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O mal
JANKÉLÉVITCH, Vladimir. L’Odyssée de la conscience dans la dernière philosophie de Schelling. Paris: Felix Alcan, 1933.
- Situação sistemática do problema do mal no interior da filosofia do devir
- O problema do mal surge como consequência necessária da análise prévia da duração, das revoluções do tempo e da teoria do fundamento
- A questão não é introduzida como tema moral isolado, mas como dificuldade estrutural que condiciona a inteligibilidade do devir
- Antes de interrogar o termo final da história e sua possível reconciliação no eterno, impõe-se esclarecer a função e o estatuto do mal no processo
- Distinção preliminar entre Grund e mal
- A ambiguidade do Grund exige distinguir cuidadosamente entre fundamento e mal propriamente dito
- Nem tudo o que pertence ao fundamento pode ser imediatamente identificado com o mal
- A confusão entre ambos conduziria a um dualismo ontológico insolúvel
- Dupla acepção do mal segundo sua relação com o fundamento
- Distingue-se um mal que permanece fundamento e um mal que se torna malveillante ao recusar essa função
- O primeiro não é hostil nem perverso, mas estrutural e necessário ao devir
- O segundo emerge quando o princípio que deveria sustentar o processo pretende ocupar o lugar do resultado
- Deslocamento da problemática do mal da teosofia para a filosofia positiva
- A reflexão tardia abandona progressivamente o imaginário teosófico excessivamente dramático
- A figura do arcanjo rebelde é criticada como mitificação inadequada do problema
- O mal passa a ser pensado em termos mais científicos, sistemáticos e estruturais
- Recusa do dualismo maniqueu
- A afirmação de um princípio mau por natureza levaria à cisão radical do real
- Tal hipótese destruiria a unidade do processo e a inteligibilidade da história
- O mal não pode ser substância autônoma sem comprometer a filosofia do devir
- Satanás como princípio e não como indivíduo contingente
- O diabo não é um personagem que surge arbitrariamente na história
- Ele designa um princípio estrutural necessário ao processo
- Sua função é ontológica e histórica, não psicológica nem acidental
- Inserção do mal na economia divina
- O devir obedece a uma economia na qual nenhum momento é absurdo ou inútil
- O mal é integrado como momento funcional e não como catástrofe irracional
- Cada estágio do processo possui dignidade relativa enquanto momento necessário
- Historicidade do mal
- O mal não é idêntico em todas as épocas
- Ele se transforma conforme o avanço do princípio de vida
- Aquilo que foi legítimo em um estágio torna-se inadmissível em outro
- Relatividade temporal do juízo moral
- O mal só aparece como tal retrospectivamente, à luz do sentido do processo
- Um princípio é julgado mau quando se revela provisório e ultrapassado
- O juízo moral depende da posição temporal ocupada no devir
- Passado como bom-em-seu-tempo
- Todo momento passado foi presente e legítimo enquanto durou
- Nenhuma forma histórica nasce já como erro
- O passado só se torna mau quando insiste em sobreviver fora de sua data
- Mal como anacronismo ontológico
- O mal consiste na persistência atual do que deveria permanecer apenas como possível
- A malveillance surge quando o passado reivindica existência presente
- O erro fundamental é a usurpação de lugar no tempo
- Inversão dos princípios
- O mal não nasce do conteúdo em si, mas da inversão de posições
- Algo bom em sua função torna-se mau ao pretender universalidade
- A desordem temporal substitui a hierarquia orgânica do devir
- Mal como ato e não como substância
- O mal é definido como decisão, relação e exercício da vontade
- Ele não possui ser próprio, mas ocorre como gesto
- A negatividade é dinâmica e não ontologicamente fixa
- Relação entre liberdade e possibilidade do mal
- A liberdade viva inclui necessariamente a possibilidade do desvio
- Sem essa possibilidade não haveria devir real
- O mal pertence à estrutura da liberdade enquanto risco
- Mal latente e mal ativo
- Distingue-se o mal enquanto possibilidade recalcada e enquanto atuação efetiva
- O primeiro corresponde a um momento legítimo do fundamento
- O segundo aparece quando essa possibilidade se atualiza indevidamente
- Satanás como indigência ontológica
- O princípio do mal é caracterizado como pobreza de ser
- Ele carece de existência própria e depende da vontade alheia
- Sua força reside na sedução e na exploração das brechas da consciência
- Função tentadora do mal
- O mal solicita continuamente a vontade para obter atualidade
- Ele propõe múltiplos possíveis para se infiltrar na decisão
- A tentação exprime a pressão do possível não realizado
- Mal como resistência ao devir
- A maioria dos males nasce da recusa em avançar com o processo
- A saúde do ser consiste na evolução ordenada dos momentos
- A doença aparece quando o passado escapa ao controle do presente
- Exemplos históricos e religiosos do anacronismo
- Superstição, fetichismo e formalismo religioso ilustram a sobrevivência do passado
- Essas formas persistem deslocadas, como resíduos de épocas extintas
- São crenças que não aceitaram morrer no tempo devido
- Heresia como momento necessário e como desvio
- A heresia possui função preparatória no devir da verdade
- Ela se torna má ao isolar-se e pretender valer como totalidade
- O erro nasce quando o parcial se absolutiza
- Mal como princípio noturno do espírito
- O mal não é exterior ao espírito, mas sua face invertida
- Ele constitui a Nachtseite, fonte de angústias e entusiasmos
- O espírito mais vivo é também o mais exposto ao mal espiritual
- Ambivalência do princípio bárbaro
- O princípio irracional possui fecundidade própria
- Ele contém em germe tanto a catástrofe quanto a criação
- Negá-lo integralmente seria mutilar a vida
- Combate espiritual como destino do homem
- O mal não se dissolve automaticamente
- Ele exige enfrentamento consciente e permanente
- A luta contra o mal é condição de intensidade espiritual
- Mal como condição paradoxal do bem
- O bem só se torna inteligível por contraste com o mal
- A consciência se aguça na oposição
- A supressão total do mal levaria à estagnação do espírito
- Síntese provisória da função do mal no devir
- O mal não é acidente supérfluo nem substância rival do bem
- Ele é momento necessário, relativo e temporal do processo
- Sua negatividade só se torna destrutiva quando recusa sua própria finitude histórica
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