2.1.2 Interrogar os fenômenos
B. Interrogar os fenômenos
1. Vinculado ao ser desde o primeiro movimento do pensamento, o eu interroga de início os fenômenos, pois é neles que o ser se manifesta.
2. Examinar a manifestação em todas as suas formas permite verificar a consistência das aparências e discernir o que há de ser em cada categoria de entes que se apresentam.
3. A metafísica investiga as leis, as normas e as hipóteses relativas ao ser, ao passo que o devir pertence a outra ordem de investigação.
4. O critério de progresso da investigação metafísica encontra-se em seu próprio ponto de partida, pois a manifestação do fenômeno é o dado inicial indubitável a partir do qual se pode controlar cada avanço e elaborar uma interpretação científica da existência.
5. O eu já se encontra em coexistência antes de qualquer escolha, e essa ligação originária sustenta o pensamento interrogativo, pois até a dúvida acerca dela só pode ser formulada em referência ao ser.
6. O vínculo originário com o ser é um dado que se impõe à investigação, cuja tarefa é compreender por que o ser humano se vê levado a interrogar os fenômenos em resposta à maneira como eles o interpelam.
7. A metafísica tem origem na solicitação incontornável dos fenômenos, pela qual o ser humano se descobre, além de consciente de existir entre outros entes, pessoalmente implicado na investigação de sua existência.
8. Ao perguntar onde está o ser e em que ele consiste, o eu vinculado à existência procura distinguir, na ressonância das múltiplas formas de coexistência, o que é ilusório e o que revela uma estrutura inteligível ou constitutiva do real.
9. O realismo do cogito interrogans consiste em examinar criticamente o que há de real na existência aparente, pois até a suspeita de que algo careça de realidade já o situa no horizonte do ser.
10. A coexistência fornece a luz em que o pensamento apreende os entes e o critério pelo qual pode reconhecer que ignora o que são ou que ainda duvida de que existam.
11. Até a aparência cuja inexistência se reconhece precisa ser pensada sob o aspecto da existência para que se possa determinar em que consiste sua verdade ou sua ilusão.
12. A fórmula fenomenológica cosum ergo cogito, entendida sem valor silogístico, exprime a unidade originária entre a coexistência com os entes do mundo circundante e o pensamento que se vê levado a interrogá-los.
13. A própria existência e a existência de outrem no mundo constituem ao mesmo tempo o dado inicial e a luz da investigação, pois os entes já coexistem e se impõem na aparência em seu modo de ser e em seu estar-aí (Sosein e Dasein) antes de serem conhecidos.
14. A existência precede logicamente o pensamento, como exprime a fórmula sum ergo cogito, de modo que o eu pressuposto pelo cogito deve ser compreendido desde o início em seu alcance existencial.
15. O eu originário é a capacidade de responder ao apelo do ser, e sua existência prévia condiciona o pensamento pela ligação existencial com aquilo que o interpela, sem que seja necessário atribuir-lhe formas a priori.
16. Pensar consiste em esclarecer os contornos de cada realidade e delimitar, no interior da existência, a medida de ser que lhe cabe, mesmo quando o juízo permanece incerto.
17. Na reflexão sobre os próprios atos de pensamento, a existência até então vivida torna-se conscientemente conhecida, e o eu se reconhece como um ser pensante cuja inquietação o leva continuamente a interrogar.
18. A multiplicidade das manifestações do ser constitui o primeiro objeto da investigação e a fonte da inquietação metafísica.
19. A inquietação do pensamento nasce da distância entre apreender algo sob o aspecto da existência e dispor de uma razão de ser que satisfaça a investigação, cuja busca assume por isso a forma de uma interrogação.
20. A multiplicidade das perguntas decorre tanto da diversidade dos objetos quanto dos diferentes modos de interrogar um mesmo objeto sob o aspecto da existência.
21. As categorias articulam em afirmações comunicáveis o ente inicialmente dado em bloco, e a interrogação assume a forma da resposta que procura obter.
22. As categorias funcionam primeiro como um plano de investigação descoberto no exame das articulações do real, em que convergem as perguntas e as afirmações sem que se imponha de antemão uma separação entre linguagem, pensamento e ser.
23. A inteligência distingue espontaneamente as diferentes maneiras pelas quais os entes a interessam e, seguindo essa aptidão, pergunta o que são, o que fazem, o que têm ou onde estão.
24. A interrogação humana percorre desde o início várias categorias.
25. A diversidade espontânea das perguntas manifesta a correspondência entre a inteligência e as articulações do real, de modo que o exame separado de cada pergunta permite inventariar as várias manifestações da existência em torno da qual todas convergem.
26. A convergência das perguntas em torno da existência traça o itinerário da primeira etapa fenomenológica, que examina uma a uma as articulações do real na ordem em que se apresentam.
27. Como a linguagem condiciona a formulação das categorias, a comparação entre línguas favorece a investigação metafísica, e a precisão do vocabulário grego oferece um ponto de partida para a nomenclatura de origem aristotélica.
28. A atenção desigual que as línguas e as épocas dedicam a categorias como a posição corporal e a posse revela os limites de cada vocabulário e mantém aberta a investigação de outras formas irredutíveis de interrogar o real.
29. Apesar das ambiguidades das línguas, a experiência cotidiana confirma que as perguntas categoriais exigem respostas pertinentes ao aspecto da realidade que cada uma investiga, permitindo circunscrever o ente em suas diversas determinações antes de perguntar por sua substância.
30. A diversidade dos modos de existir explica que a vida possa concentrar-se na quantidade, na qualidade, no sofrimento, na duração, na ação, na posse ou nas relações, mas a insuficiência de cada um desses modos para abarcar todo o ser leva a perguntar o que subsiste sob eles.
31. A condição de estar no mundo exige investigar o que nela há de real e inteligível, pois, se tudo se reduzisse a uma fachada, a filosofia poderia resumir-se à habilidade de tirar partido das aparências.
32. Diante das solicitações divergentes dos múltiplos modos de ser, cabe à sabedoria ordenar e equilibrar a vida, começando pelo exame de cada categoria e de cada afirmação que ela comporta.
