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As revoluções do tempo

JANKÉLÉVITCH, Vladimir. L’Odyssée de la conscience dans la dernière philosophie de Schelling. Paris: Felix Alcan, 1933.

  • Caráter essencialmente conflitivo da história da consciência
    • A história da consciência é compreendida como um processo intrinsecamente não pacífico, no qual a vida só se afirma por meio de lutas, crises e angústias
    • Não existe progresso sem enfrentamento, nem movimento sem resistência, de modo que toda vitória implica uma superação continuamente renovada
    • A consciência não se desenvolve por acumulação tranquila, mas por meio de confrontos que a obrigam a romper com formas anteriormente estabilizadas
  • Analogia entre a história da consciência e a história da filosofia
    • A própria história da filosofia manifesta uma guerra civil dos sistemas, marcada por instabilidade permanente
    • Cada sistema filosófico afirma-se negando seus predecessores e preparando, por sua vez, sua própria superação
    • O pensamento avança por renúncias sucessivas, nas quais a fidelidade ao passado cede lugar à coragem de abandoná-lo
  • Temporalidade como apostasia contínua
    • O tempo aparece como movimento incessante de deserção em relação ao que foi
    • Avançar no tempo significa negar aquilo que ficou para trás, ainda que esse passado tenha sido condição necessária do presente
    • A temporalidade é definida como dinâmica de renúncia produtiva, e não como conservação integral
  • Centralidade da contradição na experiência do devir
    • A experiência fundamental que sustenta essa concepção do tempo é a vivência aguda da contradição
    • A contradição não paralisa o movimento, mas o estimula
    • Ela constitui o solo a partir do qual a consciência se tensiona e se projeta para além de si
  • Influência decisiva de Jakob Böhme na concepção da vontade
    • A leitura de Böhme introduz a compreensão da vontade como essencialmente excitada pela recusa e pela cólera
    • A vontade não existe sem oposição, contrariedade e resistência
    • A alegria não se encontra na posse estável, mas na vitória obtida pela superação da resistência
  • Rejeição da contradição como impasse racional
    • A contradição não é concebida como o desespero da inteligência nem como um beco sem saída lógico
    • Ela não representa uma antinomia insolúvel, mas um momento positivo de superação
    • A contradição é interpretada como força dinâmica que impulsiona o surgimento de uma síntese superior
  • Estrutura relacional de toda afirmação
    • Não existe afirmação absolutamente pura ou isolada
    • Toda afirmação se define em oposição a uma negação implícita ou explícita
    • O sim carrega sempre em si um não virtual, assim como toda negação conserva um sim pressuposto
  • Exemplaridade da nescience socrática
    • A afirmação de não saber nada só adquire sentido quando pronunciada por alguém que poderia saber
    • A renúncia ao saber constitui um sacrifício consciente, e não uma simples ignorância
    • O valor dessa negação reside precisamente na força afirmativa que dela emerge
  • Caráter erístico e combativo do conhecimento
    • Toda posição do espírito nasce de um confronto
    • A verdade não se estabelece por evidência imediata, mas por oposição e resistência
    • O conhecimento ganha vigor na luta contra erros e formas insuficientes de compreensão
  • Valor formativo do erro
    • O erro não é um acidente exterior ao processo do saber
    • Ele desempenha uma função salutar no amadurecimento da consciência
    • A verdade só se torna viva após ter atravessado a experiência das falsas verdades
  • Superação do pessimismo voluntarista
    • A contradição não conduz a uma visão trágica e insolúvel da existência
    • Ela não é miséria definitiva da vida, mas condição de sua cura
    • O conflito existe para ser superado e não para se eternizar como absurdo
  • Devir como polaridade ativa
    • A contradição integra uma concepção geral de polaridade universal
    • O devir é pensado como processo militante e não como harmonia prévia
    • A vontade encontra prazer em contestar soberanias adquiridas e em exercer seu poder de veto
  • Morte e supressão como condições da vida
    • Nenhuma existência se afirma sem que outra seja sacrificada
    • Toda presença se ergue sobre uma ausência forçada
    • Algo deve perecer para que outra coisa possa viver e adquirir relevo
  • Relação entre presença e não-ser
    • O ser só se destaca em oposição ao não-ser
    • A existência se afirma contra um fundo negativo que a torna visível
    • O não-ser não é simples vazio, mas condição estrutural da manifestação
  • Devir como autodevoração da vida
    • A vida consome continuamente suas próprias produções
    • Ela se alimenta de sua própria substância
    • Essa autodevoração não é decadência, mas expressão máxima de vitalidade
  • Função positiva do esquecimento
    • O esquecimento é condição de saúde espiritual
    • Ele impede que o passado se torne um peso paralisante
    • Sem esquecimento não há espaço para a criação nem para a ação nova
  • Crítica à concepção conservadora do tempo
    • O tempo não conserva integralmente tudo o que foi
    • O passado que se recusa a morrer subsiste de modo artificial e dissonante
    • O excesso de memória transforma-se em remorso e entrave à vida
  • Devir como processo impiedoso
    • O devir não tolera estagnações
    • Quem se detém perde vigor, juventude e entusiasmo
    • A pressão do tempo obriga a consciência a seguir adiante ou a perecer
  • Exemplificação mítica do devir conflitivo
    • A sucessão das divindades na consciência grega ilustra a lógica da superação violenta
    • Nenhuma divindade abdica espontaneamente de seu domínio
    • Cada nova forma de consciência emerge da derrota da anterior
  • Teogonia como processo de superações sucessivas
    • A mitologia exprime simbolicamente o caráter revolucionário do devir
    • O conflito entre princípios divinos traduz a luta entre formas de consciência
    • O real do mito reside no movimento histórico e não na coexistência estática
  • Diferença entre politéismo sucessivo e simultâneo
    • O politéismo autêntico projeta a pluralidade no tempo
    • A simultaneidade das potências não produz verdadeiro devir
    • O devir exige exclusão, substituição e conflito
  • Temporalidade orgânica e finita
    • O tempo não é um meio homogêneo e vazio
    • Ele se articula em épocas qualitativamente distintas
    • Cada período possui uma duração, uma força interna e um esgotamento próprio
  • Rejeição do progresso indefinido
    • O progresso não se estende de maneira contínua e ilimitada
    • Ele comporta regressões provisórias e rupturas
    • O surgimento do novo pode implicar simplificação e perda momentânea
  • Centralidade das crises e catástrofes
    • As grandes transformações exigem interrupções bruscas
    • Nenhuma transição decisiva ocorre sem salto
    • A novidade exige o risco de uma ruptura radical
  • Origem psicológica da descontinuidade
    • A descontinuidade do tempo possui raiz na experiência da vontade
    • A vontade é o poder de começar
    • O drama teogônico reflete o drama mais profundo da decisão humana
  • Preparação da transição para a doutrina do fundamento
    • A multiplicidade de rupturas exige um princípio que explique a continuidade
    • O passado deve ser suprimido sem ser aniquilado
    • A teoria do fundamento emerge como tentativa de pensar conjuntamente revolução e permanência
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