1 Contornos
GIL, Fernando. Traité de l’évidence. Grenoble: J. Millon, 1992.
1. Ao lado de verdade, evidência é o termo filosófico mais enraizado na linguagem cotidiana, designando uma verdade redobrada que dispensa prova e que, por atravessar todo o pensamento da verdade, se torna indispensável para enunciar e estruturar a experiência do mundo e de si.
2. O predicado “é evidente” só convém a juízos sobre algo atual ou intemporal, jamais a promessas, dúvidas, opiniões ou estados de coisas futuros, e um juízo sobre o passado só se torna evidente quando a evidência atual remete a ele como sua referência.
3. Aquilo cuja evidência se declara expressamente costuma ser não um evento ou uma coisa, cuja existência é evidente demais para ser proclamada, mas uma relação de antecedente a consequente, de ordem ou de causa a efeito, ambiguidade que reaparece nas incertezas sobre se o cogito deriva de uma inferência ou de uma experiência direta.
4. Distinguem-se assim pelo menos duas intuições da evidência, uma de existência e outra lógica, que se revela apreensão de uma identidade, sendo esta marcada explicitamente pela linguagem, enquanto aquela, viva e presente, se indica pela ausência de marca.
5. “É evidente” pertence à família dos indicadores epistêmicos, que exprimem a atitude do locutor quanto ao valor de verdade de uma proposição e se dispõem num contínuo do patente ao improvável, percurso de expectativas mais ou menos satisfeitas em que o preenchimento de uma expectativa surge como eixo conceitual da evidência.
6. Os repertórios linguísticos das atitudes epistêmicas formam sistema com a gramática do verbo, os dêiticos, os pronomes e os advérbios, de modo que a evidência filosófica, index sui et veri, já se aloja na língua e se constrói sobre o sistema percepção-linguagem.
7. A única questão em causa é o estranho gesto pelo qual discursos, ritos, profecias, provas judiciais, demonstrações ou estruturas transcendentais se põem como verdadeiros sem prova e independentemente da vontade, cabendo distinguir suas figuras e ater-se à estrutura da evidência, tendo por tema a evidência lógica, sua modalidade domesticada.
8. Diferentemente da prova, a evidência não remete a dispositivos de avaliação exteriores, mas se lê em signos indubitáveis nos quais procedimentos e decisões se condensam, constituindo um autotestemunho patente e imediatamente esclarecedor de um conhecimento verdadeiro e uma legitimação imanente dos juízos.
9. Uma intenção preenchida no modo da evidência dá a conhecer diretamente sua verdade, de sorte que indicação e preenchimento organizam a evidência, a primeira culminando na mostração da verdade e o segundo acompanhado de uma satisfação do espírito que, reunindo completude e apaziguamento, constitui uma inteligibilidade final.
10. Índice e preenchimento são as intuições-guia da evidência, impondo-se desde já as perguntas sobre como o signo se articula com a posse do objeto visado e como a satisfação do espírito se liga ao preenchimento, problemas que conduzem diretamente à inteligibilidade da evidência.
11. Para Husserl, único pensador a desenvolver em profundidade uma doutrina da evidência, esta significa adequação e apoditicidade, ligando-se a apoditicidade ao signo e a satisfação do espírito à adequação, entendida como evidência idealmente perfeita em que cada elemento do sentido visado é preenchido pelos componentes da própria coisa.
12. A questão se complica porque, ao contrário dos medievais, dos cartesianos e de Kant, Husserl não toma a evidência como dado imediato e vê na presunção de uma adesão intrinsecamente verídica ao objeto a raiz de implícitos culturais e do psicologismo, embora o próprio preenchimento tenha suas armadilhas.
13. Husserl recusa todo sentimento de evidência tratado como index veri dotado de propriedades místicas, ilusão forjada por teorias que nem um Deus absoluto poderia converter em garantia de verdade objetiva, exigindo que a evidência dada se justifique também como evidência em vez de repousar no contentamento do conhecimento.
14. As coisas que vão de si, sedimentadas em hábitos e pressuposições jamais formuladas, conferem falso alcance até aos princípios lógicos, de modo que só uma crítica em ziguezague, ela mesma sempre submetida à crítica numa tarefa sem fim, permite passar da evidência presumida à evidência autêntica.
15. Daí resultam um primeiro conceito de verdade como justeza do juízo e uma evidência correlata, consciência originária de justeza que nasce da adequação atual sem se confundir com ela, de maneira que a justeza abre espaço para a indicialidade de uma verdade cujo teor é a adequação.
