4 O que é novo
FERRARIS, Maurizio. Goodbye Kant! Cosa resta oggi della Critica della ragion pura. Milano: RCS Libri, 2012.
Kant e o ornitorrinco
1. Para situar Kant em seu tempo, o capítulo anterior mostrou o quanto ele devia a seus predecessores, num jogo de vinho novo em odres velhos que em filosofia costuma ser vinho velho em odres novos.
2. Chega o momento de dar a Kant o que é de Kant e reconhecer, ao lado das continuidades, as novidades revolucionárias de sua obra, em grande parte ligadas às teses substantivas já expostas e reunidas no esquema das inovações.
3. As novidades da Crítica da Razão Pura situam-se em ao menos quatro níveis, teoria do conhecimento, teoria da mente, ontologia e teoria do raciocínio ou lógica, o que explica os dez anos de composição do livro e o fato de coisas novas serem designadas por palavras novas ou renovadas.
4. O par fenômeno e númeno constitui a grande transformação na teoria do conhecimento e corresponde à tese copernicana de que as coisas nunca são conhecidas em si mesmas, mas apenas como aparecem através do filtro das duas formas puras da intuição e das doze categorias.
5. Dedução, esquematismo e imaginação são as palavras-chave da teoria kantiana da mente e explicam como o pensamento pode regular a experiência.
6. Os cem táleres são a palavra de ordem da ontologia kantiana, segundo a qual, contra a tradição racionalista, a existência não é uma determinação lógica ou predicado, mas um pressuposto ontológico, de modo que uma mesa não é de madeira e além disso existente, mas existe, e seu modo de existir é ser de madeira e assim por diante.
7. Os juízos sintéticos a priori são a verdadeira inovação na teoria do raciocínio, pois instauram uma nova lógica aplicável não só ao pensamento mas também à experiência, substituindo os juízos analíticos baseados no princípio de não contradição por juízos regidos pela regra de que toda experiência deve remeter à unidade sintética da apercepção, isto é, ao eu penso.
8. Seria injusto subestimar as inovações kantianas ou seu gênio de reciclagem, já que os tratados pré-kantianos quase não contêm essas noções e, quando há indícios delas em autores próximos, os conteúdos são muito diferentes, como a fenomenologia de Lambert, concebida para corrigir ilusões, a imaginação de Tetens, sem papel decisivo, a ausência de dedução e esquematismo entre empiristas e leibnizianos, que aproximavam sensibilidade e intelecto, e o esquecimento moderno da crítica medieval à existência como predicado.
9. As duas primeiras inovações, na teoria do conhecimento e na teoria da mente, pressupõem um idealismo forte, enquanto as duas últimas, na ontologia e na lógica, são fortemente realistas, de modo que todo o edifício kantiano assenta sobre areia e essa ambiguidade explica a multiplicidade de suas leituras.
Fenômeno e númeno
1. No núcleo da teoria do conhecimento está a distinção entre os fenômenos, aparências necessárias e não percepções enganosas, e os númenos, as coisas em si às quais por hipótese não há acesso, novidade que Schopenhauer associou a Platão e à filosofia indiana, mas que em Kant não tem nada de místico, pois os fenômenos constituem o único conhecimento disponível ao senso comum e à filosofia numa visão científica do mundo.
Dedução, esquematismo e imaginação
1. Na teoria da mente, Kant busca estruturas mediadoras entre o nível dos conceitos e o da percepção e precisa construir com as próprias mãos uma psicologia especulativa ou transcendental, gerando estranhos ornitorrincos conceituais nascidos da tensão entre a nítida separação de sensibilidade e intelecto, alheia a Leibniz e aos empiristas, e a impossibilidade de experiência sensível sem conceitos.
