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Fenomenologia

GABORIAU1965

  • O problema do sentido da fenomenologia
    • A fenomenologia, tomada estritamente em seus termos, deveria constituir-se como ciência dos fenômenos, porém tanto o conceito de fenômeno quanto o de logos apresentam uma polissemia estrutural que multiplica as interpretações possíveis e compromete a univocidade do termo.
    • O uso corrente da expressão “fenomenologia” entre os filósofos modernos tende a simplificar indevidamente seu conteúdo conceitual, obscurecendo a complexidade histórica e sistemática implicada em sua formação.
    • O fenômeno é inicialmente definido como a aparição de um objeto empírico, entendida como manifestação de uma essência, embora tal essência possa permanecer dissimulada no próprio ato de aparecer.
    • A fenomenologia surge, nesse sentido, como tentativa de resolver a tensão entre aparência e essência, recusando tanto o empirismo bruto quanto o intelectualismo abstrato.
  • Fenomenologia e subjetividade
    • A fenomenologia rompe com a concepção objetivista clássica, segundo a qual os dados da consciência seriam meramente derivados de objetos exteriores independentes.
    • A consciência deixa de ser compreendida como receptáculo passivo e passa a ser entendida como instância constitutiva do sentido, implicando uma reconfiguração radical da relação sujeito–objeto.
    • A análise fenomenológica propõe uma investigação do aparecer enquanto tal, suspendendo as teses ontológicas espontâneas que pressupõem a existência independente do mundo.
  • A fenomenologia como método descritivo
    • A fenomenologia se define inicialmente como descrição rigorosa dos fenômenos tal como se dão à consciência, recusando explicações causais ou reduções naturalistas.
    • A descrição fenomenológica visa apreender as estruturas invariantes da experiência, isto é, as essências, por meio de um procedimento reflexivo sistemático.
    • Esse método exige uma conversão do olhar filosófico, deslocando-o do objeto empírico para o modo de doação do objeto à consciência.
  • A redução fenomenológica
    • A redução fenomenológica consiste na suspensão do juízo natural acerca da existência do mundo, operação conhecida como epoché.
    • Tal suspensão não implica negação do mundo, mas neutralização de sua tese ontológica, permitindo o acesso ao campo puro da experiência.
    • A redução conduz à descoberta da subjetividade transcendental como condição de possibilidade de toda significação.
    • A consciência é revelada como intencional, isto é, sempre consciência de algo, sendo essa estrutura intencional o fundamento da correlação sujeito–mundo.
  • Intencionalidade e constituição do sentido
    • A intencionalidade designa a estrutura fundamental da consciência, pela qual todo ato consciente se refere a um correlato objetivo.
    • O objeto não é dado como coisa em si, mas como sentido constituído no e pelo ato intencional.
    • A realidade é, assim, compreendida como sistema de significações constituídas, e não como conjunto de coisas independentes da experiência.
  • Fenomenologia eidética
    • A fenomenologia eidética busca apreender as essências dos fenômenos por meio da variação imaginativa.
    • A essência não é uma abstração empírica, mas uma estrutura necessária que se manifesta através das múltiplas variações possíveis de um mesmo fenômeno.
    • O conhecimento eidético pretende alcançar uma validade universal e necessária, distinta da generalização indutiva das ciências empíricas.
  • Subjetividade transcendental
    • A subjetividade transcendental não se confunde com o sujeito psicológico empírico, mas designa o polo constitutivo de toda objetividade possível.
    • Essa subjetividade é condição de possibilidade não apenas do conhecimento, mas do próprio sentido do ser.
    • O mundo aparece como correlato da subjetividade transcendental, sendo inseparável das estruturas intencionais que o constituem.
  • Fenomenologia e ontologia
    • A fenomenologia, embora inicialmente apresentada como método, tende progressivamente a desembocar em uma ontologia fundamental.
    • A análise do sentido do ser torna-se inseparável da análise da experiência, uma vez que o ser só é acessível enquanto significado.
    • A ontologia fenomenológica recusa tanto o realismo ingênuo quanto o idealismo dogmático, propondo uma via intermediária fundada na correlação originária entre ser e consciência.
  • Crítica ao psicologismo e ao naturalismo
    • A fenomenologia se opõe radicalmente ao psicologismo, que reduz as estruturas lógicas e significativas a fatos psíquicos.
    • Rejeita igualmente o naturalismo, que submete a consciência às categorias explicativas das ciências naturais.
    • A experiência consciente é irredutível a processos físico-químicos ou biológicos, exigindo um modo próprio de investigação filosófica.
  • A fenomenologia como fundação das ciências
    • A fenomenologia pretende fornecer um fundamento último para as ciências, esclarecendo suas condições de possibilidade.
    • As ciências positivas operam sobre pressupostos não tematizados, que a fenomenologia se encarrega de explicitar.
    • O ideal de rigor fenomenológico visa restaurar o sentido originário do conhecimento, anterior a qualquer formalização técnica.
  • A abertura para a ontologia existencial
    • A fenomenologia abre caminho para uma análise da existência concreta, superando o modelo puramente gnosiológico.
    • O ser humano passa a ser compreendido como existência situada, histórica e finita.
    • A investigação fenomenológica da existência revela estruturas fundamentais como temporalidade, mundo, cuidado e finitude.
  • Considerações finais sobre o destino da fenomenologia
    • A fenomenologia não se encerra em um sistema fechado, mas permanece como movimento crítico permanente.
    • Sua tendência interna conduz à ontologia, sem jamais abandonar o rigor descritivo da experiência.
    • Resta em aberto a questão do alcance último da ontologia fenomenológica e de sua capacidade de resolver os problemas fundamentais do ser.
gaboriau/fenomenologia.txt · Last modified: by mccastro

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