3 O que é herdado
FERRARIS, Maurizio. Goodbye Kant! Cosa resta oggi della Critica della ragion pura. Milano: RCS Libri, 2012.
Vinho novo em odres velhos
1. Para mostrar o que Kant deve à tradição que o precedeu, cabe responder a quatro questões fundamentais.
2. As questões consistem em saber se há em Kant uma metafísica e de que tipo, quais foram os modelos da Crítica da Razão Pura, qual foi o lance vencedor de Kant e quais são suas consequências.
A metafísica de Kant
1. Embora considerado pelos contemporâneos o Hume prussiano e lembrado como destruidor da metafísica, Kant ministrou aulas de metafísica durante trinta anos, justamente quando elaborava as três Críticas, comentando a Metaphysica do leibniziano Baumgarten, o que obriga a perguntar que disciplina era essa.
2. Tratava-se do ramo mais antigo e venerável da filosofia, a filosofia primeira concebida por Aristóteles para reunir os princípios mais gerais que permitem classificar toda a realidade, cujos escritos Andrônico de Rodes chamou de metafísica por virem depois dos livros de física, e cuja parte mais geral, a teoria do objeto, passou a chamar-se ontologia no início do século XVII.
3. A ontologia abrange tudo o que está no céu e na terra, o domínio dos objetos acessíveis à experiência, enquanto a metafísica trata do que a transcende, e esses dois temas constituem a matéria principal da Crítica da Razão Pura.
4. Que uma crítica da razão constitua uma ontologia não é evidente por ao menos três razões, pois Kant via a metafísica como um tatear no escuro e a de seu tempo como castelos no ar, julgava o termo ontologia pomposo demais e preferia substituí-lo por uma análise crítica da razão, e os intérpretes apresentam a filosofia transcendental como algo inteiramente novo e sem vínculo com a tradição.
5. Faz sentido, apesar disso, falar de uma metafísica ou ontologia kantiana, pois a Crítica da Razão Pura herda o sistema e o vocabulário dos leibnizianos, e por meio deles dos escolásticos, combinando-os com os ensaios, tratados e investigações empiristas sobre a natureza humana.
6. A estrutura da Doutrina dos Elementos reflete as subdivisões tradicionais da metafísica fixadas por Suárez e retomadas por Wolff, de modo que a Analítica corresponde à metafísica geral ou ontologia, que contém todos os conceitos puros a priori das coisas, e a Dialética à metafísica especial, que trata racionalmente da alma, do mundo e de Deus, convertidos por Kant em ideias.
7. Na Analítica encontra-se, portanto, a ontologia kantiana, obra de construção e não de destruição, sobre a qual se concentraram leituras opostas como a de Strawson, que nela vê uma metafísica da experiência, e a de Heidegger, que nela vê uma análise do ser humano finito, enquanto a Dialética, correspondente à metafísica transcendente, tem seu domínio legítimo na moral, desenvolvida na Crítica da Razão Prática.
8. Sendo plausível essa leitura, a ontologia de Kant como metafísica geral situa-se nas partes da tabela marcadas em cinza, e as em cinza-claro mesclam metafísica geral e especial.
9. O terceiro problema, devido sobretudo aos comentadores neokantianos e consagrado nos manuais, consiste em apresentar a Crítica como destruidora da metafísica por deslocar o foco do objeto para o sujeito, inaugurando a filosofia como teoria do conhecimento, cuja prova estaria no caráter transcendental atribuído por Kant às condições a priori do conhecimento.
10. Esse suposto divisor de águas oculta uma continuidade profunda, pois o termo transcendental não é um neologismo kantiano, mas um fóssil da escolástica medieval, que, a partir de Boécio, chamava de transcendentais as propriedades tão gerais que se aplicam a todo ente, como ser uno, verdadeiro e bom, condições mínimas para que algo seja alguma coisa.
11. Coerente com sua revolução, Kant reescreve tudo do ponto de vista do sujeito cognoscente, buscando os transcendentais na mente e não no mundo, sem deixar de afirmar em suas lições que o conceito supremo do conhecimento humano é o de objeto em geral, exatamente como Tomás de Aquino dizia do ente da coisa.
12. Abaixo dos transcendentais situam-se as categorias, gêneros menos elevados e mais utilizáveis, que Aristóteles e os escolásticos fixaram em dez e Kant em doze, distribuídas em quatro famílias de três, quantidade, qualidade, relação e modalidade, que exprimem as relações da mente com o mundo na formulação dos juízos.
