fludd:monada
Robert Fludd e a mônada hieroglífica de John Dee
BÉHAR, Pierre. Les langues occultes de la Renaissance: essai sur la crise intellectuelle de l’Europe au XVIe siècle. Paris: Desjonquères, 1996.
- A interpretação de Robert Fludd da mônada hieroglífica de John Dee constitui uma reconfiguração teosófica do projeto original, deslocando seu centro de gravidade do plano mágico-operativo para uma cosmologia mística de inspiração cristã.
- A mônada não é lida prioritariamente como instrumento técnico de operação sobre o real.
- Ela é compreendida como imagem total do processo de criação.
- O símbolo passa a funcionar como diagrama da ordem divina do universo.
- Fludd insere a mônada numa arquitetura cosmológica tripartida.
- O macrocosmo representa o mundo divino e celeste.
- O mesocosmo corresponde à esfera intermediária das mediações.
- O microcosmo humano reflete e recapitula a totalidade do cosmos.
- A mônada exprime a unidade estrutural desses três níveis.
- A leitura fluddiana privilegia o movimento de emanação e retorno.
- O Uno divino irradia-se na criação.
- A multiplicidade dos seres resulta desse desdobramento.
- O conhecimento verdadeiro consiste no retorno simbólico do múltiplo à unidade.
- A mônada é interpretada como figura da Trindade cristã.
- O ponto central remete ao Pai enquanto princípio absoluto.
- A linha expressa o Verbo como mediação criadora.
- O círculo simboliza o Espírito como vínculo e plenitude.
- A geometria torna-se linguagem trinitária.
- Fludd enfatiza o caráter gnosiológico da imagem.
- O símbolo não serve para produzir efeitos externos.
- Ele visa transformar o intelecto e a alma.
- Conhecer a mônada é reordenar interiormente o sujeito segundo a ordem divina.
- A interpretação afasta-se da ambiguidade operativa presente em Agrippa.
- A magia é subordinada à contemplação.
- A eficácia externa perde centralidade.
- O símbolo readquire função espiritual e pedagógica.
- A mônada torna-se chave de leitura da Criação e da Redenção.
- Ela representa a descida de Deus no mundo.
- Representa igualmente o caminho de retorno do homem a Deus.
- O símbolo unifica cosmologia e soteriologia.
- Fludd integra a mônada ao seu vasto sistema teosófico.
- Música, matemática, medicina e cosmologia convergem.
- As proporções harmônicas do universo refletem a ordem divina.
- A ciência é concebida como via de reconciliação com o Criador.
- A leitura fluddiana reforça o papel da analogia.
- Cada nível do ser reflete os demais.
- O conhecimento procede por correspondência simbólica.
- A razão discursiva é insuficiente sem a intuição imagética.
- O símbolo assume primazia sobre o texto.
- A imagem é mais imediata que a linguagem verbal.
- Ela comunica a totalidade de uma vez.
- A mônada funciona como síntese visual do real.
- A interpretação de Fludd preserva o ideal de unidade renascentista.
- O saber não é fragmentado.
- Ciência, arte e teologia permanecem integradas.
- O universo é concebido como ordem inteligível e harmoniosa.
- Contudo, a leitura fluddiana desloca o sentido da Cabala real.
- A ênfase recai sobre a contemplação mística.
- O potencial técnico da mônada é neutralizado.
- A Cabala real aproxima-se de uma teosofia simbólica cristã.
- A interpretação de Robert Fludd revela, assim, uma via alternativa.
- Não a via do domínio do mundo.
- Mas a via da reintegração espiritual.
- O símbolo deixa de ser instrumento de poder e torna-se instrumento de elevação interior.
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