0 Introdução
GABRIEL, Markus. An den Grenzen der Erkenntnistheorie: Die notwendige Endlichkeit des objektiven Wissens als Lektion des Skeptizismus. 1. Auflage ed. Baden-Baden: Verlag Karl Alber, 2016.
INTRODUÇÃO
1. O conhecimento objetivo pressupõe uma relação com o mundo como realidade essencialmente independente de nossa referência a ele, de modo que conhecer consiste em determinar como as coisas são e sustentar essa determinação diante de possíveis objeções.
2. O mundo funciona como horizonte unificador de tudo o que é o caso e como realidade independente pressuposta pelas pretensões de conhecimento, cuja falibilidade decorre precisamente da possibilidade de não corresponderem aos estados de coisas que pretendem descrever.
3. A explicação das condições do conhecimento empírico ultrapassa o próprio domínio empírico, pois nem o conhecimento do que significa conhecer nem o mundo considerado como mundo constituem objetos empíricos comuns, exigindo uma distinção entre a investigação falível dos estados de coisas e a reflexão sobre as condições dessa falibilidade.
4. A distinção entre conhecimento objetivo e conhecimento epistemológico estabelece dois níveis teóricos, uma vez que a epistemologia formula pretensões de conhecimento sobre as condições do saber que não podem ser verificadas empiricamente, embora sua contestação cética ameace a própria possibilidade de assegurar a existência do conhecimento objetivo.
5. O ceticismo constitui uma condição metodológica da epistemologia porque a pergunta pelo significado do conhecimento somente adquire determinação mediante o confronto com a possibilidade de não saber ou de não poder saber.
6. O contrastivismo explicita que todo conhecimento proposicional se determina em relação a alternativas excludentes, de modo que saber que algo é o caso implica distingui-lo de possibilidades cuja verdade tornaria falsa a proposição conhecida.
7. A possibilidade do erro e do não saber acompanha necessariamente a determinação do conhecimento, como mostra a passagem da distinção pré-socrática entre ser e aparência à investigação platônica da falsidade, pois toda definição do saber produz um espaço de oposição que mantém o não saber como sua possibilidade permanente.
8. O ceticismo é uma condição de inteligibilidade da epistemologia porque esta investiga, num segundo nível, tanto a correspondência quanto a divergência entre mundo e pretensões de conhecimento, ultrapassando o conhecimento empírico de primeira ordem sem transformar o mundo ou o próprio saber objetivo em objetos comuns.
9. A função dialética do ceticismo exige distinguir dogmatismo negativo, ceticismo cartesiano e ceticismo metódico, evidenciando que a delimitação kantiana do conhecimento ameaça dissolver a objetividade na subjetividade e necessita de um critério público, baseado na comunicação entre sujeitos, para diferenciar uma representação espacial da representação de algo espacial.
10. A distinção de Brandom entre dependência de sentido e dependência de referência permite separar a tese de que o conceito de objetividade pressupõe o de subjetividade da tese de que os objetos dependem da existência de sujeitos, revelando que a oscilação kantiana entre esses níveis compromete sua refutação do idealismo.
11. A ontologia de coisas singulares de Moore reage insuficientemente ao idealismo kantiano porque ignora a distinção entre níveis teóricos e não justifica sua categoria de objeto físico diante da relatividade conceitual, tornando necessário recuperar a diferença kantiana entre o mundo como horizonte de unidade e como objeto do conhecimento.
12. O ceticismo cartesiano deve ser compreendido como uma estrutura paradoxal do conceito de conhecimento, identificada e empregada metodicamente por Descartes, cuja análise lógica revela a combinação de premissas e regras de inferência aparentemente aceitáveis com uma conclusão manifestamente inaceitável.
13. A análise dialética do ceticismo investiga as condições teóricas que motivam o paradoxo, mostrando que estratégias ant céticas como a implosão de Crispin Wright podem ameaçar o próprio ponto de vista epistemológico ao rejeitar pressupostos que também sustentam sua legitimidade.
14. A reconstrução contextualista da epistemologia encontra em Sexto Empírico e Wittgenstein uma compreensão comum da finitude necessária do conhecimento, cuja aplicação reflexiva exige limitar também o alcance da própria afirmação sobre os limites do saber.
15. O conteúdo assertórico depende de condições de funcionamento que um discurso não pode dominar reflexivamente durante sua própria operação, pois seus enunciados somente adquirem determinação mediante parâmetros historicamente variáveis e certezas fundamentais que organizam a atividade da comunidade.
16. A finitude do conhecimento discursivo decorre de sua dependência de contextos estáveis que não podem esclarecer integralmente seus próprios fundamentos sem instaurar novos metadiscursos igualmente condicionados, impedindo um ponto de vista absoluto sobre as atribuições de saber.
17. O disjuntivismo de McDowell enfrenta dificuldades como estratégia ant cética porque concebe o sujeito prioritariamente como intencionalidade cognitiva e não integra desde o início a dimensão social e semântica de uma pessoa situada no espaço e no tempo.
18. A crítica contextualista ao solipsismo metodológico oferece uma saída para o paradoxo cartesiano mediante a dimensão comunitária do seguimento de regras, mas o abandono do conceito tradicional de representação ameaça também a subjetividade e o ponto de vista metateórico necessários para discutir os discursos em geral.
19. O recurso de Wittgenstein a uma natureza humana compartilhada para explicar a comunicação entre discursos permanece insuficientemente reflexivo, exigindo que o contextualismo reconheça sua própria contingência e revisabilidade e delimite o conhecimento diante de um não saber que precisa admitir sem conseguir determinar.
20. A confrontação da interpretação hegeliana de Brandom com a lógica da reflexão permite desenvolver uma metodologia epistemológica que avalia a consistência dialética e as possibilidades das soluções ant céticas, retomando a unidade entre método e objeto sem confundir o saber absoluto com um conhecimento infinito ou livre da finitude.
21. A crítica inicial do conceito de conhecimento e das estratégias ant céticas prepara uma reconstrução contextualista que aceita a lição pirrônica sobre nossa finitude discursiva, sem por isso excluir uma teoria metafísica do infinito capaz de compreender adequadamente seu próprio estatuto.
22. A combinação de abordagens analíticas com problemas tradicionais da epistemologia e da metafísica recusa divisões escolares rígidas e concebe a filosofia como prática discursiva da liberdade, potencialmente contrariada pela organização profissional de disciplinas e métodos previamente delimitados.