13. Diante da abordagem clássica centrada no objeto, Kant surge como um revolucionário cauteloso que busca as categorias nos juízos do intelecto para evitar o catálogo desordenado e rapsódico de Aristóteles, o que configura uma transformação da ontologia e não uma ruptura com o passado.
Os modelos da Crítica da Razão Pura
1. Admitida a estreita relação entre crítica da razão e ontologia, cabe examinar os vínculos de Kant com os modernos e identificar os autores das partes da Crítica que permanecem invariantes em suas novas e estranhamente renomeadas moradas.
2. Ao chamar de estética a parte dedicada à sensibilidade, Kant segue Baumgarten, que assim designava a ciência do conhecimento sensível.
3. A ideia de uma crítica da razão provém do ponto de vista subjetivo adotado por Descartes e desenvolvido por Locke em chave de psicologia empírica.
4. Reunir a investigação ontológica sob o título de elementos remete ao uso antigo de Euclides, retomado por Clauberg, o primeiro a usar ontologia num título de livro, e as doutrinas dos elementos compostas do século XVII até Kant equivalem todas a ontologias, isto é, a catálogos raciocinados das coisas que existem.
5. A distinção entre Analítica e Dialética reflete a distinção de Suárez e Wolff entre metafísica geral e especial, mediando entre a escolástica e a nova metafísica subjetivista fundada por Descartes.
6. A doutrina transcendental do método funciona como uma espécie de Discurso do Método, mas com a ordem cartesiana invertida, pois em Kant a exposição do método sucede a análise ontológica em vez de introduzi-la.
7. O caráter sistemático do método da razão pura e sua exigência de uma arquitetônica devem-se não só a Baumgarten, mas também ao matemático alsaciano Lambert, amigo e correspondente de Kant.
8. Esses nomes servem mais como pontos de referência do que como fontes, já que Kant pouco se interessava pela história da filosofia, limitava-se a sinopses e manuais e provavelmente nunca leu Suárez nem ouviu falar de Clauberg, de modo que importa considerar as coisas mesmas, isto é, o conflito entre empirismo e racionalismo.
9. O pressuposto fundamental da distribuição kantiana das questões é o caráter arquitetônico do conhecimento, capaz de converter um agregado em sistema, ao qual corresponde a sistematicidade da experiência, o que leva Kant a impor um esquema conceitual às experiências espaço-temporais e a inovar diante do racionalismo com uma leve dose de empirismo e uma forte dose de física matemática.
10. A crítica da metafísica de inspiração empirista tem duas consequências importantes, a combinação da investigação ontológica dos objetos em geral com uma investigação psicológica do intelecto, vinda de Locke por meio de Wolff e Baumgarten, e a ideia humeana de que a experiência é base de todo conhecimento, mas insuficiente por ser indutiva e apenas provável, o que sugeria que os racionalistas não estavam inteiramente errados.
11. A revolução copernicana nasce assim do conflito entre a exigência de conduzir a crítica da razão nos moldes da psicologia empirista e da antropologia filosófica e a constatação de que essa psicologia meramente empírica não explicava a gênese do conhecimento, reduzindo até o saber mais abstrato a simples percepções.
12. Com esse lance, Kant pretende neutralizar o potencial cético do empirismo e a vacuidade do racionalismo, concentrando-se não nas coisas em si, mas em como elas se apresentam sob a forma de uma aparência necessária a um eu que não é uma psique individual, e sim uma estrutura a priori válida para todos.
13. A segunda grande manobra teórica de Kant assenta em outro conflito, entre a ideia de que só a experiência fornece conhecimento ampliativo, ou sintético, e a insuficiência do conhecimento empírico por ser apenas provável, resolvendo-se na concepção de que a filosofia primeira não deve buscar fatos incontroversos como ponto de apoio arquimediano, mas impedir que o mundo vacile sob os ataques do ceticismo.
14. Somados esses dois lances, obtém-se a teoria fundamental de Kant, na qual o empirismo fornece a referência à psicologia e à experiência e o racionalismo traz a ontologia e o a priori.
A naturalização da física
1. A reviravolta kantiana não envolve os objetos, mas o ponto de vista a partir do qual são considerados, e esse é o terceiro ponto crucial para a compreensão de sua teoria.
2. À pergunta sobre se Kant descreve a mente humana ou o mundo, a resposta é que descreve ambos ao mesmo tempo, como o mapa em escala real imaginado por Lewis Carroll, pois pela revolução copernicana mente e mundo são duas faces da mesma moeda, e a objeção de que isso reduziria astronomia e química a estudo da consciência é afastada pela afirmação de que as leis que a mente dá ao mundo são as da física.
