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fichte:gueroult:1.3

1.3 Segundo e terceiro princípios

GUEROULT, Martial. L'évolution et la structure de la Doctrine de la Science chez Fichte. 2 volumes. Paris: Les Belles Lettres, 1930. (Reedição: Paris: Vrin, 1982).

CAPÍTULO III — O SEGUNDO E O TERCEIRO PRINCÍPIOS — SUA RELAÇÃO COM O PRIMEIRO: O SISTEMA DA “DOUTRINA DA CIÊNCIA”

A. — O segundo princípio

1. Sendo o primeiro princípio incapaz de produzir sozinho as determinações da consciência real, que não decorre necessariamente da consciência pura, conclui-se por um outro ato pelo qual se produz um Não-Eu, único caminho para o progresso do raciocínio filosófico e para a dedução do sistema da experiência.

2. Essa necessidade, já percebida por Kant na Refutação do Idealismo, segundo a qual não há Eu sem um Não-Eu a pensar, funda-se na existência inexplicável da representação e é, portanto, apagógica, de modo que o Não-Eu tem por única função permitir a construção do sistema da experiência, o que mantém essa posição no quadro kantiano.

3. O segundo princípio, absoluto pela forma e condicionado pelo conteúdo, não pode ser provado nem deduzido, devendo ser buscado a partir do fato imediatamente certo de que não-A não é igual a A, irredutível a A = A, pois o ato de opor não se deduz do ato de pôr e se produz por uma ação incondicionada do Eu.

4. Para que não-A possa ser oposto a A é preciso que A seja posto antes, de sorte que o ato de oposição é condicionado em sua matéria, por depender de outra ação, e incondicionado em sua forma de oposição.

5. No produto da ação, não-A, a forma é absolutamente determinada pelo ato de opor como contrário de A, mas o que pode ser esse contrário, sua matéria, só se conhece sob a condição de já se conhecer A.

6. Abstraindo-se de A, o que é originária e absolutamente posto é o Eu, de modo que tudo o que é oposto só pode sê-lo ao Eu e é, portanto, um Não-Eu, podendo-se afirmar com a mesma certeza do fato de consciência correspondente que ao Eu é absolutamente oposto um Não-Eu.

7. O que vale para a oposição em geral vale para essa oposição originária, incondicionada pela forma e condicionada pela matéria.

8. Assim se descobre o segundo princípio do saber humano.

9. Ao Não-Eu deve ser atribuído, pela simples oposição, o contrário de tudo o que pertence ao Eu, o que nega a qualidade oculta da coisa em si e mostra que o Não-Eu não resulta de uma abstração extraída dos objetos, pois o caráter X que revela algo como objeto da representação deve ter sua fonte, antes de toda experiência, no eu representante, já que nenhum objeto pode ser representado se o ato de opor não estiver originariamente posto no Eu.

10. Como o segundo princípio revela uma ação condicionada por outra, o ato de pôr deve conservar-se e a identidade consigo mesmo serve de termo médio entre pôr e opor, o que afirma a permanência da intuição intelectual em todas as determinações e confirma que mesmo a forma incondicionada da oposição é em certa medida determinada pelo primeiro princípio, porque este determina a matéria.

11. A determinação da forma pela matéria não pode ser completa, sob pena de o Não-Eu não mais se distinguir do Eu, e aqui surge o problema da possibilidade do Não-Eu, idêntico ao da praticidade do Eu, cuja solução constituirá a matéria do terceiro princípio.

B. — O terceiro princípio

1. Com o terceiro princípio aproxima-se o domínio em que tudo se deixa provar, pois, enquanto no primeiro nada se deduz e no segundo apenas a matéria, o terceiro é quase inteiramente suscetível de prova, por ser determinado pela forma e por dois princípios.

2. A determinação da forma consiste em que os dois primeiros princípios fixam o problema a resolver e o primeiro impõe a obrigação de resolvê-lo, enquanto a matéria, a solução, se produz absoluta e incondicionalmente por um decreto da razão que corta a dificuldade quando a dedução não pode ir mais longe.

3. O Não-Eu suprime o Eu, mas está posto no Eu, já que a oposição supõe a identidade do Eu em que o oposto se defronta com o posto, de modo que o Eu não está posto no Eu na exata medida em que o Não-Eu nele está posto.

