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Religião da Arte

GODWIN, Joscelyn. The Golden Thread: The Ageless Wisdom of the Western Mystery Traditions. Newburyport: Quest Books, 2014.

  • A noção de religião da arte surge como resposta histórica ao vazio espiritual deixado pelo declínio do cristianismo católico enquanto forma religiosa total.
    • Os movimentos esotéricos modernos ofereceram experiências espirituais autênticas, mas restritas a minorias.
    • Faltava-lhes uma dimensão exotérica capaz de alcançar a totalidade do corpo social.
    • A religião da arte aparece como tentativa de preencher esse vazio em escala cultural ampla.
  • O desaparecimento de figuras espirituais integradas à vida institucional marca uma ruptura decisiva.
    • Na Idade Média, altos níveis de realização espiritual coexistiam com funções políticas, intelectuais e sociais.
    • Santos, místicos, teólogos e construtores encarnavam uma síntese viva entre esoterismo e exoterismo.
    • A perda dessa síntese contribuiu para o empobrecimento da experiência religiosa comum.
  • O conceito de entusiasmo sofre uma degradação semântica significativa.
    • Originalmente designava a possessão divina.
    • No século XVIII passa a significar excesso emocional ou desvio irracional.
    • A experiência espiritual torna-se socialmente suspeita e intelectualmente desconfortável.
  • A arte torna-se o novo espaço de acolhimento do entusiasmo excluído da religião institucional.
    • O Romantismo representa essa transposição.
    • A experiência do sagrado migra para o domínio estético.
    • A arte assume funções antes desempenhadas pela religião.
  • A subjetividade é elevada a condição fundamental do caminho interior.
    • A atenção aos processos internos inaugura a possibilidade de autoconhecimento.
    • Embora arriscando o narcisismo, ela contém a semente da via esotérica.
    • A interioridade passa a ser fonte legítima de sentido.
  • A imaginação é reabilitada como faculdade cognitiva superior.
    • Não se confunde com fantasia arbitrária.
    • Permite o acesso a níveis imateriais porém reais do ser.
    • Opera por símbolos dotados de eficácia formativa.
  • A experiência do sublime introduz uma consciência cósmica.
    • Fenômenos naturais extremos suspendem o cotidiano.
    • O sujeito é confrontado com sua pequenez e sua grandeza potencial.
    • Surge a intuição de uma dimensão transcendente do ser humano.
  • A natureza é concebida como viva e animada.
    • Essa concepção corrige tanto o ascetismo antinatural quanto o mecanicismo iluminista.
    • O panteísmo romântico afirma a presença do divino na natureza.
    • Contudo, o esoterismo exige uma dimensão metafísica além da mera imanência física.
  • O medievalismo romântico expressa uma intuição de unidade perdida.
    • A Idade Média é idealizada como época de integração espiritual.
    • Igreja, império e ethos cavaleiresco formariam uma totalidade coerente.
    • A fantasia histórica revela uma carência real de unidade simbólica.
  • O romantismo reage ao classicismo educativo esvaziado.
    • A cultura clássica tornou-se formalismo social.
    • Tradições nacionais e populares foram reprimidas.
    • O romantismo reabre o acesso às fontes míticas e simbólicas próprias.
  • A relação entre romantismo, nacionalismo e esoterismo revela uma dimensão enraizada da espiritualidade.
    • Cada povo possui uma mitologia e uma espiritualidade próprias.
    • A perda dessas raízes empobrece a experiência simbólica.
    • Sociedades coloniais sofrem particularmente essa ruptura de continuidade.
  • As artes românticas privilegiam o domínio auditivo.
    • A audição conduz à interioridade, diferentemente da visão.
    • A linguagem poética gera imagens internas apropriadas pelo sujeito.
    • A arte sonora favorece estados de consciência profundos.
  • A poesia atua como formação durável da alma.
    • Sua fixidez linguística e rítmica inscreve-se na memória.
    • Certos versos tornam-se estruturas interiores permanentes.
    • A poesia condensa visões de mundo completas.
  • O romance assume papel decisivo na difusão espiritual.
    • Cria universos imaginais alternativos.
    • Forma a sensibilidade de amplos setores da sociedade.
    • Resiste à dissolução modernista da forma e do sentido.
  • A música absoluta atinge o ponto mais elevado da religião da arte.
    • Ela independe de palavras e imagens.
    • Transporta o ouvinte a um modo de ser distinto.
    • Opera como acesso direto ao mundus imaginalis.
  • O compositor romântico reivindica estatuto profético.
    • A música exige devoção e atenção.
    • O artista é visto como inspirado por uma fonte transcendente.
    • O ouvinte torna-se participante de uma experiência quase ritual.
  • A religião da arte culmina na obra wagneriana.
    • O drama musical pretende sintetizar todas as artes.
    • O teatro torna-se espaço sagrado.
    • A arte assume missão redentora da civilização.
  • O conteúdo das obras de Wagner exprime uma visão escatológica.
    • Queda dos deuses, ascensão humana, fim de um ciclo.
    • A salvação aparece apenas através do amor.
    • O sacrifício do eu substitui a promessa de plenitude mundana.
  • A religião da arte apresenta limites estruturais.
    • Falta-lhe comunidade viva.
    • Carece de sentido pleno do sagrado.
    • Corre o risco de degenerar em consumo estético.
  • Apesar disso, o melhor do romantismo ultrapassa o esteticismo.
    • Ele realiza filosofia por meio da beleza.
    • Atualiza a intuição platônica do Eros como força cognitiva.
    • A arte torna-se via legítima de acesso ao sentido do ser.
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