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harman:2002:2

2 Referência

HARMAN, Graham. Tool-Being: Heidegger and the Metaphysics of Objects. Chicago: Open Court, 2002.

§2. Referência

1. O ser-ferramenta distingue-se por sua invisibilidade e por sua totalidade, pois a ferramenta, sempre em ação, assume uma posição determinada na realidade, submetendo outras entidades e cedendo às forças que elas devolvem, de modo que seu trabalho se retrai sempre atrás de seu perfil de superfície radiante, não apenas na maior parte das vezes, mas por definição, por ser irredutível a tudo o que se possa ver, razão pela qual utensílio, o que está à mão e ser-ferramenta passam a designar exclusivamente esse nível de realidade subterrânea que nunca vem à vista, e o termo Zuhandenheit deve ser purgado de toda conotação de marretas e chaves de fenda, falso tom que desvia tantos comentadores desde o início.

2. Retraído sempre num fundo distante, o utensílio é invisível, e para Heidegger as ferramentas tampouco são substâncias naturais discretas que entram em sistemas apenas por acidente, como sólidos independentes que conservam sua integridade nas combinações mais selvagens, mas um efeito unitário que absorve suas peças no império de função que inaugura, separáveis apenas por abstração ou remoção física, de modo que o utensílio é total, resultados repetidos para que variadas reformulações levem à clara compreensão do tema e para mostrar criticamente que muitos termos heideggerianos supostamente diversos se reduzem a essa situação simples.

3. Ambos os traços do utensílio combinam-se no termo referencialidade, entendida em duplo sentido, sendo o primeiro o de que o utensílio funciona empurrando para além de si e desaparecendo em favor da realidade visível que produz, permitindo que a referência última engula suas forças componentes num sistema ou rede invisível subjacente, de modo que a referência da ferramenta é a finalidade ou término encontrado para o qual ela contribui anonimamente, como os pequenos parafusos que remetem à ponte ou as ferramentas do carpinteiro que desaparecem em favor da casa inteira.

4. Em cada caso, porém, uma raça perdida de seres-ferramenta é sufocada sob esses pontos finais, desaparecendo na maquinaria cujo domínio termina numa superfície impenetrável, e por isso, num segundo sentido, a referência é o ato de retraimento de uma entidade em sua eficácia invisível, oculta em sua função, execução ou desempenho, pois as referências não são observadas, mas estão aí quando a elas se submete na ocupação, de modo que a função da ferramenta é eficaz não como signo ou símbolo explícito, mas como algo que desaparece na obra a que está destinado.

5. A isso somam-se os célebres termos significância e mundo, pois a totalidade relacional do significar constitui a significância, estrutura do mundo em que o Dasein já está, e todos esses conceitos, função, ação, referência, significância e mundo, descrevem a mesma referencialidade dupla e são estritamente sinônimos no pensamento de Heidegger, surgindo todos em conexão com a totalidade unificada do utensílio e as múltiplas entidades distintas que dela irrompem, sem o que se é desviado por uma abundância ilusória de conceitos que apenas mascara a bela austeridade de um único paradoxo ontológico.

6. O ser do utensílio é Vollzug, execução ou desempenho, um deslocamento para além de si, uma referência ao fim que realiza, de modo que a ferramenta é referência e para ela ser é significar, e substituindo referência por sentido obtém-se, de um lado, o sentido da ferramenta como término visível de sua ação subterrânea, assim como o sentido de uma seta é a região para a qual aponta e uma palavra evoca seu sentido desviando a atenção de si, e cabos e pilares significam o sistema da ponte desaparecendo nele, e de outro, o sentido oculto que o método fenomenológico persegue ao extrair as inúmeras camadas categoriais implícitas na mais simples aparição, análogo ao ser-ferramenta da entidade, ato de eficácia primordial que escapa a toda visão possível.

7. O utensílio é assim sentido ou referência em dois sentidos distintos, desempenho de uma força subterrânea devastadora que convoca uma realidade explicitamente encontrada, ambiguidade que é a própria ambivalência da ferramenta, uma realidade que é também aparência, um verbo que é também substantivo, como se Heidegger tivesse composto um vasto tesauro filosófico em que utensílio, referência, sentido, mundo e outros termos fossem sinônimos versáteis de uma única inversão entre o ser-ferramenta retraído do mundo e seus fragmentos presentes.

