Dualidade
GODWIN, Joscelyn. Robert Fludd: Hermetic Philosopher and Surveyor of Two Worlds. London: Thames and Hudson, 1979.
Dualidade fundamental do homem
Este simples diagrama mostra como no homem o fogo divino diminui a medida que progride para baixo, enquanto vapores da sensualidade prevalecem. A faculdade mais sutil do homem, a mente mais elevada (Mens, na terminologia de Fludd) recebe os raios diretos de Deus. Abaixo estão as regiões do intelecto, o ponto de equilíbrio no coração (em outro diagrama, abaixo, representado pelo sol), e o reino elemental dos apetites cuja base e nadir, para Fludd, é a sexualidade.
Maurice Nicoll: Living Time
No tipo de literatura do século XVII que trata da natureza interna do homem, encontram-se alguns diagramas que aparentemente se referem a esses dois sistemas psicológicos. Analise-se um de Robert Fludd, em uma obra intitulada Utriusque Cosmi, de 1617.
Observam-se aqui dois triângulos que representam algo da constituição do homem. Em um deles, o vértice está voltado para baixo; no outro, para cima. Isso recorda imediatamente o hieróglifo do duplo triângulo conhecido como o Selo de Salomão, e que, de acordo com Ouspensky, representa as três dimensões do espaço e as três dimensões do tempo.
No que diz respeito ao triângulo com a base voltada para baixo, Fludd, em outro diagrama, divide-o, partindo de baixo, em corpo, espírito vital e razão. A razão toca a base do triângulo superior em um ponto ao nível que Fludd denomina mente, ou seja, o uso mais elevado da razão ordinária do homem toca o nível da mente (mens). Contudo, isso constitui unicamente um ponto na mente. O triângulo superior termina no sexo do homem como um ponto. Pode-se, então, afirmar que há um ponto na razão do homem e um ponto em seu sexo que o conectam a um nível de consciência de uma escala superior à sua consciência ordinária. Mas cada um deles é um mero ponto, ou uma pequena porta no outro.
Se forem tomadas apenas as duas bases dos triângulos, do superior e do inferior, pode-se considerá-las como se fossem linhas que representam dois níveis de consciência. Todavia, seria mais apropriado dizer que os dois triângulos sobrepostos representam dois sistemas de consciência. Conectar-se-iam as experiências de Ramsay a essas duas orientações precisas no homem. O éter o conduz de uma a outra. E, então, ele vê tudo pelo outro lado. Possui um novo sentimento do Eu. Da mesma maneira, pode-se explicar a experiência de Tennyson, bem como todas as experiências de novas formas de consciência descritas neste livro. O triângulo cuja base está acima e que termina abaixo, no ponto ao nível do sexo, está relacionado às três dimensões do mundo invisível. Quando a consciência se situa nesse sistema, podem aparecer em conjunto: o sentido da vida estendida no Tempo, o sentido de eternidade e recorrência, e o sentido da própria existência. Pertence ao sistema superior que se encontra oculto no homem. Em seu estado natural, o homem encontra-se no sistema psicológico representado pelo triângulo cuja base aponta para baixo. De sorte que, ao estudar o homem natural, encontrar-se-á nele unicamente este sistema. Mas, se for considerado psicologicamente, não se pode tomar o homem em termos de um só sistema. Dentro de seu ser existe alguma extraordinária paradoxo. Há outro sistema nele, cujo modo de ação jaz em direção inversa ao sistema natural, e que trabalha de cima para baixo. Se houver disposição para aceitar tal interpretação, significa que o homem plenamente integrado deve ser uma combinação de ambos os sistemas. O homem é o campo em que se juntam esses dois sistemas. Representam um paradoxo, uma cruz, algo extraordinariamente difícil de unir; e, sobretudo, algo que deve ser despertado e posto em atividade, porque o homem natural é o adequado à vida e não necessita da ação do segundo sistema. A tarefa consiste em unir esses dois sistemas em uma relação, e não em buscar um à custa do outro. Todas as experiências citadas demonstram apenas a existência de outra orientação psicológica. Isso é tudo. Ramsay encontra-se em um sistema, depois no outro; e, como tais, parecem contraditórios. A integração do homem deve ser a reconciliação desses dois sistemas, e isso deve significar o gradual despertar do outro sistema permanecendo em contato com a vida. Os princípios que pertencem ao outro sistema, o novo sentido do tempo, do Eu, da recorrência, têm de possuir uma relação com a vida.
O ponto mais elevado da razão natural limita-se ao nível de tais ideias; isto é, aquilo que constitui o melhor do pensamento humano pode alcançar outra ordem de entendimento. De modo similar, o ponto mais elevado do sexo abre-se na mesma direção.