16. Através da crítica e pelo filtro da justeza emergem uma segunda verdade, entendida como realidade e adequação atual, e uma segunda evidência, que consiste na posse originária do próprio ser verdadeiro, traduzida diretamente pela adequação.
17. Husserl retoma a adaequatio rei et intellectus não como mero acordo de uma proposição com um estado de coisas exterior, mas como presença efetiva do objeto exatamente tal como visado, realizada pela percepção ideal, de modo que uma expectativa sustenta a proposição e a adequação recobre uma posse.
18. Embora o contentamento não seja a medida do preenchimento, o contentamento do conhecimento deve ser, para Husserl, tanto quanto possível absoluto, pois a evidência, graduável até a ideia-limite de adequação, condiciona a gradação correspondente do contentamento do esforço cognitivo, cujo ideal é o último contentamento.
19. Existe, portanto, um contentamento próprio da evidência, pedra de toque da adequação e telos regulador do conhecimento, que, longe de iluminação ou efusão, designa um afeto intelectual e constitui não um componente acidental, mas a ideia-limite da evidência como posse plena da coisa visada.
20. Se o vínculo entre contentamento e preenchimento é intuitivo, a ligação da apoditicidade ao signo o é menos, pois a apoditicidade é uma consciência da necessidade que exclui o ser-outro, as possibilidades abertas, a certeza presuntiva, o não-ser e o ser duvidoso.
21. No terreno da necessidade intelectual, a apoditicidade amarra o espírito, incapaz de representar alternativa, e adequação e apoditicidade, equivalentes e recíprocas, são duas maneiras de exprimir a posse da coisa, podendo-se preferir uma ou outra conforme o valor atribuído a cada qual.
22. Apesar dessa unidade, a adequação acentua a presença preenchedora da entidade visada e manifesta o ancoramento ontológico da evidência, enquanto a apoditicidade, ápice da justeza, designa seu versante epistemológico e, aos olhos do cientista, prevalece por concernir à certeza absoluta dos princípios.
23. A apoditicidade se dá a conhecer num ver apodítico, numa visão intelectual, e como só se vê o que se deixa ver, ela constitui o signo da evidência, o modo como a necessidade comparece diante do espírito, a ponto de, na percepção, ser impossível sequer imaginar que o visto não seja ou seja outro.
24. Por se manifestar, a apoditicidade torna visível também a adequação, mas não o inverso, pois ter a coisa sob o próprio domínio exige ainda a prova de que toda suposição de não-ser ou de ser duvidoso é nula, sendo a intuição que preside a adequação o preenchimento material, ligado às metáforas de conteúdo e continente mais do que às da luz.
25. A verdade da evidência não se reduz à concordância de sujeito e predicado, mas decorre da aparição integral do próprio objeto, num recobrimento por identificação entre dado e visado que faz da evidência uma personificação plenamente objetiva da verdade, a ponto de ninguém poder vivenciar como absurdo aquilo que outro vivencia como evidente.
26. Uma evidência que se realiza quase carnalmente e invade a consciência inteira exige exame, pois há em seu cerne um excesso tanto do ponto de vista da compreensão quanto da extensão.
27. Do ponto de vista da compreensão, a evidência define-se como autodoação em pessoa, razão pela qual pode fazer signo, e toda a sua questão se concentra no parágrafo 24 das Meditações cartesianas.
28. A evidência, fenômeno geral e primitivo, é a consciência peculiar da autoaparição, autoapresentação e autodoação de uma coisa, estado de coisas, generalidade ou valor no modo último do “em pessoa aí”, o que para o eu significa não visar confusamente por pré-visadas vazias, mas estar junto à própria coisa, contemplá-la e intuí-la.
29. Esse modo de ser em que coisa e eu se oferecem em pessoa é também o modelo originário do verdadeiro em geral, já que a autodoação da coisa constitui o grau ótimo de doação e o critério último pelo qual se verificam todos os juízos e intenções acerca do ser.
30. Não menos transbordante é a extensão da evidência, identificada por Husserl à intencionalidade como forma geral da consciência e modo universal que confere à vida consciente uma estrutura teleológica, sem que se explique como distinguir a evidência racional dessa evidência sem limites, cujo excesso e cuja retórica, porém, a definem propriamente.
31. Assim como o ponto de partida, o termo da investigação toca o mistério da autodoação, que, como observa Jean-Luc Marion, Husserl se contenta em nomear sem verdadeiramente pensar.
