1.3 O dispositivo em obra
Para uma leitura filosófica do Yi King, Le Livre de Poche, 1993 (trad. em português publicada pela Editora 34)
1. Esse dispositivo é, no início, o mais simples possível, opondo dois tipos de traço, cheio ou quebrado, os dois versantes das coisas: o adreto e o ubac da montanha, a luz e a obscuridade, o duro e o maleável, masculino e feminino.
- O traço contínuo é ímpar, contém três em um e, desdobrando-se, chega ao número maximal, o número nove, e o traço descontínuo é par, contendo apenas os dois terços do precedente, o terço da esquerda e o da direita, e, desdobrado por triplicação igual, chega apenas ao número seis.
- Só por si, esses dois traços bastam para representar os fatores constitutivos de toda realidade, pois encarnam a cada vez os dois polos, yin e yang.
2. Dobrando esses dois traços, vê-se esboçar-se uma série, pois basta que sob cada um desses dois traços acrescentemos um segundo traço, idêntico ou oposto, para obtermos quatro casos, que podem se alinhar em uma ordem progressiva, quando o yin vai crescendo e o yang vai decrescendo, e reciprocamente, formando um encadeamento contínuo segundo esses dois polos.
- Acrescentando ainda um traço a cada uma dessas figuras, obtemos a série dos oito trigramas, que, formando um sistema já relativamente complexo, são capazes de representar os principais fenómenos.
- Os do mundo exterior: Qian, o céu, e Kun, a terra; Zhen, o trovão, e Xun, o vento; Kan, a água, e Li, o fogo; Gen, a montanha, e Dui, o lago.
- Ao mesmo tempo que as principais disposições interiores e seus modos de atividade: a dureza e a maleabilidade, a sacudida inicial e a penetração suave, o perigo enterrado e o brilho da luz, a imobilização do repouso e o desdobramento da alegria.
- Nesse estágio, em que começa a assunção da diversidade, mantém-se no entanto claramente a polaridade inicial, pois não apenas cada uma dessas figuras possui um parceiro, que é a figura oposta, mas além disso, como observa o Grande comentário, entre os seis trigramas intermediários, os que são yang, os três filhos, são compostos de uma maioria de traços yin, e os que são yin, as três filhas, de uma maioria de traços yang, porque os primeiros são ímpares e os outros pares.
- WFZ verifica isso num plano estritamente numérico, pois esses três trigramas yang se contabilizam em vinte e um, número ímpar, e, multiplicados por três, em sessenta e três, novo número ímpar, enquanto os três trigramas yin se contabilizam em vinte e quatro, número par, e, multiplicados por três, em setenta e dois, novo número par.
- A tensão do par e do ímpar se mantém, portanto, através da série, e, ao mesmo tempo que se desdobram, essas figuras preservam nelas a relação ao mesmo tempo oposta e complementar dos dois traços de que nasceram.
3. Dobrando de novo a mise, obteremos a série dos sessenta e quatro hexagramas, que corresponde ao estágio último do desenvolvimento das figuras.
- Mas primeiro, como se opera esse dobrado de três a seis? Em vez de pensar que corresponde ao dobrado de um primeiro trigrama, vindo um segundo trigrama se acrescentar por cima de um trigrama inicial, segundo uma interpretação antiga, é muito mais lógico considerar, demonstra WFZ, que esse dobrado se opera no nível de cada um dos traços.
- Tratar-se-ia menos de um dobrado, por conseguinte, do que de um desdobramento, e este não modifica fundamentalmente a figura, não sendo o hexagrama nada mais, nesse sentido, que um trigrama desenvolvido.
- Com efeito, enquanto o trigrama representa a realidade do ponto de vista de seu ser constitutivo, cabe ao hexagrama representar a mesma realidade do ponto de vista de seu funcionamento, ti oposto a yong segundo os termos neoconfucianos.
- Vê-se desde então por que um tal dobrado era necessário, mesmo que exegetas modernos considerem que talvez o inverso é que seria historicamente verdadeiro, correspondendo então os trigramas a um esforço ulterior de formalização visando apresentar os hexagramas em redução.
- Para representar a marcha das coisas, convém pôr em valor a cada vez a dualidade de aspectos, inversos mas correlacionados, de que decorre a interação que permite o funcionamento, e é por isso que, sem todos os traços que compõem a série dos hexagramas, conclui WFZ, não se poderia explorar até o fim um tal funcionamento.
4. Repartindo agora esses sessenta e quatro hexagramas em função de seus traços constitutivos, yin ou yang, seis hexagramas comportam um único traço yin e se contabilizam em cinquenta e um, seis hexagramas comportam um único traço yang e se contabilizam em trinta e nove, e vinte hexagramas são compostos de três traços yin e três traços yang e se contabilizam em quarenta e cinco.
- Resulta que trinta e dois hexagramas são ímpares.
- E igualmente: um hexagrama é composto de seis traços yang e se contabiliza em cinquenta e quatro; um hexagrama é composto de seis traços yin e se contabiliza em trinta e seis; quinze hexagramas comportam dois traços yin e se contabilizam em quarenta e oito; quinze hexagramas comportam dois traços yang e se contabilizam em quarenta e dois.
- Resulta que trinta e dois hexagramas também são pares.
- Verifica-se que, como anteriormente no nível dos trigramas, o equilíbrio instaurado entre o par e o ímpar é plenamente respeitado, e, apesar de seu desenvolvimento, o sistema permanece conforme a seu princípio de base e continua trabalhado, de ponta a ponta, pela polaridade.
5. O ponto forte do dispositivo é que esses conjuntos de traços, constitutivos dos trigramas e dos hexagramas, têm vocação para representar e servem de figuras.
- O Sábio, diz-se no Grande comentário, estabeleceu os hexagramas e considerou sua figuração, pois esse Sábio, autor do livro, era capaz de considerar toda a complexidade do que se encontra no mundo, meditou para saber como caracterizá-la e a representou de modo concreto e adaptado, donde resulta esse termo de figura.
- Mas de onde vem, deve-se perguntar, que uma tal esquematização seja possível? É que, responde WFZ, quer se trate do advento dos existentes ou da formação do concreto, do crescimento ou do decrescimento das energias, da alternância de ordem e desordem do curso das coisas, do caráter favorável ou desfavorável dos negócios humanos, do sucesso ou do fracasso, enfim, na formação de si ou na ação exercida sobre o mundo, não há nada de tudo isso que não seja aquilo a que chega, por inversão-revirão entre os traços do hexagrama, a relação de um yin e de um yang.
- Em claro, pois todo o real procede da única interação do yin e do yang, o hexagrama se encontra bem em medida, através do único jogo de seus dois traços par-ímpar, yin ou yang, de tudo representar simbolicamente.
- Porque é bipolar e explora sistematicamente todas as suas possibilidades de variação, sua estrutura lhe permite assumir ao mesmo tempo a diversidade e a complexidade das coisas.
- E não apenas essa representação simbólica pode ser sempre adequada, mas é além disso dotada de efeito, pois pela diferenciação que opera entre o duro e o mole, o que cresce e o que decresce, ela faz barragem aos desvios e estabiliza o real em sua positividade.
- Por seu caráter concreto também, ela fixa as condições de possibilidade de uma instrumentalidade das coisas, pois mesmo objetos só são viáveis se respeitam interiormente a relação do duro e do mole, do vazio e do pleno, que essas figuras põem em obra.
6. Enquanto a figura é global e corresponde ao conjunto do hexagrama, o traço constitui o elemento diferencial deste, sendo o elemento móvel e sendo ele, por conseguinte, que nos faz passar de uma figura a outra.
- Com efeito, diz WFZ, enquanto o hexagrama constitui o ser determinado das situações e dos existentes, o traço corresponde ao começo, como estágio inicial, dessas ocasiões e dessas situações.
- Ou ainda, enquanto a figura nos apresenta o aspecto resultativo de uma disposição, o traço se refere à mudança que intervém no interior dessa configuração de conjunto.
- Pois, do mesmo modo que era capaz de considerar toda a complexidade do que se encontra no mundo, o Sábio era igualmente capaz de considerar os movimentos que estão em obra no mundo, observando não apenas de que modo o encontro que nele se produz se produz justamente neste ponto, mas além disso como o movimento que resulta neste momento de um tal encontro, e transparece no seio do hexagrama no nível do traço, comunica de si mesmo com a lógica própria ao conjunto do hexagrama e se desdobra através dele.
- Isso significa que a obra do Sábio, autor do livro, foi observar como todo encontro adventício, de que decorre uma postura em movimento das coisas, se integra na lógica de conjunto dos processos, de modo a poder estabelecer a partir daí os princípios normativos do funcionamento das coisas e pô-los em obra.
- O traço se caracteriza, por conseguinte, pelo momento e pela posição que são os seus no seio do hexagrama, e estes servem de critério ao caráter adequado ou inadequado da modificação que através dele se esboça.
- Essa grande variedade de traços de que dispõe a combinatória, os trezentos e oitenta e quatro traços que compõem os sessenta e quatro hexagramas, permite explorar até o fim a extrema diversidade das modificações em obra, reconduzindo-a ao mesmo tempo a uma mesma alternativa, conforme a evolução que aponta vá no bom ou no mau sentido.
- E essa alternativa, porque é única, porque é a única possível, exclui por si mesma toda desordem, de modo que, permitindo a análise mais fina do curso das coisas, cada traço é capaz de mostrar de modo preciso qual é, em função de sua ocasião-posição, a via a seguir.
7. Última peça do dispositivo são as fórmulas de comentário, quer remetam ao conjunto da figura encarada globalmente, o tuan, o juízo, atribuído ao rei Wen, quer remetam a cada um dos traços considerados individualmente, obra atribuída ao duque de Zhou, tida por prolongar a de seu pai.
- Essas fórmulas, diz o Grande comentário, foram atadas à representação hexagramática, isto é, comenta WFZ, apoiam-se totalmente nela e não podem ser encaradas separadamente.