4. O Não-Eu só pode ser posto na medida em que o Eu contém um Eu posto ao qual ele se opõe, de modo que o Eu deve estar posto no Eu tanto quanto o Não-Eu nele está posto.

5. Essas duas antíteses, extraídas por análise do segundo princípio, mostram que ele se contradiz e se suprime a si mesmo.

6. Ele só se suprime, contudo, na medida em que o oposto suprime o posto, isto é, enquanto conserva seu valor e não se suprime.

7. O segundo princípio se suprime e não se suprime.

8. O mesmo deve valer para o primeiro princípio, pois, se Eu é Eu, tudo o que está posto no Eu deve nele estar posto, e o segundo princípio deve ao mesmo tempo estar e não estar posto nele, de modo que o Eu deixa de ser Eu e se obtém Eu = Não-Eu e Não-Eu = Eu.

9. Todas essas proposições são verdadeiras por serem deduzidas dos princípios, mas, se o são, a identidade da consciência, fundamento de todo saber, deve suprimir-se, o que é impossível.

10. É preciso encontrar na identidade da consciência um X que permita a subsistência das duas antíteses, X que, como o Eu e o Não-Eu, deve ser produto de uma ação originária Y do espírito humano.

11. A forma dessa ação já está determinada, pois o Eu e o Não-Eu devem subsistir sem se suprimirem reciprocamente e sem aniquilar a identidade da consciência.

12. Resta determinar em que consiste essa ação, isto é, qual é sua matéria.

13. Ser e não-ser, realidade e negação só podem ser pensados juntos se se limitam reciprocamente, de modo que o ato de limitação produz o limite, do qual, abstraídas realidade e negação, resta o conceito de divisibilidade, e a fórmula do princípio passa a ser a de que no Eu se opõe ao Eu divisível um Não-Eu divisível.

14. Assim como da forma do juízo se obtinham com o Eu a categoria de realidade e com o Não-Eu a de negação, obtém-se aqui a categoria de determinação ou limitação.

15. A partir desse ponto começa toda a dedução, pois toda a realidade está agora presente na consciência como uma substância cujos acidentes são o Eu e o Não-Eu, ao contrário do primeiro princípio, que não era substância nem algo, mas apenas o que era, excluindo de si toda predicação.

16. A matéria do terceiro princípio determina também a forma particular do sistema e de todas as suas proposições, que serão sintéticas e procederão por supressão recíproca e parcial dos opostos, engendrando conceitos cada vez mais particulares até que, tornada impossível toda conciliação, um decreto da razão ponha a subordinação do Não-Eu ao Eu.

17. A divisibilidade é apenas um elemento da possibilidade real e o aspecto mais exterior do verdadeiro terceiro princípio, cuja matéria é a solução definitiva do problema, só alcançada ao fim da dedução como conciliação real do Eu e do Não-Eu, sendo ela apenas o meio e a forma da união, que dá forma ao sistema e dele recebe sua matéria.

18. Estabelecer a conciliação do primeiro e do segundo princípios é expor o terceiro princípio, e descrever seu desenvolvimento completo é expor o sistema da Doutrina da Ciência.

C. — União do primeiro e do segundo princípio por meio do terceiro: a dedução do sistema da Doutrina da Ciência

§ I. — Parte teórica da Grundlage

Primeira seção: a causalidade do Não-Eu sobre o Eu, considerada do ponto de vista da causalidade do Não-Eu, é estudada do ponto de vista dessa mesma causalidade

1. Se a divisibilidade, síntese que corresponde à determinação, não resolveu o problema, é porque deixou subsistir elementos não conciliados, que a reflexão deve descobrir por análise.

2. A fórmula da divisibilidade, segundo a qual o Eu põe em si o Eu e o Não-Eu numa limitação recíproca, contém duas outras proposições.

3. O Eu põe o Não-Eu como limitado pelo Eu, princípio da ciência prática, na qual o Não-Eu é concebido como produto da causalidade do Eu.

4. O Eu se põe a si mesmo como limitado pelo Não-Eu, princípio da ciência teórica, na qual o Não-Eu é concebido como exterior e exercendo sobre o Eu uma ação causal.

