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harman:2002:1

1 Reino invisível

HARMAN, Graham. Tool-Being: Heidegger and the Metaphysics of Objects. Chicago: Open Court, 2002.

§1. O reino invisível

1. A famosa análise heideggeriana do utensílio, uma das passagens mais citadas de Ser e tempo e conhecida até pelos leitores mais casuais, tem sido sistematicamente deslocada do centro temático dos estudos heideggerianos, tratada historicamente como reelaboração da práxis aristotélica, louvada biograficamente como fenomenologia de um aluno que superou o mestre ou vista evolutivamente como prenúncio da crítica tardia da técnica, abordagens que a respeitam mas apenas de passagem, a caminho de temas mais prestigiosos, como a relação com a história ou os problemas mais remotos e complicados dos escritos de Heidegger.

2. Contra essas tendências, sustenta-se a posição mais extrema de que a teoria do utensílio contém toda a filosofia heideggeriana, com todas as suas intuições centrais e os caminhos mais promissores para além delas, nada tendo a ver com pragmatismo ou com qualquer teoria da ação humana, mas exigindo uma investigação implacável da estrutura dos próprios objetos, mais longe do que o próprio Heidegger endossaria.

3. O método de interpretação não visa reconstruir a compreensão heideggeriana da análise da ferramenta nem revelar uma doutrina esotérica contra intérpretes anteriores, já que Heidegger provavelmente abominaria boa parte das conclusões, mas compreender melhor o conceito de ser-ferramenta, termo ausente de seus escritos e cunhado em tom de brincadeira por um amigo para designar o domínio do tema da Zuhandenheit nessa leitura, brincadeira mais acertada do que se supunha, pois a análise do utensílio dá a resposta preliminar à pergunta pelo sentido do ser, que é o ser-ferramenta, e o futuro próximo da filosofia pode depender da exploração dessa intuição.

4. A identificação do ser com o ser-ferramenta choca porque a análise parece tratar de uma classe específica de utensílios, enquanto o ser estaria retraído de todo ente específico e acessível apenas pela análise do ser humano, mas o argumento é simples e decisivo, pois Heidegger coloca a questão do ser atacando ferozmente toda forma de Vorhandenheit, fenomenologicamente pela análise da ferramenta, retoricamente pelo uso repetido de mero contra os argumentos ônticos e historicamente pela tese de que a presença dominou a metafísica, e a alternativa, pouco desenvolvida mas nada vaga, é o ser-ferramenta, aquilo que resiste à redução à presença, exercendo seu efeito dinâmico no cosmos e sempre em parte retraído de tudo o que se possa dizer dele.

5. Toda grande intuição filosófica é acompanhada de um grande erro, e o de Heidegger está no pressuposto pós-kantiano de que a reflexão sobre o ser humano é a chave da passagem a uma perspectiva filosófica, como se o uso humano desse profundidade ontológica aos objetos e os libertasse da servidão de meros blocos de matéria física, quando os objetos mesmos já são mais que presença, e o jogo de poeira, blocos de concreto e raios de sol é tão assombrado pelo drama da presença e do retraimento quanto a linguagem ou os humores humanos, de modo que a filosofia deve sair do gueto textual e linguístico e voltar ao drama das coisas mesmas, já que a crítica da Vorhandenheit não encerra a metafísica, mas a revive, numa metafísica muito diferente da criticada por Heidegger, porque nem a matéria física pode ser tida por pura massa presente.

6. Ser fiel aos contornos do ser-ferramenta exige muitas vezes abandonar as opiniões explícitas de Heidegger, cujas citações não são apelos à autoridade e não devem ser contestadas por apelos semelhantes, servindo apenas, como os nomes de rios e monumentos nos mapas, para não perder de vista a paisagem, pois não há obrigação de seguir a compreensão de Heidegger mais do que de refazer o itinerário de Lewis e Clark ao dirigir de St. Louis a Portland, já que a grandeza histórica de exploradores, inventores ou filósofos não garante que tenham esgotado seu próprio objeto.

7. A repetição dos argumentos, maior que o habitual em livros de filosofia, segue a máxima pedagógica de que um tema se aprende melhor apresentado seis vezes de seis modos e responde a um fato perturbador sobre a leitura em campos técnicos, pois qualquer especialista lista facilmente seus cinco artigos favoritos, mas dificilmente reproduz o argumento exato de cada um, já que até os melhores escritos acadêmicos apresentam argumentos logo esquecidos ou compostos de tantos passos que os leitores aproveitam o que querem e ignoram ou deturpam o resto.

