1.2 Primeiro Princípio
GUEROULT, Martial. L'évolution et la structure de la Doctrine de la Science chez Fichte. 2 volumes. Paris: Les Belles Lettres, 1930. (Reedição: Paris: Vrin, 1982).
§ I. — A construção do Eu na Grundlage
1. A dedução genética do diverso da consciência exige remontar a um primeiro princípio situado acima da experiência, o qual não pode ser um fato originário, como pretendia Reinhold, porque todo fato é uma determinação condicionada que, em vez de explicar, precisa ela mesma ser explicada.
2. Não podendo ser um fato, o princípio só pode ser uma Tathandlung, isto é, uma ação produtora na qual o ato de produzir e o ser que dele resulta estão originária e intimamente unidos.
3. Por ser absolutamente primeiro, esse princípio não pode ser demonstrado, apenas descoberto, o que coloca a dificuldade de encontrá-lo, já que ele não é em grau algum um fato de consciência.
4. Embora não pertença ao fato, o princípio se manifesta de fato na consciência real, de modo que a reflexão sobre essa manifestação, despojando-a por abstração de seus elementos contingentes, mostra que a Tathandlung deve necessariamente ser pensada no fundamento de toda consciência.
5. O ponto de partida mais cômodo na consciência empírica é um fato de certeza formal imediata, no qual a matéria aparece como o elemento contingente a abstrair, e esse fato é a proposição A = A, expressão da identidade de toda coisa consigo mesma.
6. Se a existência de A particular é contingente, a relação necessária X, segundo a qual se A é, A é, possui certeza imediata e, sendo o Eu que julga segundo essa lei presente nele sem outro fundamento, X está absolutamente posto no Eu para o Eu.
7. Como X só é possível se A é posto e X está realmente posto no Eu, A é posto no Eu e pelo Eu, de sorte que existir idêntico a si mesmo é propriedade do Eu, e o absolutamente posto se exprime como Eu = Eu, Eu sou Eu, eu sou.
8. Enquanto a proposição A = A era condicionada quanto ao conteúdo, a proposição Eu sou Eu é incondicionada tanto no conteúdo quanto na forma, pois o Eu é posto absolutamente com o predicado da identidade consigo mesmo.
9. Ainda assim só se alcançou um fato, e não o ato supremo, pois o “eu sou” repousa na obrigação, ela mesma fato de consciência, de tomar por certa a identidade contida em A = A, sendo portanto apenas o fato mais alto da consciência empírica.
10. Torna-se necessário chegar até a Tathandlung.
11. Sendo A = A um juízo e todo juízo uma ação, o fundamento dessa ação só pode ser o “eu sou” absolutamente posto e fundado em si, de modo que a pura atividade do Eu é o ato pelo qual ele se põe a si mesmo, sendo simultaneamente ação e produto da ação, a única Tathandlung possível.
12. Descoberta no “eu sou” a ação de pôr-se a si mesmo, a construção liberta-se da facticidade, pois longe de provar o “eu sou”, a proposição A = A é por ele provada e determinada como princípio da lógica, e da simples forma do juízo, abstraída de sua ação, resulta a categoria de realidade.
13. O princípio adquirido pode exprimir-se conceitualmente sob a forma de uma síntese quíntupla.
14. Do ponto de vista objetivo, na proposição Eu sou Eu, o Eu-sujeito é o absolutamente posto e o Eu-atributo o Eu que é, de modo que o Eu é porque se pôs e, reciprocamente, pôs-se porque é.
15. Do ponto de vista subjetivo, se o Eu só é porque se põe, ele só é para o Eu que põe e só se põe para o Eu que é.
16. Na síntese dos dois pontos de vista, pôr-se e ser são idênticos para o Eu, o Eu que se põe e o Eu que é são idênticos, e objetivo e subjetivo coincidem na fórmula segundo a qual sou absolutamente para mim o que sou porque sou.