2. Os três ornitorrincos mais desafiadores são a dedução, que mostra como as categorias da mente tornam o mundo possível, o esquematismo, que explica como os conceitos puros do intelecto se aplicam à experiência, e a imaginação transcendental, faculdade anfíbia, em parte sensível e em parte inteligível, e criadora, à qual cabe papel essencial nas duas primeiras no momento crucial de lançar uma ponte entre mente e mundo.
Os cem táleres
1. Na ontologia, Kant especifica o sentido focal de ser como ser real ou existir no espaço e no tempo, do que decorre que o ser não é um predicado como vermelho, veloz ou malcheiroso, mas a condição para que algo o seja realmente, como mostram os cem táleres reais, conceitualmente idênticos aos cem táleres pensados, mas separados deles pela diferença entre ter e não ter, entre ser e não ser.
2. A ideia de que ser é primariamente estar no espaço e no tempo fundamenta a escolha da física como ciência de referência da metafísica e resulta da negociação de Kant com empirismo e racionalismo, censurando os leibnizianos por intelectualizarem os fenômenos e Locke por sensibilizar os conceitos, quando sensações chegam passivamente pelos sentidos e pensamentos são gerados ativamente, por dois canais absolutamente distintos física, lógica e metafisicamente.
3. O exemplo dos cem táleres vai ao cerne da questão, pois, como explicou Lange, um título do tesouro de cem táleres nominais podia ser convertido, quatro anos após a morte de Kant, em vinte e cinco táleres reais, evidenciando que a diferença entre o real e o ideal é toda a diferença entre ter e não ter, e que, do ponto de vista ontológico, só existe o atual e não o meramente possível, assim como um bilhete de loteria não equivale a um prêmio.
4. Do ponto de vista lógico, acrescentar a existência nada acrescenta de interessante ao que se pode conhecer, como pedir um espaguete à carbonara real é pedir o mesmo que um espaguete à carbonara, o que torna a diferença entre lógica e ontologia muito mais nítida do que para Leibniz, para quem o atual era o possível acrescido de existência, ao passo que para Kant só o atual existe e o ponto de referência é a experiência, entendida essencialmente como aquilo que a física descreve.
5. Essa conclusão, porém, não é óbvia e conduz à falácia transcendental, pois uma coisa é dizer que uma cerveja possível não mata a sede e outra é afirmar que só existem as coisas às quais a física se refere, caso em que não haveria professores, mas apenas átomos dispostos em forma de professor, mal distinguíveis de tantas outras formas.
Juízos sintéticos a priori
1. Na teoria do raciocínio, Kant inventou uma lógica inteiramente nova, a lógica transcendental, distinta da lógica geral que garante a validade dos argumentos, aplicada à experiência espaço-temporal pelo intelecto quando coopera com a sensibilidade, e da qual decorre a inédita família dos juízos sintéticos a priori, introduzida por três lances de eliminação e introdução.
2. Desaparecem primeiro todos os juízos analíticos a priori, pois o princípio de não contradição, exemplo maior de juízo analítico, não torna a experiência possível, apenas evita argumentos falaciosos, ao passo que a tese de que o eu penso deve poder acompanhar todas as representações, exemplo maior de juízo sintético, torna a experiência possível e funda a nova lógica, destronando o princípio que dominava como lei do pensamento e norma da realidade.
3. Desaparecem em seguida os juízos sintéticos a posteriori que preenchiam os tratados empiristas sobre a natureza humana, demasiado incertos para uma ciência genuína, que para Kant, como para Descartes, é o indubitável e evidente e, além disso, o matematizável, o que exclui a psicologia e a química do rol das verdadeiras ciências.
4. Surge, por fim, a curiosa família dos juízos sintéticos a priori, modelada nos juízos da matemática, necessários, não derivados da experiência e condições dela, e como os juízos matemáticos são seguros mas não constituem conhecimento, Kant se empenha em transformar em sintéticos a priori os princípios que os empiristas tomavam como sintéticos a posteriori, o eu, o espaço, o tempo, a substância e a causa, fundando-os nas certezas da física.