8. Em contraste, conhecem-se muito melhor os marcos do próprio bairro, os restaurantes e bares de um fim de semana memorável ou a ordem das músicas de um disco favorito, e a geografia física da vida será sempre mais conhecida que a obra de qualquer filósofo, não porque a filosofia seja mais difícil que a vida cotidiana, mas porque argumentos e citações são formas secundárias de prova e por isso facilmente esquecidas.

9. O melhor modelo de comunicação com o leitor não é a perícia árida do senhor universitário, mas o tato com que se guia um visitante recém-chegado pelas ruas de Iowa City ou Leipzig, passeio que só funciona repetido na manhã seguinte e talvez mais vezes, voltando aos mesmos cafés e paradas de bonde até que o visitante se oriente sozinho, pois só um anfitrião grosseiro e pomposo daria as indicações uma única vez e se irritaria com o esquecimento do hóspede, e o mesmo vale para os temas técnicos.

10. O método do capítulo é fenomenológico e não histórico ou expositivo, explorando repetida e exaustivamente um único conceito, o ser-ferramenta, em vez de multiplicar afirmações tiradas ao acaso da literatura primária e secundária, e se ao fim um leitor de mente aberta não perceber a importância desse conceito, a culpa será da exposição.

11. A descrição heideggeriana da Zuhandenheit, tão conhecida que toda paráfrase se torna tediosa, mostra que os seres humanos não encontram habitualmente os entes como objetos visíveis e discretos, substâncias presentes, mas os usam, contando com eles de modo não temático, como implementos tomados por certos que formam o vasto pano de fundo da fina e volátil camada das atividades explícitas, de modo que até os debates mais sutis de um laboratório dependem de um leito silencioso de assoalhos, parafusos, ventiladores, gravidade e oxigênio, raramente notados, sobretudo em casos de mau funcionamento, enquanto a atenção se fixa no plano luminoso das esperanças e lutas manifestas.

12. Assim, os entes não são encontrados como agregados de massa física natural, mas como funções ou efeitos com que se conta, não como vidraça, mas como sala bem iluminada, não como seções de cimento, mas como superfície caminhável, de modo que as ferramentas, em regra à mão e não presentes, operam sua magia sobre a realidade sem entrar na consciência, sempre em ação, construindo a cada instante o hábitat em que se move a consciência explícita.

13. A ênfase no trabalho ou efeito executado pelas próprias ferramentas visa combater o erro quase universal de supor que a teoria do utensílio trata sobretudo dos seres humanos e conduz a uma filosofia prática, pois, se o poder libertador da teoria está em subverter o domínio da Vorhandenheit, é falso o pressuposto, muitas vezes encorajado pelo próprio Heidegger, de que a existência humana é o herói que liberta os entes da presença, o que dá ao Dasein o papel principal e preserva a crença de que o mundo se compõe de objetos físicos neutros, movidos ou coloridos por pontos de vista humanos, tese esmagada desde o primeiro passo da análise, já que a presença não descreve adequadamente o ser de nenhum ente, pessoa, martelo, lustre ou inseto.

14. Contra uma leitura difundida, a análise da ferramenta não critica a noção de objetos independentes em favor de um reino subjetivo de engenhocas ou signos, nem introduz o Dasein para maltratar a noção de um mundo em si, pois não é o uso humano das ferramentas que ameaça a Vorhandenheit, ao contrário, só quando o utensílio entra na consciência humana sua execução velada se oculta atrás de uma configuração presente, e os objetos mesmos, longe de massas físicas insípidas, já ardem de ambiguidade, atravessados por vibrações e insurreições iguais às dos humores humanos mais torturados, de modo que não só o Dasein é irredutível às categorias tradicionais, e os objetos inanimados não são torrões manipuláveis deixados à ciência positiva, mas planetas desconhecidos que a ontologia deve colonizar com sondas e instrumentos sísmicos ainda não inventados.