17. Cabe considerar também o Eu segundo sua natureza própria, que é a atividade.
18. Pondo-se por si mesmo e absolutamente para si mesmo, o Eu possui uma atividade centrípeta de reflexão que pressupõe uma atividade centrífuga, ambas originariamente infinitas e indistinguíveis, diferenciáveis apenas por uma limitação fortuita, ao passo que em Deus, onde não há limitação, essa identidade absoluta de sujeito e objeto constitui o Eu puro.
19. Descrever a Tathandlung equivale a objetivá-la e contradizer sua essência, fixando no conceito a agilidade interna da atividade sob a forma da dualidade e da reciprocidade, razão pela qual o “eu sou” é um juízo tético cujo lugar do predicado permanece vazio e aberto a uma infinidade de determinações que jamais exprimem adequadamente o Eu.
20. A consciência de que se divide o que é uno pressupõe uma consciência imediata e extraconceitual na qual a atividade originária é vivida e não concebida, isto é, a intuição intelectual, que se desdobra em uma auto-intuição originária, manifesta na evidência de A = A, e numa intuição dessa auto-intuição, sendo que a primeira, permanecendo ignorada, gerava a contradição entre o dizer e o fazer ao atribuir a uma coisa estranha a identidade da qual o Eu era a fonte.
21. A construção eleva essa auto-intuição à consciência como conceito da Tathandlung e se torna possível por uma segunda auto-intuição, na qual a reflexão abandona o elemento estranho A e retorna ao próprio Eu, fazendo cessar a contradição entre a palavra e o ato.
22. A construção apresenta assim um duplo aspecto, o lógico, mais aparente e marcado pelo emprego do princípio de identidade, e o psicológico, menos visível, que consiste na penetração de si pela qual o Eu realiza a atividade que o constitui.
23. A ênfase no caráter lógico é deliberada, pois herdeira das discussões com Maimon, Reinhold e Schulze sobre a necessidade de fundar a filosofia no princípio de identidade, e embora a intuição da atividade introduza um elemento de psicologia concreta ausente no kantismo, o princípio nada tem de psicológico, constituindo uma extensão da lógica transcendental na qual o racional domina sempre o psicológico.
§ II. — A construção do Eu na nova exposição de 1797
1. Depois de estabelecer na Grundlage a certeza do princípio e sua força para fundar a lógica comum, Fichte procura mostrar quanto a construção do conceito de Eu está associada à vida do próprio Eu, recorrendo a construções mais simples, como as das duas Introduções e da Nova exposição de 1797, que evidenciam melhor a natureza e o papel da intuição intelectual.
2. Para construir o Eu basta pensar-se e observar-se pensando, o que fornece um conceito do Eu, e observar como esse conceito se produz revela que no pensar se é ativo e livre, arrancando-se das coisas para dirigir o pensamento ao Eu, consciência dessa atividade que é a primeira condição para compreender a Doutrina da Ciência.
3. A ação determinada que gera o conceito de Eu distingue-se das demais por ser o retorno da atividade sobre si, em que sujeito pensante e objeto pensado são idênticos, sendo essa ação do Eu sobre si mesmo a intuição intelectual, fonte do conceito, da qual a consciência comum só apreende o conceito, isto é, a atividade fixada como substrato imóvel.
4. Intuição e conceito, como atividade e repouso, só podem ser postos um pelo outro, pois só se apreende a agilidade do espírito ao observar o ato de arrancar-se da contemplação imóvel, de modo que o conceito, acabamento da consciência, é a própria intuição apreendida não como atividade mas como repouso.
5. A intuição intelectual é estritamente inconcebível, não podendo ser explicada, deduzida nem demonstrada, mas apenas encontrada em si mesmo, pois nada na consciência ocorre sem ela.
6. Se o processo de construção não se reduz a uma investigação psicológica, tampouco é puramente lógico, já que a potência lógica da Doutrina da Ciência consiste em pôr em obra o sentido da visão intelectual, que nenhuma lógica pode conferir na falta da intuição.
7. A intuição intelectual não existe separadamente como ato completo da consciência nem num mundo separado, mas apenas isoladamente no pensamento do filósofo, estando necessariamente ligada à intuição sensível e ambas ao conceito, de modo que negar uma sob pretexto de sua união com a outra seria igualmente insensato.