São possíveis os juízos sintéticos a priori?
1. O lance de Kant é de alto risco e pareceria temerário sem sua confiança na física, o que exige percorrer as etapas pelas quais se responde se são possíveis juízos sintéticos a priori na metafísica.
2. Na aritmética, a proposição sete mais cinco igual a doze é sintética porque o doze não está pensado nem no conceito de sete nem no de cinco, podendo ser obtido por outras somas, e a priori porque não deriva da experiência de contar objetos ou dedos, já que assim não se explicariam somas de números grandes.
3. O mesmo vale para a geometria, na qual os geômetras não descrevem, mas constroem.
4. Os modelos da aritmética e da geometria fornecem as duas primeiras teses metafísicas, a do espaço como a priori e naturalmente geométrico e a do tempo como a priori e naturalmente aritmético, embora este último vínculo seja enunciado com menos força.
5. Na física, a convicção de que princípios como a permanência da substância e a causalidade não podem derivar da experiência permite fundar nos êxitos dessa ciência as teses da substância e da causa, decisivas na polêmica antiempirista.
6. A naturalização da física pela metafísica completa-se com a introdução do eu penso, alheio às preocupações dos físicos, segundo a ideia de que o eu não é mero suporte ou página em branco onde se inscrevem sensações, mas a unidade sem a qual não há experiência.
7. A possibilidade dos juízos sintéticos a priori é, assim, a face pública da naturalização da física no núcleo da filosofia transcendental, para a qual as cinco teses ontológicas não são meras hipóteses de filósofo ou de cientista, mas os modos pelos quais todo ser semelhante ao humano se relaciona com o mundo.
Dogmas do empirismo, dogmas do transcendentalismo
1. Expostas as novidades kantianas, resta chamar a atenção para um ponto um tanto sutil.
2. A leitura da primeira Crítica suscita a pergunta sobre a diferença entre todos os corpos são extensos, paradigma de juízo analítico a priori porque a extensão estaria implícita no conceito de corpo, e todos os corpos têm peso, exemplo de juízo sintético a posteriori porque o peso só se conhece pela experiência de um corpo.
3. A questão é controversa por ao menos dois motivos, pois na época de Kant muitos admitiam corpos inextensos e, na ausência de gravidade, um corpo não tem peso, de modo que parece preciso experiência para saber que um corpo é extenso, e a experiência pode não informar que ele tem peso.
4. Com base em observações desse tipo, Quine procurou abolir a distinção entre analítico e sintético como mero dogma, já que os lexicógrafos que redigem dicionários não são menos cientistas empíricos que os autores de enciclopédias e todo saber, até o de que nenhum solteiro é casado, exige uma base cognitiva situada na terra do conhecimento e não no céu do raciocínio.
5. O argumento foi antecipado por Trendelenburg, para quem a distinção entre analítico e sintético se reduz à diferença entre o que se sabe há muito tempo e o que se ignora ou se aprendeu recentemente, sendo empírica e não transcendental, como ilustra a proposição fumar mata, hoje tida por analítica, mas sintética há cinquenta anos.
6. Leibnizianos e empiristas erraram ao julgar possível separar as proposições necessárias a priori da lógica das contingentes a posteriori da experiência, e o argumento de Quine vale igualmente contra a distinção kantiana entre juízos sintéticos a priori e a posteriori, já que os primeiros não são primitivos lógicos, mas reflexos do estado da ciência da época.
7. Kant não percebeu que seus sintéticos a priori do eu, da substância, da causa, do tempo e do espaço poderiam ser abstrações de princípios físicos porque estava convencido da identidade entre física e experiência e entre física e lógica, o que o levou a descrever a experiência nos termos da ciência e a supor os princípios da física inscritos a priori na constituição conceitual humana, sendo ironia histórica que justamente essa falácia tenha garantido o sucesso incontestado de sua filosofia.