5. As duas proposições estão em relação recíproca, pois não há ação sobre o mundo sem matéria dada nem mundo exterior sem a tendência do Eu a afastar o limite, sendo o Eu prático o fundamento real e o Eu teórico o fundamento ideal da consciência, razão pela qual a dedução deve partir do Eu teórico e chegar ao Eu prático.

6. Esse é o círculo da Doutrina da Ciência, que descreve como o Eu vivo chega à consciência de seu princípio, pois, não podendo a unidade absoluta aparecer como tal na consciência, sujeito e objeto se separam na forma do saber e sua unidade só se manifesta quebrada sob a forma da causalidade do objeto sobre o sujeito e do sujeito sobre o objeto, numa síntese quíntupla atada pela potência do Eu prático.

7. Essa síntese quíntupla deve ser considerada sob dois pontos de vista diferentes.

8. Do ponto de vista da causalidade do objeto sobre o sujeito, que é o da Grundlage, o ser da dupla relação determina a consciência dela, de modo que a representação aparece como decorrente da coisa e a consciência da tendência como decorrente da tendência, sendo as partes teórica e prática divisões da ciência teórica.

9. Do ponto de vista da causalidade do sujeito sobre o objeto, que é o da filosofia prática, a consciência da dupla relação determina seu ser, de modo que a coisa aparece como decorrente da representação, como finalidade, e a tendência como posta pelo Eu inteligente, como querer.

10. Os dois pontos de vista estão em relação recíproca e, no interior de cada um, cada termo da dupla relação deve ainda ser considerado sob dois pontos de vista.

11. A causalidade do objeto sobre o sujeito deve ser deduzida primeiro como estando no Eu, o que corresponde à dedução da imaginação, e depois como posta pelo Eu, que toma consciência do fato da imaginação e dele se apropria, o que corresponde à dedução da representação e ao Grundriss.

12. A causalidade do sujeito sobre o objeto deve ser deduzida como estando no Eu, tarefa do parágrafo 5 da Grundlage que conduz ao conceito de esforço e que Fichte abrevia voluntariamente.

13. Ela deve ser deduzida em seguida como posta pelo Eu, que toma consciência do esforço e dele se apropria, objeto dos parágrafos 6 a 11 da Grundlage, réplica da dedução da representação.

14. Essas são as quatro grandes sínteses que constituem o sistema total da filosofia teórica, e a quinta, que as reúne, é justamente a dos princípios, o terceiro princípio.

15. Na filosofia prática reaparece uma divisão correspondente.

16. A presente síntese põe o ser de todas as relações nela implicadas como um fato que nem o filósofo nem o Eu explicaram a si mesmos, sendo uma síntese de fato, uma síntese factícia.

17. Na síntese da relação, o princípio da ciência teórica contém as proposições contraditórias de que o Não-Eu determina o Eu e de que o Eu se determina a si mesmo, contradição evitada se o Eu põe no Não-Eu a realidade que lhe falta, de modo que a categoria de determinação se especifica na de determinação recíproca ou relação.

18. Na síntese da causalidade, como a determinação recíproca contradiz o conceito do Eu que se atribui toda a realidade, o Não-Eu só tem a realidade que o Eu nele põe e na medida em que o Eu é afetado.

19. Na síntese da substancialidade, o Eu, devendo pôr-se como determinado e ser ao mesmo tempo ativo e passivo, só pode pôr a diminuição de sua atividade em relação à totalidade dela, de modo que o quantum de atividade é passividade em relação à totalidade e atividade em relação ao Não-Eu.

20. A contradição não é vencida, pois afirmar que o Eu-substância põe absolutamente esse quantum equivale a dizer que o Eu infinito se torna finito de modo incompreensível, conforme uma harmonia preestabelecida que deixa sem explicação a referência dos limites a um Não-Eu, o que constitui o idealismo dogmático, idealismo qualitativo que aniquila sem razão algo da realidade absoluta do Eu.

21. Recorrer à causalidade, fazendo o Não-Eu determinar o Eu, limita-o sem que ele tenha consciência dessa limitação, o que constitui o realismo dogmático, realismo qualitativo por supor uma coisa em si qualitativamente diferente do Eu.

22. Na síntese da determinabilidade, a solução está na síntese da causalidade e da substancialidade, na qual o Não-Eu como fundamento real e qualitativo e o Não-Eu como fundamento ideal e quantitativo devem identificar-se.

23. Por meio do conceito de relação, causalidade e substancialidade devem estar em ação recíproca, cada uma aplicando-se apenas na medida em que permite a aplicação da outra, e o que traça o limite dessa aplicação é uma atividade livre da relação entre passividade e atividade, a atividade independente.

24. Para poderem subsistir juntas, a atividade em troca recíproca com a passividade e a atividade independente devem ser sintetizadas, entrando em relação recíproca.

25. Essa síntese deve então ser estabelecida.

26. Quando a atividade recíproca determina a atividade independente, trata-se da matéria da troca, isto é, do direito pelo qual os termos em presença são trocados.

27. Do ponto de vista da causalidade, a passividade do Eu supõe uma atividade contrária e independente, o que constitui o dogmatismo da coisa em si e conduz ao fatum espinosista.

28. Do ponto de vista da substancialidade, a atividade do Eu, embora limitada, pertence ao Eu absoluto e se produz por espontaneidade absoluta, de modo que pode não ocorrer, mas, se ocorre, é necessariamente limitada.

29. Quando a atividade independente determina a troca, trata-se da forma da troca, isto é, de como ela se opera em geral.

30. Do ponto de vista da causalidade, a troca é uma transferência de parte da realidade do Eu para o Não-Eu, em que o Eu é ativo e o Não-Eu passivo, sob a forma de um pôr por um não-pôr.

31. Do ponto de vista da substancialidade, o que é posto na totalidade é excluído da atividade posta como limitada, sob a forma de um não-pôr por um pôr, e a posição absoluta da totalidade torna possível a troca do limitado com o ilimitado, de modo que sujeito e objeto só se põem mediatamente um pelo outro, na mediatidade do pôr.

32. Atividade e troca recíproca determinam-se reciprocamente.

33. Forma e matéria da atividade e da troca determinam-se reciprocamente, e essas unidades sintéticas estão elas mesmas em troca recíproca.

34. Do ponto de vista da causalidade, a atividade como unidade sintética é a mediatidade do pôr, em que o Eu é posto como produtor do Não-Eu passivo na medida em que ele próprio é passivo e o Não-Eu ativo, identificando-se definitivamente o fundamento real ao ideal.

35. A troca como unidade sintética é a identidade entre o ato de fazer surgir algo no Não-Eu por um desaparecimento no Eu e a oposição essencial segundo a incompatibilidade da qualidade.

36. Dizer que a atividade determina a troca é fazer da mediatidade do pôr, posta como absoluta, o fundamento de toda a oposição do Eu e do Não-Eu, o que constitui um idealismo quantitativo, cujo princípio de que o Eu é finito absolutamente porque é finito deve ceder lugar a um idealismo superior, já que o finito implica algo que o limita.

37. Dizer que a troca determina a atividade é situar a fonte da mediatidade do pôr na oposição do Eu e do Não-Eu, de modo que o Eu, limitado sem sua cooperação, põe um Não-Eu pela lei do fundamento sem tomá-lo por coisa em si, o que constitui um realismo quantitativo.

38. Esse é o idealismo crítico de Kant, realismo quantitativo que difere do idealismo do mesmo nome porque neste a finitude do Eu é posta absolutamente, enquanto naquele é posta de modo contingente e não explicado.

39. Dizer que atividade e troca se determinam reciprocamente significa que o real e o ideal, o posto e o que põe, são idênticos, sendo lei do Eu só poder pôr o Eu negando o Não-Eu e vice-versa, de modo que ambos são simplesmente sujeito e objeto.

40. Do ponto de vista da substancialidade, a atividade da forma consiste em que o Eu limitado exclui de si algo indeterminado ao pôr-se como totalidade absoluta, e a atividade da matéria em que, ao excluir esse objeto, o Eu se põe também como não-totalidade, exigindo uma esfera superior determinável que contenha ambos, sendo idealismo quantitativo fazer a forma condicionar a matéria e realismo qualitativo fazer a matéria determinar a forma.

41. A atividade como unidade sintética é a identidade do ideal e do real, em que objetivo e subjetivo são reciprocamente determináveis e podem por isso ser apreendidos juntos e fixados pela imaginação, na compreensão sintética absoluta de ambos na esfera da determinabilidade em que permanecem opostos.

