-se o sujeito agir e pode-se fazer dele um relato, a epopeia.
- A transformação resulta de uma correlação de fatores, e, como é tudo nela que se transforma, jamais se destaca o suficiente para ser perceptível.
- Não se vê o trigo amadurecer, mas constata-se o resultado quando está maduro e é preciso cortá-lo.
3. Há mesmo inversão entre gregos e chineses, o que abre uma primeira brecha nessa via de análise tão pouco balizada, pois a natureza aristotélica, a physis, é concebida à maneira de um sujeito-agente, enquanto o sábio e o estrategista chineses não têm outra ambição senão transformar como a natureza, sendo hua sua palavra-mestra.
- A physis aristotélica quer, visa, empreende, é engenhosa e propõe-se fins.
- O estrategista transforma a relação de forças para fazê-la bascular silenciosamente em seu proveito, ao longo do tempo, de modo que, mal engaja o combate, o adversário cai por si, incapaz de resistir, já derrotado.
- O Sábio ou Príncipe, longe de pretender dar lições, impor ordens ou impressionar com milagres e proezas, contenta-se em transformar os costumes ao seu redor, pouco a pouco e em silêncio.
- O simples exemplo de sua conduta se difunde por si, influi por incidência ao longo dos dias, impregna e modifica insensivelmente os comportamentos, e basta para educar.
- Difundindo-se sem intenção projetada, por contágio no bem e como mancha de óleo, seu alcance estende-se inesgotavelmente, por autodesdobramento e sem resistência, da família ao país inteiro e até o fim do mundo.
4. Em vez de pretender agir, arriscar, enfrentar e desgastar-se nesse epifenômeno de tão pouco efeito que é a ação, convém transformar como a natureza, sem nada de espetacular a descrever ou celebrar, pois essa discreta influência que se destila dia após dia é mais eficaz, segundo os Letrados chineses, que todo o forçamento e alarde das ações heroicas ou das prescrições da Salvação, como mostra a leitura bimilenar do Clássico dos Poemas, equivalente chinês da epopeia.
- Como é tudo que se modifica pouco a pouco sob esse efeito de ambiência, do próximo ao distante, nada se discerne, nada há a narrar, e não haverá saga nem epopeia.
- Os resultados desse processo benéfico medem-se em toda parte, nos costumes, mores, que designam o condicionamento ambiente em contraste com a moral individual e a escolha do Sujeito.
- Percebem-se até nos cantos serenos e confiantes, sem recriminação, que formam a atmosfera de um país, guo-feng, entoados pelo povo em seus trabalhos diários, reflexos de tempos pacíficos de confiança e bom entendimento.
- Foi assim que se leu durante dois milênios o mais antigo texto literário da China, o Shijing, equivalente da Ilíada e da Odisseia.
5. Engajada em suas escolhas próprias, do Sujeito, da ação e sobretudo do invisível promovido metafisicamente a inteligível, a razão ocidental mostra-se surpresa e ingenuamente em falta diante dos grandes chamados à ordem da natureza, como o aquecimento climático, típica transformação silenciosa que, por falta de categorias adequadas para pensá-la, não recebeu atenção suficiente e agora retorna coletivamente em pleno rosto.
- Resta perguntar que outras possibilidades de coerência, desenvolvidas alhures, a Europa deixou escapar e precisa começar a recuperar.
- O aquecimento produz-se infinitesimalmente, ao longo dos dias e segundos, decorre de uma correlação indefinida de fatores, não se discerne como fenômeno à parte e concerne a tudo sobre a Terra, de modo que não se vê a Terra aquecer.
- Tampouco se veem os rios cavarem seu leito, as geleiras derreterem ou o mar corroer a costa, embora seja isso que se tem constantemente diante dos olhos, formando, desgastando e polindo o relevo e desenhando dia a dia a paisagem.
- Voltando mais tarde aos lugares, mede-se que as geleiras derreteram daqui até ali e que o deserto continua silenciosamente a avançar.
6. O conceito de transformação silenciosa mina a função do Sujeito até no domínio que pareceria seu apanágio e último reduto, o do sentimento e do psicológico, como no caso do casal que deixa de se amar, em que, sob o brilho da ruptura, uma transformação silenciosa não cessou de agir, produzindo uma erosão afetiva semelhante à geológica, invisível como uma atmosfera até o dia em que, por um nada, se percebe que a relação está morta.
- O que antes nem poderiam imaginar lhes aconteceu, e nada lhes resta senão separar-se.
- Os primeiros silêncios, as primeiras evitações, os primeiros roçares não amorosos produziram ao longo dos dias, sem que se detivessem neles, uma erosão comparável à que faz desabar de súbito um trecho inteiro da falésia sobre a costa.
- Como tudo entre eles se modificou pouco a pouco e nada escapou, e como todas as inflexões de entonação, olhar e gestos de impaciência caminharam juntas até a inversão, como numa sinfonia bem ordenada, nada se destacou e a evolução ambiente permaneceu invisível.
- Um dia, a propósito de um traço puramente anedótico, percebem que a cumplicidade se converteu em indiferença ou mesmo intolerância e que, apesar do esforço para esconder essa evidência, já não têm futuro comum.
7. Pascal observa que um homem já não ama a pessoa que amava dez anos antes porque nem ela nem ele são os mesmos, e que talvez ainda a amasse tal como era então, extraindo dessa inconstância a inconsistência do eu-sujeito para voltá-lo a Deus, mas, permanecendo dependente dessa perspectiva, oferece apenas uma explicação curta e resultativa, quando seria preciso passar do eu-sujeito a um processo lento e global de maturação, ou antes de degradação, e transferir para a situação engajada, entregue à erosão, o que parecia depender da iniciativa dos sujeitos, fazendo talvez dessa situação o verdadeiro sujeito.
- Pascal atém-se à mudança constatada, sem imaginar sair da dependência do sujeito.
- Não se trata apenas de juventude perdida, já que existem também amantes idosos.
- O sujeito, em Pascal, é apenas desdobrado em Ela e Ele.
- Ela e ele não são efetiva e pessoalmente incrimináveis por essa desafeição, e as culpas que agora contabilizam sem piedade um contra o outro não passam de balizamento anedótico.
- Nada mais vão, como sabem todas as testemunhas, que as queixas intermináveis dos antigos amantes.
8. Uma situação pode prevalecer sobre os sujeitos que se julgariam primeiros porque o próprio encontro que desencadeia um novo amor só ocorre como consequência de uma defasagem progressiva das duas existências, cujo ínfimo se torna infinito até contaminar tudo entre eles, de modo que já não é assunto dos sujeitos nem do destino, mas do situacional que progressivamente se impôs ao pessoal, deixando-os sem domínio sobre a relação.
- O encontro com outra pessoa só pôde ocorrer porque cresceu surdamente uma defasagem dos ritmos vitais, das ocupações cotidianas que moldam cada um à sua maneira e dos atavismos que retornam, preparando o terreno para essa oportunidade.
- Pior ainda seria o afundamento solitário de cada um em seu envelhecimento.
- A brecha esboçada tornou-se fissura, fenda, falha, fosso, e o afastamento desdobrou-se por si até a trincheira de indiferença que surpreende e faz o divórcio.
- Quando os sujeitos, diante dessa evolução que lhes escapa, se declaram passivos e culpam o destino, também se enganam.
- De nada servem os assaltos da boa vontade e os laboriosos remendos, como querer deter com as mãos a água de um estreito riacho.
