User Tools

Site Tools


jankelevitch:filosofia-schelling:start

Filosofia de Schelling

JANKÉLÉVITCH, Vladimir. L’Odyssée de la conscience dans la dernière philosophie de Schelling. Paris: Felix Alcan, 1933.

  • Exigência de unidade entre sujeito e objeto, entre espírito e natureza, confronta-se com o dualismo manifesto no mundo material e na consciência autônoma, provocando necessidade filosófica de fundamentar identidade primordial na raiz do ser. Esse conflito inicial impulsiona Schelling a superar a negação fichetiana da natureza, buscando nela uma interioridade anímica que seja irmã, não filha, da consciência humana, o que, no entanto, revela uma defasagem irredutível entre o Absoluto originário e seu substituto descoberto pela Filosofia da Natureza, exigindo explicação para o mecanismo e o engano generalizado sobre a materialidade pura.
  • Filosofia da Identidade emerge como tentativa de preencher o vazio entre síntese original e suas deformações históricas, multiplicando aproximações e transições para descrever a contínua presença da síntese sob mudanças de proporção entre seus elementos, embora tal descrição permaneça consolatória, mas não explicativa, pois não responde à causa intrínseca da deformação, à aceitação da primeira desigualdade que desencadeia a alteridade real e, com ela, a necessidade de dar conta da história concreta, das guerras, revoluções e iniciativas volitivas humanas.
  • Virada para filosofia positiva ocorre quando Schelling reconhece insuficiência da filosofia negativa da identidade, que carecia de explicação para o “dass”, a decisão súbita, irracional e dramática pela qual o Absoluo se inclina e se diferencia, exigindo, portanto, não um único devir, mas dois processos: um intradivino ou teogônico, que deposita natureza e consciência, e outro desencadeado pela consciência, que explica caprichos da história humana, transformando filósofo em historiador, arqueólogo e mitógrafo para captar gênese e crescimento das diferenças.
  • Historicidade invade doutrina de Schelling por três vias principais: primeiro, no coração do Absoluto, que não é sistema, mas vida, devir incondicionado que se revela perpetuamente, sendo a história prova mesma de sua existência; segundo, na consciência finita, cuja origem catastrófica e culpável implica uma destinação dramática; terceiro, na relação entre Absoluto e finito, onde a “Einbildung”, compreendida como evento contingente e acidental, inaugura história da consciência e estabelece solidariedade entre duração divina e duração consciente.
  • Economia divina, ou “oikonomia”, designa ordem de sucessão real e concreta que deve ser respeitada para acessar o efetivo, rejeitando abstrações de uma teologia intelectualista que condensa tudo em eternidade indivisa; cristianismo é reconhecido como primeiro a compreender natureza histórica do Absoluto, sendo a história o mistério divulgado de Deus, símbolo mesmo do divino, o que justifica projetos como os “Weltalter”, que narram episódios sucessivos do drama do ser em envelhecimento orgânico, recorrendo a mito e narrativa onde a dialética racional falha.
  • Irracionalidade do devir exige narrativa, não sistema, pois coisas irracionais só podem ser contadas, não deduzidas dialeticamente, o que aproxima Schelling de Platão, que recorre ao mito quando a razão não consegue apreender problemas, estabelecendo que ciência verdadeira não é cadeia de conceitos vazios, mas expressão do devir de uma essência viva, um “Urlebendiges”, cujo progresso rumo à certeza desdobrada pode ser experienciado interiormente como maturação de uma pluralidade que gradualmente se expande, antecedendo descoberta desse mesmo devir na vida de Deus e na história religiosa da consciência humana.

jankelevitch/filosofia-schelling/start.txt · Last modified: by mccastro

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki