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GABRIEL, Markus. Der Mensch als Tier: warum wir trotzdem nicht in die Natur passen. Berlin: Ullstein, 2022. / O ser humano como animal : por que ainda não nos encaixamos na natureza. Tr. Markus A. Hediger. Petrópolis, RJ : Vozes, 2023.

Introdução

1. A humanidade vive uma crise complexa em que a ciência e a tecnologia, ao mesmo tempo que melhoram as condições de sobrevivência, degradam o meio ambiente em ritmo ainda mais acelerado.

2. O modelo civilizatório moderno, baseado no controle dos recursos pela ciência e pela tecnologia, conduziu a espécie à beira da autodestruição, pois os instrumentos criados para dominar a natureza e a sociedade, como a internet, a inteligência artificial e os meios de transporte fósseis, voltam-se contra os próprios seres humanos.

3. A crise da Modernidade tardia não pode ser superada com mais do mesmo, mas exige uma reorientação profunda da imagem do ser humano e da natureza.

4. O reconhecimento de que os seres humanos são animais constitui o ponto de partida de um Novo Iluminismo, que recoloca no centro o ser humano como ser vivo espiritual, mistura de natureza e espírito, em lugar de uma imagem mecanicista do mundo como estrutura controlável e previsível.

5. Impõe-se, assim, a retomada da antiga pergunta sobre o que significa compreender o ser humano como animal.

6. A autoimagem humana como animal é decisiva para os mecanismos de direcionamento sociopolítico, como revela o tratamento reativo e tecnológico dado a pandemias e às mudanças climáticas, encaradas como males evitáveis que a técnica deveria resolver rapidamente.

7. Os modelos prognósticos fracassam porque os seres humanos, como animais, jamais compreendem totalmente seu nicho ecológico, o que torna ilusória a ideia de enfrentar a era das catástrofes apenas pela combinação de ciência, tecnologia e política.

8. O avanço científico revela sobretudo os limites do conhecimento, já que a onisciência não existe e a vida, imprevisível como demonstrou a pandemia, não pode ser administrada tecnocraticamente nem superada pela tecnologia, razão pela qual o Homo Deus imaginado por Harari jamais virá.

9. Desde Sócrates até Lineu, que nomeou a espécie Homo sapiens, sabe-se que os modelos humanos de si mesmos são falíveis, pois o ser humano, inserido no reino animal, define-se pela capacidade de sabedoria e pela convocação ao autoconhecimento expressa no “conhece-te a ti mesmo”.

10. O autoconhecimento filosófico inclui a percepção da liberdade, que, entendida também como liberdade social de seres prossociais, precisa voltar ao centro da sociedade para que valores como igualdade e solidariedade sustentem a confiança na democracia liberal.

11. Os seres humanos compartilham desejos, esperanças, medos e finitude, e, sendo feitos de matéria e encarnados como animais, submetem-se às leis naturais e partilham estruturas corporais básicas com outros seres vivos.

12. Todos os seres vivos conhecidos compõem-se de células formadas por elementos investigáveis pela bioquímica e pela física, cujos processos e estruturas são objeto das chamadas ciências da vida.

13. As ciências comportamentais modernas descobriram que o ser humano pode ser decodificado e, em certa medida, controlado em diversos níveis de sua existência, desde a célula até a sociedade, com muitas de suas decisões explicáveis por padrões gerais.

14. Acessível a partir do ponto de vista da terceira pessoa, o ser humano é objeto de pesquisa entre outros, embora, apesar dessa dimensão animal, não se encaixe inteiramente na natureza, pois não é apenas animal.

15. A própria capacidade de explicar os fenômenos naturais, inclusive os aspectos irracionais da vida, demonstra que os seres humanos não são meros fenômenos naturais.

16. Lógica, matemática e pensamento crítico sempre serviram aos seres humanos para sobreviver e construir relações estáveis, de modo que a falibilidade revelada pela pesquisa comportamental não autoriza concluir que o ser humano seja irracional, conforme observa Steven Pinker.

17. A descoberta de que decisões humanas se baseiam em vieses e ruídos não pode abranger toda a existência, pois o próprio conhecimento científico desses limites, obtido de modo objetivo, escapa a tais distorções e prova haver conhecimento objetivo sobre o ser humano como objeto e como sujeito.

18. Diversas ciências, especialmente a economia comportamental popularizada por Daniel Kahneman, mostraram que pensamentos e ações humanas são em grande parte determinados por forças e leis que escapam ao controle consciente, como se a existência animal fosse regida por algo externo.

19. Apesar de fenômenos como o viés de confirmação revelarem uma percepção da realidade nunca automaticamente correta, as limitações humanas podem ser corrigidas em conjunto com os outros e pelo trabalho sobre si mesmo.