8. A essa lista de sinônimos acrescenta-se surpreendentemente a palavra ser, pois entre Sinn e Sein não há quiasma vertiginoso nem oscilação entre polos ilegíveis, mas identidade simples, já que o ser da ferramenta é o que ela efetivamente é, seu impacto e seu trabalho anônimo por trás de tudo o que é presente, que ao mesmo tempo emerge como ferramenta visível específica, contorno tangível de uma chave de fenda, de um prego ou da casa que ajudam a construir, duplo estatuto idêntico ao do sentido da ferramenta, de modo que a análise do utensílio é o berço do conceito central de um ser que é sentido e a pergunta pelo sentido do ser é uma tautologia reversível cuja resposta só se encontra na tautologia viva que é o utensílio.

9. À objeção de que a análise do utensílio seria apenas ponto de partida de uma exposição fundante progressivamente mais profunda, em que o uso de implementos depende da ocupação, esta do ser-no-mundo, este do cuidado e este da temporalidade, com inúmeros passos intermediários ao gosto do comentador, cabe responder que esse modo de apresentação é uma distração semelhante à velha cantiga infantil que desce de uma estrela escura a um planeta escuro, nação, cidade, rua, casa, quarto, armário, casaco e bolso escuros até a surpresa final de uma bala de goma cor-de-rosa, diferindo grande parte dos comentários apenas pela ordem inversa e pela insistência em que a bala seria inacessível, envolta em negatividade irredutível.

10. Essa forma de exposição fundante deve ser descartada, apesar de usada pelo próprio Heidegger, e tampouco ajuda insistir em distinções minuciosas entre termos heideggerianos remotamente ligados à ferramenta, como conformidade, discrição ou descoberta, como se fossem mais que figuras de linguagem de uma intuição muito simples que precisa ser apreendida com toda a clareza para poder ser superada.

11. O objetivo inicial de Ser e tempo é exibir os entes em seu modo de ser predominante, a partir da análise da ferramenta, evitando apenas o hábito arraigado de tomá-los como presentes, representáveis por propriedades delimitáveis e não reconhecidos no ato de serem o que são, primeiro passo que não é abandonado quando a terminologia mais etérea substitui martelos e setas de direção, já que o mundo não é vazio independente ou tela projetiva distante dos entes, mas o contexto referencial em que estão situados e que só eles executam, e o tempo não é estrutura remota incontaminada pelos objetos, mas temporalidade atuante no coração das entidades que mina sua pretensão de mera presença, de modo que o recuo a horizontes sucessivos só vale como método contra conotações naturalistas, pois a rigor não há horizontes, mas apenas ser e entes, sendo o horizonte criatura do intelecto, dedo indicador artificial e não estrutura real.

12. Não se trata de abandonar os entes específicos em favor de fundamentos cada vez mais profundos, mas de derrubar o regime da presença, e o ser-ferramenta já o faz, desde que a ferramenta seja concebida com rigor e não identificada preguiçosamente com martelos de liquidação, trazendo as intuições decisivas à vista com uma imediatez intuitiva que os desenvolvimentos posteriores de Heidegger tendem a abafar, de modo que, se uma serra tico-tico não for mal lida como coisa física, não há necessidade de recuar a estratos supostamente mais profundos, já que o tema da serra e de seu ser estará em jogo desde o início.

13. É estéril debater a possibilidade de pensar o ser sem os entes, já que os textos oferecem munição a ambos os lados, pois o temor de conceber o ser a partir dos entes só é válido como perigo de abordá-lo pelo caminho dos entes presentes, procedimento que Heidegger condena como lapso repetido do Ocidente, e não a atenção aos objetos individuais, como mostram seus escritos tardios povoados de jarros, pontes e templos que não conduzem nem a uma retro-onto-teologia nem a um discurso meramente metafórico, sendo a diferença principal entre Heidegger e a maioria dos filósofos continentais atuais que ele ao menos tenta falar de jarros e pontes reais, de modo que não há perigo em exigir uma teoria renovada dos objetos específicos, já que os entes tomados como ingenuamente presentes já estão mortos e o ser-ferramenta é seu assassino, e evitar nervosamente toda menção a entidades específicas é perder o sono por um inimigo inexistente há setenta anos.

