Para além de bem e mal
GIACOIA JUNIOR, Oswaldo. Nietzsche: O para além de bem e mal. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.
- Introdução
- Ideias principais
- Um interlúdio para a leveza e a graça
- “Para a história natural da moral”
- Da genealogia da moral à crítica da modernidade política
- A fecundidade dos antagonismos
- A transição para as novas tarefas
- A nova aristocracia do espírito
- Conclusão
Relevância da obra
1. Para além de bem e mal: Prelúdio de uma filosofia do futuro ocupa posição fundamental na trajetória filosófica de Nietzsche, pois sucede Assim falou Zaratustra, considerado pelo filósofo sua obra principal e que, como os escritos anteriores, constituiu completo fracasso editorial junto ao público e à crítica.
2. Nietzsche sentia-se incompreendido e injustiçado, sendo ainda confundido com movimentos culturais e políticos profundamente avessos ao essencial de seu pensamento, como o nacionalismo germânico, a estética e a política cultural de Richard Wagner e o denso antissemitismo vigente na Alemanha do final do século XIX.
3. Do ponto de vista filosófico, uma pesada cortina de silêncio ameaçava a mais ardente esperança de Nietzsche, a de oferecer uma alternativa à crise de pensamento que atingia todos os setores importantes da cultura europeia, tarefa associada à transvaloração de todos os valores.
4. A criação de novas referências de valor após o anúncio da morte de Deus, que assinala a perda de sentido e validade dos valores cardeais da cultura, exige ser precedida por uma crítica impiedosa dos valores vigentes na religião, na moral, na ciência e teoria do conhecimento, na arte, na filosofia e na política, razão pela qual Para além de bem e mal integra a filosofia teórica e prática de Nietzsche sem negligenciar sua estética.
5. Como resposta a essas dificuldades e necessidades, Para além de bem e mal expõe teoricamente os conceitos fundamentais apresentados de forma poética e dramática em Assim falou Zaratustra, sobretudo os conceitos centrais da filosofia madura de Nietzsche, vontade de poder e perspectivismo.
6. Ao empreender uma crítica radical da modernidade cultural em todos os seus aspectos relevantes e preparar as bases para a transvaloração de todos os valores, Para além de bem e mal cumpre tanto a tarefa crítico-destrutiva quanto a positivo-afirmativa que Nietzsche impusera a si mesmo.
7. Estilisticamente, Para além de bem e mal constitui um tour de force que combina aforismos, sequências de pequenos capítulos formando breves dissertações, sentenças curtas e certeiras e poesia, numa variedade formal e num virtuosismo exigidos pelo próprio conteúdo filosófico.
8. Em estreita conexão com o estilo aforístico, a filosofia apresenta-se de modo exemplarmente claro como experimento do pensamento, cujo êxito requer tanto rigor metodológico e penetração analítica quanto ironia, paródia, caricatura, humor e leveza.
9. A mútua recorrência entre forma e conteúdo e a importância estratégica dos procedimentos retóricos para a sustentação da argumentação justificam integrar a tradução dos aforismos à própria apresentação dos argumentos, em vez de reuni-la em seção separada.
10. Situado entre Zaratustra e Para a genealogia da moral, Para além de bem e mal é um texto privilegiado, pois reúne, condensa e explicita o que já fora pensado, amadurece o que se encontrava em estado germinal e, como prelúdio, antecipa diretrizes e posições que só nos derradeiros escritos, como O Anticristo, receberão formulação mais incisiva.
Introdução
1. Para além de bem e mal insere-se no programa filosófico da transvaloração de todos os valores, que encerra o derradeiro período da filosofia de Nietzsche, inaugurado com Assim falou Zaratustra.
2. Os experimentos levados a efeito em Para além de bem e mal configuram uma verdadeira máquina de guerra, identificável por um conjunto de características principais.
3. Tais experimentos são rigorosamente antiplatônicos.
4. Os experimentos denunciam as falácias do dogmatismo na filosofia e na ciência, evidenciando sua falta de seriedade e rigor, uma vez que ele sempre repousa, aberta ou veladamente, na convicção de um acesso à verdade objetiva fundada na crença platônica na razão pura e no Bem em si.
5. A dinâmica da contradicção solapa as bases irrefletidas de veneráveis evidências supostamente inabaláveis para tornar patente que todo conhecimento se faz a partir de uma perspectiva, de modo que o perspectivismo, longe de negar a verdade, é a condição do próprio conhecimento verdadeiro e culmina no paradoxo segundo o qual não há acesso a fatos, mas unicamente a interpretações.
6. As hipóteses positivas de Nietzsche, como a vontade de poder e suas concepções de subjetividade e conhecimento, ganham plausibilidade num horizonte hermenêutico de antagonismos, pois desempenham a dupla função de evidenciar criticamente as insuficiências das hipóteses dogmáticas concorrentes e de apresentar-se como perspectivas que se proíbem o enrijecimento tético do dogmatismo.
7. O exercício permanente da ironia e da autorreflexão, que produz distância em relação às próprias posições assumidas no combate teórico, constitui uma estratégia argumentativa de Para além de bem e mal que exige atenção constante, por nem sempre se apresentar no primeiro plano do experimento.
8. Como diálogo crítico com a tradição e intervenção no debate cultural europeu da segunda metade do século XIX, Para além de bem e mal ensaia, sob a forma de prelúdio, um projeto filosófico alternativo à visão de mundo moderna, construindo uma hipótese global de interpretação da existência coerente com seus pressupostos teóricos e metodológicos e isenta de inconsistência ou contradição.
9. Essa explicação de conjunto abrange múltiplas esferas da cultura, como teoria do conhecimento, lógica, metafísica, ciência, ética, arte, religião, política, economia e educação, e funda-se no conceito básico de vontade de poder e na teoria do conhecimento dele decorrente, o perspectivismo.
10. O combate sem quartel ao dogmatismo não equivale a uma adesão ao ceticismo, pois, embora o cético seja mais autêntico e intelectualmente probo que o dogmático e constitua bom aliado contra o dogmatismo, a superação pretendida trava-se em duas frentes.
11. Concomitantemente à superação do dogmatismo, empreende-se a superação do próprio ceticismo, cuja limitação fatal reside num déficit de autocrítica e num sintoma de extenuação da vontade, isto é, na impotência para instituir novos sentidos e criar novos valores.
12. O ceticismo revela-se um dogmatismo desencorajado, pois, ao denunciar a inacessibilidade da verdade e resignar-se a ela, o cético deixa de realizar a crítica do valor da verdade e permanece aferrado a ela como valor.