42. A forma da troca é a exclusão recíproca dos termos fora da totalidade absoluta e sua matéria é a determinabilidade, de modo que fazer a forma determinar a matéria torna relativo o fundamento da determinação da totalidade, enquanto fazer a matéria determinar a forma o torna absoluto.

43. A troca como unidade sintética identifica o fundamento absoluto e o relativo da totalidade, pondo absolutamente a exclusão recíproca dos termos e seu encontro.

44. Na síntese dessas duas determinações, dizer que a atividade determina a troca equivale a condicionar absolutamente o encontro de subjetivo e objetivo, permanecendo num idealismo quantitativo que deixa inexplicada a origem dos termos, sobretudo a do objetivo.

45. Dizer que a troca determina a atividade equivale a fazer do simples encontro dos opostos, e não de sua existência, a condição do ato de opô-los e concebê-los juntos, explicando a presença do objetivo por um choque sobre o Eu que, impedindo a extensão de sua atividade, o leva a pôr um objetivo pelo qual se limita.

46. Atividade e troca determinam-se reciprocamente porque o choque, devendo ser posto pelo próprio Eu, só é possível sobre sua atividade infinita, e sem o choque não haveria atividade pela qual o Eu se limita.

47. Torna-se assim possível a troca dos dois termos opostos, infinito e limitação.

48. Sem infinitude não há limitação, pois o Eu que recebe um choque ultrapassa o limite ao pô-lo e põe assim o limite em geral, indeterminado.

49. Sem limitação não há infinitude, pois é ao pôr o limite que o Eu se determina como infinito, pondo-se porém apenas como substrato da infinitude e não como aquele que a põe.

50. Como a atividade que empurra o limite é a mesma que o põe, o Eu se atribui o ato de pôr o infinito, mas, sendo infinito, deixa de empurrar o limite e de ser infinito, devendo novamente excluir o termo oposto, e assim indefinidamente.

51. Essa troca do Eu consigo mesmo, pela qual tenta apreender o infinito sob a forma do finito, é a imaginação, na qual causalidade e substancialidade se conciliam, sendo o Eu teórico real posto como devir da atividade ideal que se revelará na filosofia prática como aspiração infinita e que resolve o problema fundamental da filosofia teórica, pois por ela o Eu se determina como determinado por um Não-Eu.

Segunda seção: a causalidade do Não-Eu sobre o Eu, considerada do ponto de vista da causalidade do Não-Eu, é estudada do ponto de vista da causalidade do Eu (posição do Eu por si mesmo)

1. A partir desse momento a dedução deve refazer seu caminho em direção ao princípio do qual partiu.

2. O que o Eu é para a Doutrina da Ciência deve sê-lo também para si mesmo, percebendo-se como produtor do objeto, de modo que, não mais o filósofo de fora, mas o próprio Eu inteligente reflete sobre si, iniciando a história pragmática do espírito humano, que só se completa quando o Eu descobre em si e para si o fundamento definitivo da distinção entre Eu e Não-Eu.

3. A síntese da sensação, limite encontrado e fixado, é a síntese do Eu e do fato da imaginação, isto é, do padecer e do agir no Eu.

4. O Eu deve apropriar-se do fato da imaginação, no qual a atividade que vai ao infinito recebe um choque, reflete-se e reage espontaneamente, de modo que passividade e atividade se condicionam e sua união constitui uma atividade resistente, estado em que o Eu é intuição.

5. Esse substrato resistente deve ser posto para o Eu, que se opõe pela própria atividade algo que o torna passivo, produzindo inconscientemente um Não-Eu, enquanto uma segunda reflexão espontânea estabiliza a oscilação da imaginação num produto, marca do entendimento, e, permanecendo inconsciente essa reflexão, o limite é atribuído ao Não-Eu, de modo que o Eu se encontra limitado por um Não-Eu.

6. Na síntese da intuição produtora, reflexão sobre a sensação, o Eu deve pôr em si o intuinte como tal, refletindo sobre o produto fixado pelo entendimento e reproduzindo-o livremente pela imaginação reprodutora, o que só é possível em relação a um Não-Eu não intuído como causa do intuído, de modo que a atividade absoluta funda a relação recíproca entre intuição e intuído e o limite que a torna objetiva constitui a intuição externa, ainda não posta como tal, em que o limite é ao mesmo tempo ideal e real.