20. A capacidade de corrigir distorções cognitivas por meio das ciências e de práticas decisórias comprova que elas não são uma necessidade natural e que os seres humanos permanecem livres, mesmo sujeitos ao engano de uma percepção seletiva.

21. A pergunta sobre o que ou quem é o ser humano segue sem resposta definitiva, pois, além da perspectiva externa da terceira pessoa, existe a subjetividade da primeira pessoa, sem a qual o enigma da existência humana e de seu sentido não pode ser resolvido.

22. Mesmo a ciência mais objetiva depende de uma subjetividade correspondente, como mostram Lorraine Daston e Peter Galison ao revelar que a objetividade é um ideal de conduta do cientista, buscado mas jamais plenamente alcançado.

23. A relação entre natureza e espírito pode ser analisada na interseção entre ser humano e animal, campo da antropologia e da antrozoologia, à luz das descobertas científicas atuais e da filosofia contemporânea.

24. O ser humano é um tema transdisciplinar por excelência, impossível de esgotar por uma única ciência ou mesmo pelo conjunto das disciplinas acadêmicas, já que artes, política, bom senso, economia, mídias e experiência de vida também são formas de autoconhecimento.

25. A sociedade do conhecimento precisa reconhecer sua distância infinita da onisciência, mudar seu modo de pensar diante da crise do século XXI e aprender com as vítimas do controle da natureza, como os povos indígenas cujo saber, segundo Tyson Yunkaporta, oferece um modelo dinâmico de convívio com a complexidade.

26. Do ponto de vista das ciências do espírito, o espírito não designa nenhum fantasma ou resquício metafísico, mas a capacidade de conduzir a vida à luz de uma representação de quem se é, sendo a condição de ser vivo espiritual a tese central do neoexistencialismo.

27. O ser humano é o protótipo da existência animal, pois o conceito de animal, construído pela autoanálise humana e por uma diferenciação milenar equivocada, revela mais sobre os seres humanos do que sobre os próprios animais.

28. Como parte da natureza entrelaçada com tudo o que vive, o ser humano deve considerar sua ação também do ponto de vista ecológico, de modo que no autoconhecimento humano o ser e o dever caminham juntos.

29. A imagem atual do ser humano e do mundo atingiu seus limites planetários, e hoje até economistas e ministros reconhecem que o crescimento tem limites, conforme já constatara o Clube de Roma em 1972.

30. A ideia de que o progresso científico e tecnológico, motor de um crescimento puramente quantitativo, pode desvincular-se do progresso humano e moral expressa uma autorrelação perturbada que conduz à autodestruição e precisa ser superada.

31. Indivíduos e sociedades expressam sua relação consigo mesmos por meio de valorações fortes e de visões da vida boa, o que torna necessária a reflexão sobre o sentido da vida.

32. Como o ser humano não é apenas animal, viver é mais do que sobreviver, e o pluralismo liberal das formas de vida, entendido com Susan Wolf como busca de sentido, assenta-se num sentido compartilhado, expresso na dignidade humana e compreensível, com Corine Pelluchon e Yunkaporta, como missão moral de guardiões da realidade.

33. A transformação ecológica exigida neste século requer uma ética que oriente normativamente a mudança social, sem a falsa promessa moderna de que ciência, engenharia e economia resolveriam os problemas políticos fundamentais dispensando decisões sobre quem somos e quem queremos ser.

34. A crise da democracia decorre de as pessoas exigirem da política mais do que uma distribuição inteligente de recursos, cobrando decisões justificadas por valores explícitos, como ocorre com os atingidos pelas enchentes no vale do Ahr, que reivindicam uma reconstrução ecologicamente sustentável.

35. O reconhecimento dos limites do conhecimento científico obriga a conviver com complexidade, insegurança e não conhecimento, o que exige uma ética do não conhecimento.

36. A investigação da existência animal ensina a reconhecer a natureza, dentro e fora do ser humano, como algo estranho que não se pode nem se deve dominar, o que desfaz as ilusões de um paraíso tecnocrático, da colonização de Marte ou da transferência da consciência para corpos artificiais.

37. A complexidade e a vulnerabilidade humanas, antes encobertas pelo funcionamento regular do sistema de saúde, foram expostas pela pandemia, e o reconhecimento do ser humano como animal vulnerável e espiritual torna antropologia, ética e política inseparáveis.

38. O Novo Iluminismo exige mais ciência, com as ciências humanas e sociais em pé de igualdade com as naturais, e uma ética do não conhecimento fundada na constatação de que a realidade transcende a pretensão humana de conhecê-la, como evidencia o fato de 95% do universo consistir em matéria e energia escuras.

39. A sabedoria socrática não é culto à ignorância, mas consciência do muito que não se sabe, e é nesse sentido que Lineu chamou a espécie de Homo sapiens, capaz de sabedoria, definindo o ser humano como animal filosófico apto a transformar a si mesmo e a realidade ao formar uma imagem de si.

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