14. Para manter a atenção no cenário do utensílio, que contém todo o avanço filosófico de Heidegger, e rejeitar a ideia de que está em jogo o uso humano das ferramentas, é preciso enfrentar a distinção heideggeriana entre o para-quê da ferramenta, referência pela qual todo utensílio desaparece em algo além de si, como serventia, utilidade ou manejabilidade, e o em-vista-de humano, ponto de vista final que daria sentido a todo contexto referencial, segundo a tese de que o sistema de ferramentas recebe seu sentido do poder-ser do Dasein e de que o para-onde primário é um em-vista-de-quê.

15. À primeira vista, isso parece irrefutável, pois a plataforma coberta de uma estação ferroviária não é simples fusão de vigas, mas utensílio de abrigo cuja utilidade depende de um sistema de chuva significativo apenas porque o Dasein, ao contrário dos anfíbios, precisa manter-se seco, e até essas referências superiores só fariam sentido à luz da estrutura do cuidado, já que nenhum implemento teria sentido se os seres humanos não se preocupassem com o próprio ser.

16. Dada essa prioridade do cuidado humano sobre o sistema referencial dos utensílios, todos os argumentos em favor da supremacia do ser-ferramenta pareceriam destruídos, pois o ente humano seria o fundamento de possibilidade de toda significância e da ação dos seres-ferramenta, e Ser e tempo seria escrito do ponto de vista de um subjetivismo latente, leitura surpreendentemente comum até entre admiradores que, apesar das negações do próprio Heidegger, confessam às suas costas que o herói ainda tem caminho a percorrer e que os erros lamentáveis dos anos vinte serão superados com a verdade, o Ereignis ou algum domínio ainda mais desencarnado.

17. A análise da ferramenta não depende em nada da prioridade do ponto de vista humano, pois sua intuição central é que a ferramenta está presa num império específico de funções que recebe seu sentido de uma projeção particular, uma referência final, e embora o sentido do utensílio seja determinado por aquilo em vista de que age, é contestável que esse em-vista-de seja necessariamente humano, já que as ferramentas executam seu ser em vista de uma referência não porque as pessoas as encontram, mas porque são inteiramente determinadas em sua função referencial, estando à mercê de inúmeros pontos terminais de sentido.

18. A significância dos utensílios difere muito entre seres humanos, conforme as esperanças e os medos de cada observador, e é um passo pequeno estender isso a outros mamíferos, como o cão que vive como tortura a vacina que os humanos sabem benéfica, e admitir alguma forma de sentido no nível dos insetos e das bactérias, para os quais incidentes que mal tocam os humanos são letais, como traços de veneno ou uma geada precoce, e que descobrem ambientes maravilhosos em espaços minúsculos, de modo que as totalidades utensiliares se alteram amplamente conforme o organismo que as encontra, sem tocar ainda na suposta distinção entre criaturas humanas e não humanas.

19. É preciso ir mais longe, até um ponto que parece bizarro à primeira vista, pois o em-vista-de ocorre até no nível da matéria inorgânica, como no biombo de papel oriental que filtra a luz da lâmpada, barreira formidável para partículas de poeira e lascas de cascalho, obstáculo parcial para a luz e nulidade para uma pá de ventilador solta ou um facão manejado sem cuidado, linguagem aparentemente antropomórfica que faz menos suposições arbitrárias que Heidegger, já que dizer que a luz encontra o biombo não atribui alma aos objetos materiais, mas apenas evita um termo estéril, ao passo que Heidegger toma do senso comum o pressuposto ôntico de que humanos diferem muito de facas e papel, sem que sua análise do em-vista-de chegue a algo exclusivamente humano, valendo afinal para tudo, até para flocos de sujeira.