7. A síntese do entendimento, reflexão sobre a intuição, une sensação e intuição, determinado e determinável, no pensamento que fixa o limite no ponto temporal e espacial.

8. Como Eu e Não-Eu ainda são postos apenas como condicionados, resta suprimir a oposição entre a infinitude do limite e o limite determinado da sensação, o que se dá pelo pensamento como atividade livre de determinação do objeto, à qual corresponde exteriormente a substância pensada como força livre interna, noúmeno causa da afecção do Eu, de modo que o limite é o ponto comum da causalidade do Eu pensado como Eu em si e do objeto pensado como coisa em si, o ponto temporal e espacial.

9. A síntese do juízo, reflexão sobre o pensamento, une intuição e entendimento como poder de fazer oscilar o limite fixado pelo entendimento.

10. Entra-se num novo domínio em que o Eu, que até então só tomara consciência dos produtos de sua atividade inconsciente como dado espaçotemporal vindo de fora, passa a apreender sua própria atividade sob a forma do entendimento, do juízo e da razão, sendo o entendimento a espontaneidade da reflexão que fixa os produtos da imaginação e o juízo a oscilação da imaginação entre contrários, ambos constituindo a própria razão ainda inconsciente.

11. Quando o Eu real tomar consciência da razão, a reflexão do filósofo e a do Eu serão uma só, e o Eu real, situado no ponto de vista da Doutrina da Ciência, poderá elevar-se ao princípio supremo da filosofia teórica.

12. A causalidade deduzida na síntese do entendimento ainda é uma relação recíproca que não fornece o fundamento definitivo da oposição real entre Eu e Não-Eu, pois a determinação depende do juízo como faculdade de pôr ou não pôr um objeto no entendimento, faculdade que pressupõe o objeto já posto, assim como nada pode ser posto no entendimento sem estar já no juízo.

13. A síntese da razão une entendimento e juízo como fixação do poder de abstração, isto é, da oscilação da faculdade de julgar, na abstração transcendental e absoluta.

14. A faculdade de pôr determinações possíveis, elevada à consciência, mostra-se incapaz de ser fundamento absoluto, por não bastar a si mesma, devendo ter sua fonte numa atividade verdadeiramente absoluta que faz abstração radical de todo objeto, levando entendimento e juízo ao Absoluto pela fixação absoluta na exclusão e pela abstração absoluta.

15. Sintetizadas as duas faculdades na razão, põe-se enfim para o Eu um fundamento absoluto de diferenciação, segundo o qual o Não-Eu é por essência aquilo de que se pode abstrair e o Eu aquilo que escapa a toda abstração, apreendendo-se o Eu como sujeito determinado por si e autodeterminante, a razão pura em sentido teórico.

16. O Eu reencontra em si o processo pelo qual o filósofo se elevara ao primeiro princípio abstraindo do contingente A ou deixando de lado o objeto, de modo que ficam provadas e postas para o Eu as leis da abstração e da reflexão pelas quais a Doutrina da Ciência constitui seu sistema.

17. A razão, de posse de si, pode pôr-se como razão, mas o Eu, princípio formal como abstraente absoluto, deve representar-se também como poder absoluto de pôr e ser consciência real de si, o que, não restando nele nada a abstrair, só pode ocorrer determinando-se exteriormente em relação a um oposto, o Não-Eu.

18. Se o Eu reflete sobre si e se determina, o Não-Eu é posto como infinito e ilimitado, e se reflete sobre o Não-Eu e o determina, este é posto como determinado e limitado, conflito permanente entre intuição e conceito que funda as antinomias e no qual o Eu deduz por si a necessidade apagógica do segundo princípio como condição da representação do Eu representante.

19. Esse conflito é resolvido por uma reflexão superior em que o Eu se percebe como o que determina absolutamente e como fonte da reflexão que instituía o conflito, revelando-o como conflito do Eu consigo mesmo e deduzindo para o Eu a ação recíproca que exprime o terceiro princípio, com o que o Eu chega à representação para si do Eu representante.