15. A volumosa história do ser de Heidegger serviu de justificativa para a explosão de estudos históricos entre seus seguidores, enquanto suas intuições promissoras sobre a estrutura das coisas quase não foram desenvolvidas, e contra os apelos crescentes à consciência histórica convém tentar o caminho oposto, falando menos de Heidegger e os gregos e mais de jarros e obras de arte, oceanos, diamantes e terremotos, menos do dispositivo da técnica e mais de metrôs e radiotelescópios, menos do lance de dados como imagem literária vanguardista e mais dos próprios dados, caça-níqueis, cartas, fogos de artifício, gafanhotos, raios de luar e madeira.

16. Esse caminho começou há muito com o célebre retorno de Husserl às coisas mesmas, e as críticas definitivas de Heidegger ao mestre não obrigam a trocar as coisas pela linguagem ou pela história da filosofia, já que Heidegger, longe de abandonar os objetos, os recoloca no centro da filosofia ao descobrir o ser-ferramenta, transformando-os de fenômenos em eventos utensiliares, teoria que não é abandonada pelo Heidegger tardio, mas remodelada no tema esquecido da quadratura, de modo que, ao desenvolver a descrição das ferramentas numa teoria dos quadrantes da realidade, Heidegger fornece os elementos iniciais de uma filosofia orientada a objetos, cujo catálogo bruto cabe resumir e ampliar.

17. O resultado decisivo da análise das ferramentas não é a tese trivial de que o utensílio se torna invisível ao servir a propósitos humanos remotos, pois a transformação ocorre do lado das ferramentas, que não são eficazes porque as pessoas as usam, mas só podem ser usadas porque são capazes de um efeito, de desferir um golpe na realidade, de modo que a ferramenta não é usada, ela é, e os entes formam a cada instante uma paisagem determinada de possibilidades e obstáculos, estando à mão não no sentido derivado de manipuláveis, mas no sentido primário de em ação, como um sol invisível que irradia energias antes de vir à vista, num mundo que é infraestrutura de utensílios já em operação, de seres-ferramenta que desencadeiam suas forças sobre os humanos tão selvagem ou sedutoramente quanto duelam entre si, a maioria desconhecida e não inventada pelos humanos, como cérebros e células sanguíneas, nas quais se apoia silenciosamente, o que conduz não a uma filosofia prática nem a um pragmatismo, mas a uma teoria das pragmata, das próprias ferramentas.

18. O tema inteiro são as ferramentas mesmas, que não devem ser entendidas como massa material sólida ou átomo em presença óbvia, como mostra o exemplo de uma ponte, cuja realidade não está no amálgama de asfalto e cabos, mas no fato geográfico de desfiladeiro transponível, pois a ponte é um efeito-ponte, uma força que gera um mundo no qual o cânion já não é obstáculo, e isso não se restringe às ferramentas de origem humana, valendo também para formações terrestres que oferecem rotas de caravanas ou contêm o mar, de modo que o mundo é a cada instante uma geografia de objetos, feitos dos plásticos mais recentes ou nascidos na aurora dos tempos.

19. O verdadeiro cenário do ser-ferramenta é o utensílio como agente inteiramente desdobrado na realidade, impacto irredutível a qualquer lista de propriedades tabulada por um observador, cujo primeiro traço é a invisibilidade, já que quanto mais eficazmente funciona mais se retrai, mas isso deve ser compreendido com rigor, não como anedota empírica de que o utensílio é invisível enquanto funciona bem, sujeita a contraexemplos fáceis, e sim como abismo eterno entre o utensílio e seu ser-ferramenta, reinos incomensuráveis e sem interseção, pois a função ou ação da ferramenta é absolutamente invisível mesmo que o martelo nunca saia da vista, e nem contemplar nem teorizar um objeto arranca seu ser do ocultamento.

20. À objeção de que a ferramenta só é invisível sob certo aspecto, já que uma mesa não desaparece ao sustentar pratos e maçãs, cabe responder que ela pressupõe de novo a mesa como objeto natural com partes visíveis e invisíveis, quando não são as flutuações da atenção humana que decidem a invisibilidade do utensílio à mão, sendo supérfluo e até incorreto dizer que ele é invisível na maior parte das vezes, pois o que é visível da mesa nunca é seu ser-ferramenta, e por mais que se medite sobre seu ato de sustentar pesos, qualquer intuição obtida será sempre distinta desse próprio ato.