20. Que o em-vista-de possa ser uma coisa visível presente a um observador humano é de importância derivada, pois o primário é que o ser da ferramenta é inteiramente determinado em sua relação específica com cada entidade que encontra, pessoa, animal consciente do biombo ou bloco atordoado de matéria que colide com ele, de modo que, mesmo na unidade lisa de um sistema referencial inanimado, há referência mútua de seres independentes capazes de cortar, quebrar e queimar uns aos outros, e é irrelevante que a faca não pareça consciente do biombo, já que a significância deste como barreira é diferente para ela e para um ridículo grão de areia, existindo o biombo em vista do humano, do papagaio caribenho, da faca, da luz e do seixo, sem que aí se encontre uma diferença ontológica radical entre eles.

21. O dualismo básico defendido, familiar a muitos leitores de Heidegger, opõe de um lado o mundo do ser-ferramenta, inacessível à representação e existente apenas como eficácia bruta de um sistema total de utensílios, e de outro os términos visíveis desse sistema, os objetos singulares da zona perceptível da vida, reinos que são o estar à mão e a presença heideggerianos e coincidem com a oposição entre ontológico e ôntico, de modo que só a leitura trivial do ser-ferramenta como instrumento humano útil permite a falsa objeção de que a ferramenta não seria ainda nada de ontológico.

22. A objeção de que o estar à mão e a presença seriam ambos determinações ontológicas de entes ônticos à mão e presentes resulta de dois erros, o de supor que se trata de dois tipos de entes, martelos e cinzéis de um lado e entes não manuseáveis de outro, quando são duas faces irredutíveis da mesma entidade, válidas para todos os entes, e o de supor que entes específicos são sempre ônticos e estruturas horizontais sempre ontológicas, como se o sufixo alemão heit fosse a chave de toda profundidade, quando estar à mão e presença são apenas entes de razão, no dizer de Leibniz, e o que existe é um mundo abarrotado de martelos, estradas, tanques de propano, águias, cobras e bosques, cada um deles, como o tanque de propano, ao mesmo tempo força bruta adormecida irredutível a toda experiência e objeto tangível de percepção reconhecido por forma, cor e textura, ontológico e ôntico, sempre entidade e nunca horizonte, dimensões opostas cuja relação constitui um verdadeiro problema filosófico.

23. A segunda vertente do argumento, menos convincente de início, sustenta que há uma singularidade rudimentar até no nível das próprias ferramentas, uma presença de entidades individuais umas às outras como indivíduos específicos, pois, embora o biombo de papel não encontre a poeira como poeira por carecer de consciência, se não encontrasse de algum modo a faca como faca não poderia ser danificado por ela, e o tipo especial de dano que sofre mostra que a encontra como faca e não como chama ou seixo inofensivo, sem que se deva introduzir da vida cotidiana uma distinção entre formas humanas e não humanas da estrutura do como, que Heidegger teria de conquistar por duro trabalho ontológico e nem sequer tenta, de modo que a distinção entre o para-quê das ferramentas inanimadas e o em-vista-de do Dasein, destinada a demarcar dois tipos de entidades, acaba definindo dois modos de toda entidade, ocorrendo o em-vista-de até no nível da matéria sem alma.

24. Se os seres-ferramenta se caracterizam por sua função para outra coisa, muitas dessas funções ocorrem simultaneamente para cada entidade, e o para-quê liga uma entidade a outra, minando sua pretensão de substância presente ao engoli-la num sistema maior, como o martelo destinado ao prego, o prego à tábua, a tábua à casa, todos fixados uns aos outros a cada instante numa totalidade abrangente de significância, de modo que falar do martelo ou do prego isoladamente é sempre derivado para Heidegger, sendo primária a totalidade utensiliar.

25. A rigor, não há como limitar essa totalidade a uma única região do universo, como um canteiro de obras, pois todos esses objetos estão inseridos em referências ainda mais remotas, como o campo gravitacional da Terra ou a suposta estabilidade sísmica do terreno, que dispensa as precauções exigidas por lei na condenada Los Angeles, de modo que todos os objetos do universo se referem uns aos outros e qualquer mudança mínima desloca todo o sistema entrelaçado de sentido, tese célebre de Whitehead também presente em Heidegger, segundo a qual o para-quê deve ser global e portanto único, sendo o para-quê de um martelo particular mera gíria intelectual, já que os fios da máquina-mundo precederiam todo objeto individual, e o para-quê é uma força totalizante que cria um império homogêneo e opressivo sem lugar para segmentos locais como martelo, faca ou fogo, havendo afinal um único para-quê, que Heidegger chama mundo.