- Sua função é indicar o sentido da representação e nos servir de advertência, em termos de fasto e de nefasto, pois de um lado a lógica contida na representação e que faz que seja assim não poderia ser posta em luz sem essas fórmulas de comentário.
- E também o próprio dessas fórmulas é mostrar a cada vez a que isso vai chegar, isto é, prevenir-nos da tendência em obra, a fim de que possamos retificar a tempo nossa conduta.
8. Todas as peças desse dispositivo se imbricam, portanto, umas nas outras e funcionam encadeando-se.
- Como observa WFZ, na ausência da figura constituída pelo hexagrama não haveria juízo sobre a figura, como na ausência de juízo global sobre a figura não haveria traços considerados individualmente, como na ausência de juízos e de traços não haveria fórmulas que os comentassem.
- Verifica-se, portanto, que é da figura hexagramática que todo o resto procede e permanece dependente, sendo ela a base sobre a qual repousa toda essa montagem.
- Assim o Grande comentário pode decretar de modo lacónico que o que constitui o Clássico da mudança é a figura, pois é por ela, comenta WFZ, que a razão das coisas se manifesta, e é por isso que, na ausência das figuras, não se poderia aceder ao Clássico da mudança.
- Fica invalidada ao mesmo tempo, do ponto de vista da origem do livro, a posição de um Shao Yong no século onze, segundo a qual o Clássico da mudança preexistiria aos traçados dos hexagramas, pois não há conceção própria a esse livro que possa preceder o advento concreto das figuras e toda a reflexão sobre o devir decorre de seu único arranjo, não podendo a mudança ser instaurada a título de entidade metafísica independente das situações.
- Do mesmo modo fica invalidada, no outro extremo, do ponto de vista da interpretação do livro, a posição de um Wang Bi no século três, segundo a qual, para atingir o sentido, conviria deixar de lado a figura, pois não há sentido relativo à mudança que possa ser efetivamente pensado tomando distância em relação à figura e de modo abstrato.
9. Ao mesmo tempo que repousa inteiramente sobre a série das figuras, que é exaustiva, o dispositivo assim constituído se presta a dois usos complementares, e é nisso que esse dispositivo é completo.
- Ou, em repouso, contemplamos a série das figuras, tais como são definitivamente estabelecidas, e procuramos apreciar a justeza das fórmulas que as comentam.
- Ou, estando em movimento e querendo agir, consideramos as modificações em obra no seio do hexagrama e nos entregamos à consulta no nível do traço.
- Pois enquanto a série das figuras constitui o elemento estável desse dispositivo, o traço constitui, quanto a ele, o elemento individualizante e móvel, sendo no seu nível que se opera a deteção da evolução em curso e que as figuras comunicam entre si.
- De um lado, portanto, pelo estudo das figuras, podemos adquirir o que deveremos conservar sempre em nós para servir de regra imutável da conduta, e, de outro, pela consulta relativa ao traço, podemos analisar no maior detalhe a lógica própria à tendência que aponta e, assim, prevendo a evolução vindoura, adaptar nossa conduta a cada instante.
10. A combinação no seio de um mesmo dispositivo desses dois fatores opostos, estabilidade de um lado e mobilidade de outro, encontra-se evocada, em outra passagem do Grande comentário, pelo simbolismo da redondeza e do quadrado: assim a virtude da mil-folhas é ser redonda para aceder ao invisível, e a do hexagrama é ser quadrada para servir a conhecer, permitindo o acesso ao invisível prever o futuro e consistindo o conhecimento em tesaurizar o passado.
- De um lado, o quadrado, aquele que preenche na página o traçado de cada hexagrama, mas também no sentido em que se diz comumente, colocando-se do ponto de vista da virtude manifestada, que alguém ou algo apresenta um aspecto nitidamente talhado e que seu caráter é bem quadrado.
- De outro, a redondeza, a das finas hastes de mil-folhas às quais sua rotundidade permite deslizar facilmente entre os dedos, no curso das operações de tiragem, sem nunca emperrarem ou se prenderem.
- Na estrutura solidamente estabelecida do hexagrama está retida e tesaurizada, como em uma rede, toda a experiência das evoluções passadas, e paralelamente o manuseio eminentemente flexível e fluido da mil-folhas permite ao consultante desposar o mais de perto o menor inflexão, ainda invisível, de uma evolução em curso.
- Enquanto a série dos hexagramas constitui a armação global do devir e permite conhecê-lo em sua generalidade, a consulta pela mil-folhas permite aceder à improvisação particular a cada ocasião e que a armação de conjunto não poderia determinar.
- Assim, graças ao funcionamento correlacionado dessas duas peças, o dispositivo do Clássico consegue fazer coincidir nele essas duas dimensões opostas: ao mesmo tempo as grandes linhas do funcionamento do processo e a subtileza do detalhe, as lições do passado e a previsão do futuro.
- Dessa cooperação resulta sua capacidade natural, ao mesmo tempo que lógica, de revelar a imanência: a partir do esquema de conjunto das figuras, estabelecido de uma vez por todas e que lhe serve de quadro, lê-se, a cada nova solicitação, o curso inédito das coisas.