21. A ferramenta existe executando-se e só derivadamente pode ser discutida, de modo que toda tentativa de captar sua execução oculta fica sempre atrás, sem olhar capaz de apreendê-la, apesar das alegações de Heidegger, pois todo aspecto da mesa que se representa já é presente, situado na dimensão das aparições de superfície que a análise das ferramentas nasceu para minar, donde duas faces do utensílio, sua atividade irredutivelmente velada e seu perfil sensível e explorável, a ferramenta vista ontologicamente e onticamente, mundos que por ora só se relacionam como primário e não primário, até o exame da tentativa heideggeriana de ligá-los pela estrutura do como, devendo por enquanto ser desenvolvidos isoladamente.

22. O traço seguinte do utensílio é a totalidade, pois a ferramenta nunca se encontra isolada, mas pertence a um sistema, a ponto de que, a rigor, não há um utensílio, e sim sempre uma totalidade de utensílios na qual cada um pode ser o que é, ponto que não se reduz à observação superficial de que os utensílios aparecem junto a itens relacionados, facilmente refutável por contraexemplos, mas significa que no plano do estar à mão a ideia de uma ferramenta única repousando em seu efeito solitário é insustentável, já que o utensílio individual se dissolve num império global de ferramentas.

23. Parafusos e fios isolados têm realidade mínima, mas combinados a milhares de peças formam o utensílio visível chamado ponte, e realocados como sucata ou partes de uma bomba produziriam estados de coisas totalmente diversos, de modo que sua realidade difere em cada caso, e embora se saiba onticamente que os utensílios têm partes substanciais duradouras e separáveis, não há ainda modo legítimo de importar esse fato para a ontologia de Heidegger, na qual não há peças individuais com personalidade própria, mas máquinas totalitárias que escravizaram suas peças em nome de uma realidade mais abrangente, sendo parafuso e fio o que são apenas no sistema que ocupam, cujo ser se engole no quadro maior da ponte.

24. A ponte, por sua vez, não é uma finalidade atômica e evidente, mas funciona de muitos modos utensiliares, arrastada para inúmeros sistemas maiores, pois em geral executa um plano oficial de eficiência, poupando dez minutos de viagem, mas em certas regiões, separando facções hostis, é vigiada por franco-atiradores, pode ser lugar de uma conversa decisiva, de um suicídio na família ou de uma insônia inquieta, objeto de estudo de críticos de arquitetura ou de sabotagem de vândalos, e assume aspectos totalmente diversos na vida de gaivotas e insetos.

25. Não se trata de afirmar que objetos independentes significam coisas diferentes conforme o contexto, o que seria recair no erro naturalista, mas de reconhecer que a cada momento toda ferramenta está ligada a certos sistemas limitados e excluída de outros, de modo que para Heidegger o utensílio é seu contexto, contexto múltiplo, já que pássaro e franco-atirador encontram a ponte como realidades diversas no mesmo instante, e cada implemento exerce a cada instante um leque determinado e limitado de efeitos e é determinado pelos utensílios que o cercam, gerando um mundo particular de forças, ainda que espelhado em inúmeras perspectivas, a ponto de até um caco de metal insignificante executar ao menos o efeito de inofensividade e, colocado alhures, causar doença se ingerido ou arruinar um motor.

26. A totalidade dos utensílios significa que cada ferramenta ocupa uma posição específica no sistema de forças que constitui o mundo, ou antes que a totalidade dos utensílios é o mundo, não como soma de engrenagens ônticas nem como horizonte vazio, mas como execução unitária na qual todo o domínio ôntico já se dissolveu, sem que se possa pressupor a ferramenta como unidade impenetrável e autossuficiente que muda de contexto, o que implicaria uma teoria da substância independente das relações, alheia a Heidegger e aos grandes pensadores do século XX, todos teóricos relacionais da realidade, teoria que já cumpriu sua missão histórica e agora pesa com seus excessos, de modo que uma teoria da substância renascerá das cinzas da crítica heideggeriana, embora para Heidegger a ferramenta em seu trabalho pertença a um sistema-mundo que engoliu todos os componentes individuais num único efeito-mundo, reino invisível do qual emerge a estrutura visível do universo.

27. A inversão entre ferramenta oculta e ferramenta visível, isto é, quebrada, é o único tema desenvolvido em toda a obra de Heidegger, e sua descoberta no interior do ser-ferramenta exige o abandono das filosofias linguísticas e textuais ainda dominantes em favor de uma pesquisa nova e concreta dos contornos secretos dos objetos.

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