32. Husserl traçou, contudo, em Experiência e juízo o programa de uma genealogia fenomenológica da lógica destinada a deslindar os problemas da evidência, jamais seriamente tomados como problemas pela tradição, que julgava saber de antemão o que ela é.
33. A doação remonta ao juízo de experiência antepredicativo, cepa primordial da evidência, que abre uma reconstituição transcendental da doação dos objetos em sua ipseidade e é atravessado por uma crença capaz de ampliar o conceito de juízo, abordável por uma reformulação do belief humeano.
34. Aquém do juízo predicativo, o juízo de experiência repousa sobre uma fé primordial na existência, a protodoxa ou crença-mãe à qual remetem todas as modalidades de crença, e que consiste na fé perceptiva que põe pré-reflexivamente o mundo como solo universal de crença passiva pressuposto por todo conhecimento.
35. Esse solo, que ressoa em cada juízo, constitui um limite insuperável, a fonte mais profunda para esclarecer a universalidade da ordem lógica e do juízo predicativo.
36. A evidência enxerta-se na crença e dela retira seus traços e seu conteúdo, mas a protodoxa, apesar de sua força irresistível, permanece enigmática e foi tomada pela fenomenologia como dado último, de modo que prosseguir o programa husserliano numa gênese transcendental e antropológica exige remontar a uma Ur-Urglaube anterior a ela.
37. A percepção permanece a forma princeps e o fundo das versões racionais da evidência, cuja inteligibilidade, expressa em noções como ostensão e intuição, se assenta nos sentidos e intensifica uma experiência do mundo produzida conjuntamente pelos sentidos e pela linguagem que a enuncia.
38. Embora a visão pareça o lugar natural da evidência, como atestam a luz natural cartesiana e o ver apodítico husserliano, a evidência mobiliza todo o sistema dos sentidos e ainda materiais de outra ordem, cujas dimensões se desenham em passagens de Malebranche.
39. Para Malebranche, Deus nunca engana quem o interroga com aplicação séria e conversão inteira do espírito, enquanto o espírito que dele se desvia e se espalha para fora necessariamente se engana, sendo a atenção apenas o retorno e a conversão a Deus, único Mestre.
40. A alma não vê os objetos por si mesmos, mas por ideias, objeto imediato e mais próximo do espírito que o toca e modifica, e o entendimento nada faz senão receber a luz das ideias pela união necessária com aquele que encerra todos os seres.
41. Só Deus faz ver com evidência, sendo preciso entrar em si mesmo, aproximar-se do Mestre interior cuja voz é tão forte quanto distinta e cuja luz é tão viva quanto pura, interrogá-lo, escutá-lo e obedecer-lhe para nunca ser enganado.
42. Dessas passagens depreendem-se três eixos.
43. O primeiro eixo compreende as metáforas da orientação, nas quais o retorno a si, a aproximação de Deus, o afastamento do mundo e a conversão do olhar são condições absolutas da atenção e, portanto, da evidência.
44. As metáforas do tato e da visão fazem da aproximação uma imediatidade, uma união íntima e um contato que é também captação da luz, de modo que a metafísica da luz e a visão em Deus são retomadas pelas metáforas do contato pelo qual o entendimento se ilumina.
45. Nas metáforas da audição, a verdade, primeiro aproximada e depois vista em plena luz, certifica-se pela palavra do Mestre interior, de cuja voz e luz as trevas das paixões afastam.
46. O segundo eixo envolve o ativo e o passivo, a busca e a interrogação, pois a aplicação séria designa o querer atento que institui a evidência ao termo de uma procura cuja metáfora é a prece natural e o desejo, o amor atual da verdade que obtém sua visão.
47. O terceiro eixo é a pureza, a vivacidade e o brilho que protegem a evidência do erro, sendo sua força oriunda de uma necessidade interna que em todas as circunstâncias comanda a obediência.
48. Delimitam-se assim a referência sensorial e linguística da evidência, o desejo e uma força resplandecente, sob a hipótese de que o brilho e o efeito de verdade da evidência resultam da aplicação do desejo, função de intensificação, ligação e transformação, sobre essa referência, convertendo uma experiência do mundo numa inteligibilidade patente e numa submissão feliz reunida num afeto intelectual.
49. A determinação dos fatores linguísticos e sensoriais cabe aos capítulos III a VII, e a das operações da evidência, ao capítulo VIII.