8. O filósofo chega à representação isolada da intuição intelectual raciocinando sobre os fatos evidentes da consciência, pois a convicção de ser a causa ativa das próprias representações e obras, que a intuição sensível não pode fundar, exige a intuição da própria atividade, encontrada como fato pelo filósofo e como Tathandlung pelo Eu originário.
§ III. — Valor da intuição intelectual
1. Surge para a interpretação um duplo problema relativo à realidade e ao alcance da intuição intelectual como Tathandlung.
2. Fundada nos fatos evidentes da consciência, a intuição intelectual depende da realidade desses fatos, que muitas vezes passaram por ilusões.
3. Concebida pela Doutrina da Ciência como abstração, a intuição intelectual deixa em aberto como uma abstração poderia explicar o mundo real.
4. O primeiro problema é o da relação entre crença e princípio, pois a filosofia transcendental se funda na crença na realidade da atividade e da liberdade apreendidas na intuição, enquanto o dogmatismo, reduzindo tudo a produto da coisa em si, faz desses fatos de consciência meras ilusões e destrói assim o alicerce da construção.
5. O dogmatismo também parte de uma crença, a crença na coisa em si, o que deixa o idealista livre para partir da crença oposta na liberdade e construir um sistema no qual os fatos de consciência recuperam sua realidade e a coisa em si se torna uma quimera.
6. Sem refutar o dogmatismo, já que postula a liberdade que ele nega, a Doutrina da Ciência mostra que este nada pode contra ela, pois na base de ambos há um ato de fé e uma escolha entre a coisa e a liberdade, escolha que só o idealismo pode reconhecer como ato livre.
7. O dogmatismo é incapaz de explicar a experiência, pois a causalidade concerne a uma série real única e não pode fazer surgir da coisa a dupla série do ser e da percepção própria da inteligência, ao passo que a Doutrina da Ciência deduz da inteligência o sistema de suas ações e a representação do mundo material.
8. A crença na realidade da liberdade justifica-se pela presença da lei moral, cuja consciência imediata é ela mesma intuição intelectual e obriga a reconhecer realidade aos fatos de partida, fazendo do idealismo transcendental o único modo de pensar em que especulação e lei moral se unem intimamente.
9. Surge então a dificuldade de que, se a intuição do princípio é evidente por si, a garantia da lei moral parece inútil, e se tal garantia é necessária, perde sentido a pretensa evidência geométrica da Doutrina da Ciência.
10. Intuição e crença não se invadem, pois a intuição mostra imediatamente como algo é sem dizer se é realidade ou sonho, e é o sentimento de certeza, fundado no dever-ser que exige da faculdade teórica a representação da identidade de sujeito e objeto, que garante a realidade do que é intuído e prova que a solução foi encontrada.
11. A lei moral funda a crença na realidade da intuição, enquanto a intuição traz a universalidade, pois na construção do Eu se vê imediatamente que, em todo tempo e para todo ser racional, o Eu é identidade de sujeito e objeto.
12. Embora a crença esteja no ponto de partida, a Doutrina da Ciência funda-se realmente na intuição intelectual da lei, que exige a si mesma e se realiza por exigir-se, gerando um contentamento de si que constitui a certeza primeira e torna o idealismo transcendental o único modo de filosofar conforme ao dever.
13. O princípio da Doutrina da Ciência é postulado em sentido próprio por ser ao mesmo tempo teórico, como construção originária que não se demonstra mas se executa, e prático, porque se está moralmente obrigado a efetuá-la, e por isso a prescrição de tomar consciência de si como ser espiritual liga indissoluvelmente a vontade moral à decisão da inteligência, ao contrário do sistema de Beck, cujo postulado sem elemento prático não obriga e se reduz a um problema.
14. O Eu construído pela Doutrina da Ciência é uma abstração, formada como qualquer conceito, sendo aquilo que subsiste quando a abstração termina, isto é, a própria atividade que abstrai, e tomar tais abstrações por coisas reais seria pura exaltação imaginativa.