3. No início da carreira de Kant, dois princípios eram amplamente aceitos nos círculos críticos de Leibniz e Wolff, o de que o conhecimento ampliativo só provém da experiência sensível, longe de ser óbvio numa época que ainda concebia a lógica como arte da descoberta, e o de que a experiência, por sua riqueza informativa, não podia garantir a certeza necessária própria da lógica e da matemática.
4. Segundo o argumento decisivo, cuja história Cassirer reconstruiu, os racionalistas respondiam aos empiristas apontando a matemática, que não é meramente provável, mas Kant rejeita as construções puramente nominais da metafísica racionalista, feitas de proposições analíticas como verbetes de dicionário, e reconhece que a matemática, embora ofereça proposições sintéticas, não constitui conhecimento, pois só há conhecimento do que está no espaço e no tempo, o que não vale para os números.
5. A solução está na física matemática, único caminho para noções tão seguras quanto as operações matemáticas e tão densas quanto as extraídas da experiência, de modo que a tarefa da metafísica passa a ser a naturalização da física, mostrando que o modo de fazer ciência coincide com o modo de ter experiência, caminho seguido pela maioria dos filósofos dos séculos XIX e XX, mas gerador de um mal-entendido fatal.
6. O mal-entendido consiste em que Kant, diferentemente de Galileu, não via a natureza como um livro escrito em linguagem matemática a ser lido pelo cientista, mas sustentava que a experiência é em tudo idêntica ao conhecimento fornecido pela física, por ambas repousarem nos mesmos princípios do intelecto puro, escolhendo como ponto de vista privilegiado não o que se vê, mas o que se sabe sobre os movimentos relativos.
7. Como a variabilidade do que os sentidos encontram no mundo dificulta uma metafísica da experiência e a necessidade é, para empiristas, racionalistas e Kant, uma noção puramente lógica, restituir necessidade ao que existe exige mostrar que alguns de seus traços mais gerais são necessários, por meio de um argumento em quatro fases exposto no prefácio da segunda edição da Crítica.
8. A lógica é uma doutrina certa e perfeita, mas concerne ao pensamento e não ao mundo, não podendo por isso ser fonte de conhecimento.
9. A matemática mostrou desde a Antiguidade que pode dispensar a experiência, pois os primeiros geômetras não copiavam triângulos nem descreviam objetos triangulares como um botânico classifica plantas, mas construíam figuras a partir de conceitos primitivos e intuições, sem que isso, contudo, forneça conhecimento, e sim apenas pensamento.
10. Com a revolução copernicana, a física moderna mostrou-se capaz de interrogar a natureza não como aprendiz, mas como juiz, organizando a experiência no esquema a priori das leis matemáticas e obtendo proposições com a certeza da matemática e a densidade cognitiva dos sentidos.
11. À metafísica que aspira a ser ciência resta naturalizar a física, mostrando que ela não é apenas um modo de interpretar a natureza, mas exprime a configuração dos sentidos e o funcionamento do intelecto, tarefa cumprida na Analítica, ao passo que a Dialética elimina as pretensões cognitivas das proposições sem conteúdo empírico verificável e transfere os impulsos que as produzem para o domínio da moral.
Consequências
1. O propósito é realizar a quadratura do círculo, apelando à experiência sensível real com a certeza garantida pela ciência matematizada da natureza, cujos êxitos são tomados como incontroversos e recomendados em termos metafísicos, ao preço de derivar da física os princípios metafísicos.
2. Nesse lance crucial reside a falácia transcendental, pela qual Kant, deslumbrado com os êxitos da física, confundiu ciência com experiência e epistemologia com ontologia, sendo a epistemologia relativa ao que se sabe e a como se sabe, e a ontologia relativa ao que existe independentemente de qualquer conhecimento.
3. Confundir epistemologia e ontologia é um erro comum, mas Kant, ao não se limitar a apontar as estruturas da experiência ordinária, comprometeu-se com uma metafísica prescritiva ou corretiva, que corrige o senso comum à luz da melhor teoria científica disponível e elimina expressões como o sol se pôs, o café esfriou ou eu me queimei em favor de descrições físicas e neurofisiológicas.
4. Propor uma metafísica corretiva não é em si um equívoco, já que os níveis descritivo e corretivo vivem em contínua simbiose, mas Kant e a maioria de seus seguidores fizeram da confusão entre esses níveis e suas atitudes uma questão de sistema e de princípio, caminho pavimentado de boas intenções cuja força foi enorme, o que torna necessário, antes de expor a falácia, evidenciar as principais inovações kantianas.