50. Desdobrada como imposição e signo da verdade, apoditicidade, adequação e satisfação do espírito, a evidência apela a subestruturas, pois o sistema percepção-linguagem e a esfera antepredicativa encerram uma intencionalidade arcaica anterior à protodoxa, e a evidência, incluindo o sentir da vida e do mundo, ordena-se a uma fé distinta da crença perceptiva, na qual o sentido é possuído.
51. O arcaísmo da evidência talvez explique sua onipresença, que transborda a intencionalidade da consciência e aflora fora do discurso filosófico em traços que lembram a regressão freudiana formal, tópica e temporal: modos primitivos de expressão substituem a discursividade, a avaliação é interna ao conteúdo e persiste uma herança arcaica da pré-história do espírito humano.
52. Em vez de denunciar na evidência uma fantasmagoria paradoxal, convém considerá-la visada constitutiva do pensamento, talvez seu elemento natal, sendo a presença ao mesmo tempo sua distorção e confirmação, o que torna vão reduzi-la a engodo em nome de uma crítica da metafísica, já que, segundo Wittgenstein, ela participa do modo de pensar, dizer a verdade e errar próprio da espécie humana.
53. A ilusão transcendental das filosofias da evidência consiste em conferir títulos da mais alta verdade a um modo de apreensão nem verdadeiro nem falso em si, ao passo que a insuficiência de suas críticas vem de esquecer que essa evidência estrutura, ainda assim, a relação com a verdade, de modo que recusar-lhe veridicidade interna não implica agnosticismo.
54. Compreende-se então melhor que Husserl sustente simultaneamente a evidência como autodoação em pessoa e como processo gradual sem fim, pois, sendo forma estrutural apriorística da consciência e modo universal da intencionalidade, sua profundidade autentica de antemão uma marcha infinita, inflexão do sonho de uma inteligibilidade uno intuitu para além da indução e da prova.
55. Em seu sentido muito amplo, a evidência reside na doação ou posse das próprias coisas e não precisa assumir a forma de um ato específico do eu, como mostra a constituição legal e contínua dos dados temporais imanentes, abrindo-se a outras significações igualmente independentes do eu.
56. A evidência não é apanágio da modernidade das filosofias do sujeito, pois um núcleo estável persiste ao longo dos séculos, de Cícero e Quintiliano a Ockham e ao direito medieval, ou na cognitio intuitiva de Duns Scot, como modo de apreender e de experimentar a apreensão que comporta um registro semiótico e um registro energético.
57. As denominações e os conteúdos desses registros variam conforme as teorias e os domínios, sendo a evidência do rito ou da profecia conceitualmente menos exigente que a filosófica, como mostra a evidentia judiciária, definida pelo notório, que para Ockham só é evidente quando acompanhado do conhecimento intuitivo.
58. Na linguagem dos filósofos, conceitual e metafórico mal se distinguem, pois a evidência reconstrói um sensível que permanece sua referência constitutiva e se situa a montante das grandes clivagens do pensamento filosófico.
59. A noção de transposição e de metáfora repousa sobre a separação entre sensível e não sensível como domínios subsistentes por si, distinção que constitui traço fundamental da metafísica e confere ao pensamento ocidental seus traços essenciais.
60. Tomar ao pé da letra o discurso da evidência permite circunscrevê-lo, ainda que ao preço de negligenciar a dependência histórica das teorias em relação a seus contextos e de aproximar filósofos de épocas diversas a partir de um corpus restrito, com omissões como a de Brentano.
61. As filosofias são convocadas não pelo estudo de seus sistemas, mas segundo uma distribuição própria dos componentes da evidência, sendo notável que, embora cada uma tenha sua via privilegiada, a estrutura de conjunto da evidência permaneça idêntica.
62. O arcaísmo da evidência a mescla a sistemas de crenças e práticas dos quais participa, e aquilo que Marc Augé chama de lógica pagã recobre em parte a evidência filosófica.
63. Magia, feitiçaria, culto e mito se exercem numa presença sem horizonte em que tudo é visível e o universo é pleno, de modo que a inadequação se reduz a falha técnica ou infelicidade, nunca a falta de sentido, e a evidência, como a palavra selvagem, é performativa e se institui como discurso de autoridade.
64. A evidência revela-se o modo espontâneo do discurso das sociedades que identificam eficácia e significação na imanência, já que, na religião pagã definida por força e imanência, a relação com os deuses e com os outros se lê no corpo e nos eventos coletivos, e a força reside no sentido inscrito no signo, índice do sagrado e fonte de eficácia simbólica.