15. Coloca-se então a questão de como uma tal abstração pode explicar o real e de como garantir que a imagem corresponde adequadamente ao representado.
16. Essa imagem implica a realização consciente de uma intuição intelectual cuja característica é pôr o percebido como idêntico ao que percebe, revelando que a capacidade de auto-observação que permite à Doutrina da Ciência construir seus conceitos é a essência mesma do Eu originário.
17. A realidade é a auto-intuição do Eu reapreendida pela intuição do filósofo e fixada num conceito, de modo que o filósofo apenas realiza de forma mais consciente o ato pelo qual todo Eu existe, sendo a intuição intelectual o elo entre o concreto e o abstrato, a vida e a especulação, sujeito e objeto.
18. Persiste porém a dificuldade de garantir a objetividade de uma intuição que nasce sempre de um ato subjetivo e arbitrário de liberdade, e de provar que um pensamento livre surgido no tempo corresponde ao pensamento necessário e originário que explica todas as representações.
19. Cabe distinguir na representação o que se refere ao filósofo, isto é, tudo o que é contingente e temporal, e o que pertence ao Eu, ao qual nada pertence senão o retorno sobre si.
20. O Eu não preexiste ao retorno sobre si, pois só por esse ato originário se torna para si mesmo, preexistindo apenas para o filósofo que já percorreu a experiência, e como no ato do Eu o filósofo vê que não pode ir mais alto nem pôr uma coisa atuante por trás dele, a intuição é por natureza objetiva.
21. A demonstração da objetividade assume a forma de um teorema segundo o qual, se o pensamento do Eu pensado não fosse idêntico ao Eu pensado, a regressão infinita entre pensamento e pensamento do pensamento tornaria impossível a consciência do pensamento, de modo que a representação do Eu absoluto como intuição intelectual é idêntica ao representado.
22. A crença errônea num Eu objetivo preexistente nasce da incapacidade de abstrair das condições da experiência filosófica, que leva a tomar o conceito imóvel pela fonte de tudo, erro do qual se liberta quem constrói por si os próprios conceitos e projeta o ato de retorno sobre si fora das condições empíricas do filósofo.
23. Só um dogmático pode cometer essa confusão, pois um Eu existente em si, distinto da intuição intelectual que dele se realiza, seria algo desconhecido do qual se falaria absurdamente, quando na verdade é a consciência de si que condiciona tudo o que se pode conhecer e dizer.
24. A insistência com que Fichte afirma a primazia e o valor objetivo da intuição intelectual contrasta com a fragilidade da questão, pois em toda a construção projeta-se como Absoluto a energia da reflexão empregada pelo filósofo, de modo que, embora de direito o Eu originário seja posto como fonte da intuição, de fato é esta que se projeta como Eu originário.
25. Essa projeção evidencia-se na exposição de 1797, onde ao ato presente e consciente de pôr-se é preciso pressupor um outro pôr-se sem consciência clara que o condiciona, sendo essa pressuposição uma projeção do próprio ato de intuição intelectual que identifica o pensamento originário ao pensamento desse pensamento, o que levanta a questão de sua legitimidade.
26. O Eu pensado só se realiza para a consciência por um ato produzido no momento, e por isso esse ato é projetado como o ato mesmo do Eu originário, segundo a fórmula de que algo é assim porque assim o faço.
27. Para pensar esse pensamento é preciso já tê-lo em si como um em-si impenetrável ao qual a intuição se submete, e do ponto de vista da produção imediata não se pode saber se o originário provém da intuição ou o inverso, de modo que o Eu originário, absoluto e eterno, deve ser posto como independente da energia do construir, que só intervém no conhecimento de sua autocriação.
28. Negar no Absoluto a energia apreendida pela consciência é negar a consciência e com ela a própria representação do Absoluto, o que gera um dilema entre fazer da consciência uma ilusão, e com ela o Absoluto representado, ou fazer da consciência a fonte do Absoluto, reduzindo à ilusão o que se apresenta como independente dela.