26. A existência de regiões locais e distritos específicos no império infinito do ser parece ser em Heidegger privilégio exclusivo do Dasein, pois há momentos em que ele parece supor que, num canteiro de obras às três da manhã de um feriado nacional, os objetos seriam meras massas físicas independentes até a chegada do Dasein, o que é impossível, já que eles se afetam de modos muito específicos independentemente de qualquer presença, ganhando cada um sua força em relação aos outros, como um maçarico esquecido aceso perto de tanques de querosene ou cinquenta carretas estacionadas sobre uma grade frágil, que provocarão um desastre horrível mesmo com todos os humanos a quilômetros de distância.

27. Ainda assim, pareceria que nenhum desses objetos pode ser indivíduo sem a presença de um ser humano que o identifique, pois até a inspeção da catástrofe na manhã seguinte todos estariam ligados numa unidade abrangente e só o Dasein todo-poderoso introduziria fissuras na maquinaria totalizante, libertando fragmentos específicos daquilo que seria um único efeito homogêneo por meio da estrutura do em-vista-de, que os projeta segundo o poder-ser próprio, de modo que com a chegada humana surgem um martelo com certa significância, um saco de papel vazio com significância menor e um monte de escombros queimados que assusta, oportunidades ou ameaças visíveis em vista do próprio ser, único remédio contra o império invisível e totalizante do para-quê e antídoto mágico que para Heidegger só os humanos possuiriam.

28. Isso não pode ser assim, pois se o mundo fosse um império total de sentido que só os humanos fragmentariam em zonas individuais, a causação física jamais ocorreria, já que não haveria objetos individuais, mas um único sistema, sem explicação para sua alteração na ausência do Dasein, quando o mundo inanimado não repousa em equilíbrio estático, mas se compõe de peças que resistem umas às outras, se acariciam ou guerreiam, de modo que uma entidade não esbarra num sistema único de sentido, mas em entidades distintas, e o mundo não é apenas uno, mas também múltiplo, feito de peças que se projetam além de si e perdem sua identidade num contexto cósmico, mas também de pontos terminais, vizinhanças fechadas que conservam sua identidade local apesar dos sistemas mais amplos em que se integram parcialmente, e como a única proteção contra a hegemonia do para-quê é o em-vista-de, o desejo heideggeriano de usar esses termos para distinguir o inanimado do humano permanece irrealizado, já que ambas as estruturas se encontram em igual medida em todas as entidades.

29. A descrição heideggeriana do em-vista-de nunca alcança traços especificamente humanos, senão de modo vagamente literário, mas faz emergir um contraste profundo entre a maquinaria global do mundo e os territórios específicos que nele irrompem, resistindo ao império único da força unificada e libertando o mundo numa coleção de martelos, janelas e folhas de grama específicos, e ainda que só o Dasein possa estar plenamente consciente dessas entidades, nenhum humano precisa existir para que o biombo de papel resista à poeira ou pereça no fogo, envolvendo-se em relações com entidades específicas e não com o mundo como um todo, já que havia territórios e governos locais no mundo muito antes do surgimento humano e os preconceitos cotidianos sobre a cisão entre humano e inumano não têm peso ontológico algum, de modo que todos os objetos têm o estatuto de ser-no-mundo, apesar das declarações explícitas de Heidegger em contrário.

30. A tão discutida prioridade do futuro em Ser e tempo nada tem a ver com preferência por uma dimensão temporal nem com superestimação da liberdade humana diante do retraimento do ser, mas é uma estratégia poderosa para mostrar as inúmeras camadas de projeção recíproca que determinam a realidade de toda entidade e minar toda mera presença, na esfera humana e até no nível de pingentes de gelo, trigo e moedas, tese inicial sobre o ser-ferramenta não mais extravagante que outras teorias monádicas da história da filosofia, que tem atrás de si todo o peso da análise heideggeriana e extrai sua energia não de um impulso cosmológico crédulo, mas da altura dos tempos.

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