§ II. — Parte prática da Grundlage

Terceira seção: a causalidade do Eu sobre o Não-Eu, considerada do ponto de vista da causalidade do Não-Eu, é estudada do ponto de vista dessa mesma causalidade

1. Na ciência teórica, um primeiro grupo de sínteses explicou hipoteticamente a possibilidade do fato originário da união do Eu e do Não-Eu na imaginação, e um segundo grupo, de reflexões reais e naturais presentes em todo espírito e submetidas às mesmas leis das reflexões filosóficas, refez o caminho em sentido inverso para elevar à consciência essas reflexões que permaneciam inconscientes.

2. Na ciência prática trata-se de estabelecer o fato da síntese do Eu inteligente e do Eu absoluto no Eu prático, e, embora se pudesse seguir o mesmo método duplo, Fichte omite por simplicidade a série filosófica que conduz à síntese do esforço, deduzindo de uma só vez o sistema das sínteses reais, o sistema das tendências, e as sínteses filosóficas que elas implicam.

3. No Manuscrito de 1793 os dois métodos já estavam indicados, mas ali se partia da antítese capital para empregar o método teórico, ao passo que este deve chegar à síntese capital em vez de partir dela, razão pela qual a dedução da Grundlage, embora incompleta, é mais correta.

4. Na síntese do esforço, o Eu inteligente, uno consigo em sua esfera, não é idêntico ao Eu absoluto por depender de um choque do Não-Eu, e, como não se pode suprimir a inteligência, deve-se suprimir sua dependência, fazendo o Eu causar o Não-Eu, o que restabelece a proposição fundamental da ciência prática de que o Eu se põe como determinante do Não-Eu.

5. Essa causalidade, que suprimiria o Não-Eu e a representação e cuja negação romperia a unidade do Eu absoluto, só pode ser afirmada como devendo ser, representada como irrepresentável, causalidade que não é causalidade, isto é, esforço, finito por não atingir o absoluto e infinito por superar-se sem cessar, síntese do Eu inteligente e do Eu absoluto que constitui o Eu prático, o qual não é, mas deve ser infinito.

6. O esforço deduz-se geneticamente da lei pela qual o Eu, sendo em essência toda a realidade, deve refletir sobre si para sê-lo para si, o que exige que sua atividade centrífuga receba um choque e se torne centrípeta, de modo que o Eu, ao refletir sobre o limite, é limitado na série do real, Eu teórico, e, ao ter consciência de sua finitude em relação à infinitude que deve ter, é incitado a ir ao infinito e realizar o Absoluto na série do ideal, Eu prático.

Quarta seção: a causalidade do Eu sobre o Não-Eu, considerada do ponto de vista da causalidade do Não-Eu sobre o Eu, é estudada do ponto de vista da causalidade do Eu

1. O esforço deve agora ser posto no Eu.

2. Na síntese do mecanismo material, o esforço como fato dado no Eu é concebido como oposto a um esforço inverso que o equilibra, estágio da inércia e do mecanismo material.

3. Na síntese da tendência, a oposição entre esforço e resistência aparece como oposição entre o sentimento do esforço e o sentimento de limitação, e o esforço que, não alcançando causalidade efetiva, retorna sobre si para produzir-se a si mesmo é a tendência.

4. O sentimento é a limitação da atividade real do Eu, posta pela reflexão da atividade ideal, e o limite é sentido porque a atividade tende a ultrapassá-lo, como um não-poder que implica algo exterior resistente, de modo que a união dos sentimentos de esforço e de limitação dá o sentimento de força, estágio do instinto.

5. Na síntese da tendência à representação, esforço e tendência se unem e sua oposição torna-se a do sentimento e da inteligência, pois o Eu, refletindo livremente sobre si, põe-se como determinando-se a sentir e explica a si mesmo sua limitação pondo como causa um objeto que atribui ao Não-Eu, enquanto a tendência, sem causalidade sobre o Não-Eu, impele a atividade ideal a produzir para além do limite o objeto que ela produziria se fosse causal, estágio da inteligência.

6. Como o Eu não reflete sobre sua tendência à reflexão, ignora a atividade do Eu sentido que a impulsiona, de modo que a atividade real limitada é objetivada como Não-Eu limitante e o Eu sentante se sente passivo, resultando que da realidade em geral, do Eu como do Não-Eu, não há conhecimento, mas sentimento, sendo a realidade objeto de crença.