29. Diante dessa dificuldade, Fichte não desata o nó mas o corta, optando pelo idealismo, razão pela qual não chega a resolver o problema.
30. Não podendo libertar-se da consciência atualmente intuída, a construção é incapaz de construir um Absoluto que exclua o ato arbitrário da intuição e acaba fazendo desse ato um Absoluto, declaração que não se demonstra nem se justifica, pois resulta apenas da impossibilidade constatada de ir além da consciência.
31. A suposta prova pela regressão infinita é apenas uma afirmação disfarçada desse fato, pois só autoriza dizer que a identidade entre pensamento originário e pensamento do pensamento existe para e pela consciência pura, e não que o Originário em si seja essa identidade, o que aproxima o argumento do paralogismo que Kant censurava na psicologia racional.
32. A impossibilidade de conceber um ser do pensamento distinto da consciência constata apenas a incapacidade de sair desta, o que não equivale a ver o Absoluto identificar-se com ela, e se só essa incapacidade justifica seu título de princípio absoluto, é porque nada nela mesma o merece.
33. Mais grave é que a facticidade contradiz a Tathandlung, pois o postulado inicial se reduz ao fato da incapacidade de sair de si, e o filósofo, cujas intuições temporais e factícias não o elevam à fonte produtora, converte a energia da intuição em Tathandlung justamente porque esta lhe escapa.
34. O fato de a consciência de si condicionar todo ser fundamenta a afirmação de que o ser anterior à consciência é uma quimera produzida por ela e, na medida em que nega a energia da reflexão, não é o Absoluto, mas sua negação qualitativa, o Não-Eu.
35. A solução da primeira filosofia de Fichte está condenada a ser provisória, pois elevar-se à verdadeira Tathandlung exigirá negar a projeção e pôr o Absoluto fora da consciência pura como sua negação, embora a condição da consciência pura continue sendo a identificação do Pensamento originário e do pensamento desse Pensamento, agora como identidade de elementos absolutamente diferentes, identidade fecunda ou negatividade.
36. O Originário residirá então para além da identidade criada pelo ato do Eu puro, no Não-Saber em que é posição absoluta, segundo momento da Doutrina da Ciência correspondente à exposição de 1801, cujo surgimento exigirá o desenvolvimento do sistema, a querela do ateísmo e a crítica de Schelling.
37. A noção de Tathandlung obriga a ir ainda mais longe, suprimindo o hiato e a facticidade do Saber pela apreensão da energia em sua fonte eterna, o que revela a intuição como efeito que se projeta a si mesmo como Absoluto e projeta sua fonte ora como reflexo sem realidade, ora como em-si incognoscível, e remontar à produção originária desse efeito será o terceiro momento, o da Doutrina da Ciência de 1804.
38. No primeiro momento, o primeiro princípio consiste em que o Eu não deve renegar-se, mas pôr sua liberdade como Absoluto e Princípio, subordinando o ser ao para-si e absorvendo a quididade no ato factício, de modo que a anterioridade do Eu representado em relação ao ato do filósofo é apenas aparente, pois esse Eu não é senão o que a inteligência representante realiza no momento.
39. Essa intelectualização do Eu e essa exaltação do sujeito pouco elevam acima de Reinhold e mal se conciliam com o interesse prático, razão pela qual, em 1804, Fichte tratará essa primeira doutrina como uma filosofia estranha à sua, associando-a a Reinhold e Bardili e afirmando que o Eu puro sempre foi um produto, inferior à produção.
40. O desenvolvimento do sistema, sob a exigência da filosofia prática de um mundo e de uma comunidade de seres, forçará a reintroduzir uma realidade substancial irredutível à energia da reflexão, conduzindo a Doutrina da Ciência, segundo o método apagógico, a buscar além do Eu puro sua produção e a tender a um panlogismo genético jamais plenamente alcançado, distinguindo princípio e proposição axiomática e enfrentando, como o hegelianismo, a dificuldade do primeiro começo já meditada por Platão e Aristóteles.
