3.R.6 Transcendentais
GABORIAU, Florent. La nouvelle initiation philosophique. 4 volumes. Paris: Casterman, 1962–1965. Phénoménologie de l'existence. Gravitations II. (1963)
CAPÍTULO VI OS TRANSCENDENTAIS
O logos humano declara belas, boas, verdadeiras, diferentes, etc., uma infinidade de coisas. Mas o que são a verdade, a beleza, a diversidade, etc.?
1. Ao dizer que uma coisa é verdadeira, boa, bela, etc., significa-se essencialmente que ela existe e que existe sob um determinado aspecto.
À ideia de existência, acrescenta-se, de fato, em cada caso:
- uma relação com o espírito que se ajusta (isso é o verdadeiro);
- uma relação com o gosto que aprecia (isso é belo);
- uma relação com o apetite que se inclina para ela (isso é bom);
- uma relação de coisa a coisa (não-identidade = “outro”);
- uma relação de si a si (identidade = “um”);
— uma relação de coisa a causa (na palavra coisa, “res”).
2. Esses termos são análogos; aplicam-se a todos os tipos de seres. Em última análise, não acrescentam nada a esses existentes, a não ser a indicação de uma relação que mantemos. Relação mista ou transcendental, pela simples razão de que essa relação não define toda a coisa de que se trata quando a chamamos de “verdadeira”, “bela”, “boa”, etc.
3. A relação assim expressa tem, por si só, um “sentido” inegável na medida em que se relaciona com as diversas “potências”: potência de amar, de admirar etc., por meio das quais declaramos incessantemente apreender o real sob diversos aspectos. Aspectos a partir dos quais qualificamos esse real em relação a nós e nos posicionamos em relação a ele. Daí a importância.
1. Ser feliz, ou o que é o bem?
A linguagem não admite que “bom” tenha o mesmo sentido que “ruim”. Distinguir entre diferentes “razões de ser” do bem (já que elas manifestamente não são idênticas, pois cada um diverge quanto à escolha de sua felicidade).
1. A razão de ser do bem, tal como necessariamente o concebemos, é alógena às limitações. A felicidade é, por si só, infinita, sem limites.
2. A razão de ser do bem, tal como de fato o encontramos, é sempre circunscrita, pela situação do objeto que se apresenta, pela própria condição do sujeito que se dirige a ele.
Discernir, então, entre as coisas desejáveis:
- aquelas para as quais se dirige um desejo sensível (elas têm “razão de ser boas”, desse ponto de vista)
- aquelas para as quais se dirige um desejo humano “no fim das contas” (= bom, afinal).
Por antonomasia, ou seja, por excelência exclusiva, pôde-se dizer: “Ninguém é bom, a não ser somente Deus.” Frase que se compreende, mas cuja validade não pode ser demonstrada no âmbito da fenomenologia, mesmo que tenha, de fato, revolucionado vidas inteiras (os crentes para quem a Felicidade é, efetivamente, Deus e nada mais, em última instância).
2. Ser justo, ou o que é verdade?
O verdadeiro está nas coisas, se elas “são” (Res) e na medida (SR) em que são.
O verdadeiro está na realidade-intelecto, se ela se ajusta a ela (adaequatio rei et intellectus), por meio da noção (SR) que dela se forma e que corresponde à própria forma, à “razão de ser”, da própria coisa.
3. O Absoluto rejeitado.
Insuficiência das “razões”: explicam as funções, não o próprio ser. Insuficiência que não é, em si mesma, “absoluta”: uma vez que a contingência, mesmo que universal, não deixa de ser uma contingência existencial, distinta da necessidade que se impõe ao pensamento.
O Absoluto se dissolve, tanto no nível das “razões” quanto no nível dos “existentes”, tal como se apresentam com suas razões. Portanto, a constatação da ausência do absoluto não permite afirmar que a busca está concluída (absoluta). Será preciso prosseguir.
4. O Amor inelutável.
Não há ser que não tenha “desejo de… nada”. Esse desejo “de alguma coisa” chama-se amor. Qual é o seu significado, sua razão de ser? Diferente, dependendo da razão de ser-desejável que o objeto amado apresenta?
“Os poetas celebram, acima de tudo, o amor, e têm razão; pois nada precisa mais ser transformado no que não é”. O Sábio questiona-se sobre o amor como sobre o resto: parte de realidade? parte de ilusão? Como distinguir o que, de qualquer forma, anima, de um jeito ou de outro, uma vida? Se o amor não tem um significado filosoficamente fundamentado, ele deixará de ter, de uma forma ou de outra, qualquer sentido. “Transformar o amor no que ele não é”: será transformá-lo em um amor mais verdadeiro, autenticá-lo? Ou, ao contrário, ter de admitir que, sendo o que é, ele não tem nem sentido nem futuro?
5. Um e outro; ou as coisas em questão [dialeticamente interligadas].
Outros transcendentais: cada realidade é “uma” sob um aspecto e “outra” sob um determinado ponto de vista.
Da mesma forma, toda realidade — no plano dos fenômenos que observamos — é “coisa” e “causa”, ou seja, coisa que coloca em causa e que é colocada em causa, coisa ligada ao seu princípio ou à sua consequência. Em latim, res deriva de reus: irrecusabilidade ou “responsabilidade” da coisa submetida ao tribunal da razão competente (cf. supra as “causas”, a respeito da identidade, p. 590).
* * *
Um resumo deste capítulo corria o risco de comprometer tudo ao reduzir as coisas a palavras. É o mesmo que dizer que desistimos disso.
Destacamos, por outro lado, devido ao seu interesse antropológico para o que se segue (NIP 4):
a) Uma relação etimológica entre amor e liberdade. Libertas, libet, libido ou lubido, lupa (prostituta), lupanar; alemão Liebe («leub-»), λύω; latim e-luere, so-lvere (Raiz Iw, lb = amar, libertar). Cf. ainda alemão frei, Freund, freien (desejar casar), Friede (paz).
b) Uma relação da mesma ordem entre amor e energia; ou entre amor e busca. Alemão Macht, potência; mögen, amar, poder. Grego Meros (desejo ardente, energia) e alemão Minne. Por outro lado: latim quaerere (desejar, buscar); espanhol querer (amar); epapai, amar, e èpéœ, έρωτάω, pedir.