7. Na síntese da aspiração, a tendência e a tendência à representação unem-se na tendência à realidade, pois o Eu, condicionado por um limite sentido como realidade, tende a produzir uma realidade fora de si, mas, sem causalidade, essa tendência é uma atividade vazia sem objeto que tende sem cessar a um objeto, a aspiração, raiz da determinabilidade que constitui a imaginação.

8. Pela aspiração o Eu é impelido para fora de si e pode sentir-se limitado em relação a essa extensão, e, como a realidade nada mais é que o sentimento de limitação, a aspiração tende a produzir um sentimento oposto ao atual, o que o Eu como atividade ideal não pode fazer por não poder limitar-se a si mesmo.

9. Na aspiração, a tendência torna-se tendência à mudança e a tendência à representação torna-se tendência à determinação, que incide não sobre a matéria, imutável sob pena de aniquilar toda tendência e representação, mas sobre sua determinação, devendo ser ela mesma limitada por uma tendência inversa do Não-Eu a determinar-se por si, o que dá ao Eu o sentimento de ser limitado pela natureza da matéria.

10. Por essa necessidade sofrida pela livre reflexão, os limites da atividade real tornam-se propriedades das coisas que a atividade ideal apenas representa, e a tendência, não podendo transformar as coisas, esforça-se por transformar as representações e, como os sentimentos fundam os objetos, por mudar de sentimento, na tendência à mudança.

11. Passar a outro sentimento exige que o sentimento presente seja determinado pela atividade ideal, isto é, acompanhado de intuição, pois o caráter de outro no novo sentimento não pode ser sentido, mas intuído, de modo que na aspiração o sentimento está sempre unido à intuição.

12. Na síntese da tendência absoluta, tendência à representação e aspiração se unem, manifestando-se a tendência à mudança como tendência à satisfação e a tendência à determinação como tendência à harmonia do Eu consigo, e a reflexão só pode pôr dois sentimentos opostos porque cada um, para ser posto e determinado, precisa ser limitado pelo outro, sem o que o Eu nada sentiria e se aniquilaria.

13. Essa limitação recíproca dos sentimentos encontra-se no fato de que todo sentimento é acompanhado de aspiração a outro, necessariamente postulado, que se manifesta em relação ao anterior como satisfação, sendo o ponto em que cessa a aspiração e começa a satisfação o limite que determina ambos.

14. Quando a ação ideal que proporciona a satisfação concorda com a tendência à mudança, o Eu reflete sobre esse acordo consigo e o sentimento acompanha-se de aprovação, dizendo-se o objeto agradável, ao passo que o desacordo gera desaprovação e o objeto se diz desagradável.

15. A aspiração tende à harmonia da ação e da tendência, à unidade do Eu consigo, que nunca se realiza enquanto se persegue um sentimento ou objeto particular, exigindo a exclusão de todo objeto determinado, de modo que resta apenas a tendência em sua absolutidade, em que sujeito e objeto da aspiração são idênticos e a aspiração se torna tendência pela tendência, que se quer e se satisfaz por si.

16. Refletindo livremente sobre essa tendência absoluta, o Eu põe sua essência absolutamente porque a põe, o que constitui a lei absoluta do imperativo categórico, que não prescreve fim particular algum e é, portanto, formal.

17. Nesse nível, o Eu-sujeito como ação e o Eu-objeto como tendência põem-se como absolutamente autodeterminantes, mas devem determinar-se reciprocamente conforme a identidade do Eu, de modo que a tendência é limitada pela ação que dá lugar a um sentimento e a ação livre pode ser considerada determinada pela tendência, gerando, conforme seu objeto seja ou não adequado à tendência, aprovação moral e contentamento de si ou desaprovação moral e descontentamento, o que mostra que a causalidade sobre o mundo sensível, objeto de crença, tem seu princípio na atividade ideal, sendo o conceito de fim e o de representação imagens dessa atividade que respectivamente precedem e seguem uma determinação da atividade real.

18. A dedução retorna a seu ponto de partida, o esforço infinito, que, antes posto no Eu para um observador externo, é agora posto no Eu, para ele e por ele, livremente pelo Eu subjetivo, concluindo-se a síntese do primeiro e do segundo princípios e revelando-se a matéria do terceiro num Eu que, à maneira do Eu absoluto, se põe para si e por si e se realiza por si mesmo, o Eu prático.

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