O mapa entrou na era da suspeita
CJ1992
Um produto técnico e um artefato cultural, cujas materializações e usos não podem ser reduzidos a um modelo único e trans-histórico, o mapa tornou-se hoje um objeto complexo e teórico, atraindo a atenção de geógrafos, bem como de cientistas cognitivos, psicólogos e fisiologistas da percepção sobre as operações complexas que exige de seus receptores. O mapa é estudado como um meio de comunicação, possibilitando a transmissão visual de uma variedade de informações - econômicas, demográficas etc. -, mas também se prestando a manipulações retóricas (persuadir, enganar, seduzir, decidir etc.). Devido à sua complexidade semiótica e aos órgãos sociais que o produzem, usam ou controlam sua distribuição, o mapa também é um formidável instrumento de poder, cuja eficácia não pode ser reduzida à representação objetiva de um fragmento da superfície da Terra. Essa nova opacidade, essa funcionalidade ampliada do mapa, levou a um novo olhar sobre suas características visuais como um meio de informação, passível de borrar ou até mesmo inverter os significados que pretende transmitir: daí o projeto de uma semiologia gráfica para otimizar o processo de comunicação, definindo uma gramática visual para o mapa, com seu léxico de unidades e suas regras de combinatória. Há vários anos, as revistas internacionais de geografia e cartografia, muitas vezes distribuídas por associações profissionais, têm ecoado as questões epistemológicas e os debates em torno do mapa, o instrumento por excelência da comunicação geográfica. O reconhecimento da natureza problemática do mapa, de sua complexidade e das operações perceptivas e cognitivas que ele implica, marca um avanço decisivo sobre as ilusões de transparência e imediatismo, e podemos citar como exemplo o G.I.P. Reclus, na França, que conseguiu conciliar o design de mapas e atlas originais com uma reflexão mais fundamental e teórica sobre como usar o mapa e como ensiná-lo nas escolas. Dessa forma, a revista Mappemonde testemunha uma notável abertura multidisciplinar e a percepção de que a compreensão do mapa pode ser iluminada por outros discursos e métodos que não os da geografia.
A partir desse duplo desenvolvimento, histórico e teórico, devemos lembrar que o mapa se tornou um objeto opaco que prende o olhar em si mesmo. O mapa entrou na era da suspeita. Ele perdeu sua inocência. Hoje, não podemos mais imaginar uma história da cartografia sem uma dimensão antropológica, atenta à especificidade dos contextos culturais, e uma dimensão teórica, refletindo sobre a própria natureza do objeto e seus poderes intelectuais e imaginários.
